Rafaela narrando
Hoje já era sábado. E, pela primeira vez desde que eu saí de casa… eu acordei animada de verdade.
Abri os olhos ainda deitada na cama simples daquele quarto e fiquei alguns segundos olhando pro teto. Um sorriso apareceu no meu rosto sem esforço.
Hoje tem baile. E não era qualquer baile. Era o baile. O tipo de noite que muda tudo. Ou pelo menos… que eu queria que mudasse.
Virei pro lado e peguei o celular. Já tinha algumas mensagens, mas nenhuma importava tanto quanto uma coisa específica que não saiu da minha cabeça desde o outro dia. Talibã.
Só de lembrar, senti aquele frio na barriga. Hoje eu ia ver ele de novo. E dessa vez… eu não ia deixar passar.
Levantei da cama com energia, diferente dos outros dias. O quarto ainda tava meio bagunçado por causa da mudança, mas nem liguei. Hoje não era dia de arrumar casa. Hoje era dia de me arrumar.
Olhei o relógio. Ainda era cedo. Perfeito. Quanto mais cedo eu começasse, melhor ia ficar.
Fui direto pro banheiro e comecei a me preparar. Como eu tava sem dinheiro pra salão, tive que me virar sozinha mesmo. Mas eu sempre dei um jeito. Sempre.
Liguei uma música no celular e comecei pelo cabelo. Escova, chapinha… demorou, mas fui fazendo com calma, prestando atenção em cada detalhe.
— Hoje você não pode errar — murmurei olhando meu reflexo.
Porque eu sabia. Hoje não era uma noite qualquer.
Depois fui pras unhas. Escolhi um esmalte que eu ainda tinha guardado e comecei a pintar com cuidado. Não ficou perfeito como no salão… Mas ficou bom. Bom o suficiente.
Passei um tempo escolhendo a roupa. Abri a mala, mexi em tudo até achar o vestido certo. Um que marcava bem o corpo. Do jeito que eu gostava. Do jeito que chamava atenção.
— Esse aqui… — falei sorrindo.
Separei ele e deixei na cama.
Quando terminei tudo, o quarto tava um caos. Roupa pra todo lado. Maquiagem aberta. Bolsa jogada. Mas eu tava linda. E era isso que importava.
Foi então que meu celular tocou.
Peguei na hora. Mensagem da Rubia.
— Eu e a Ana já tamo indo pro baile hoje 😈
Sorri na mesma hora.
— Sabia…
Respondi rápido e já comecei a dar uma organizada na casa. Porque eu conheço elas. Elas reparam em tudo. E eu não tava afim de ouvir gracinha.
Fui juntando as roupas, ajeitando o básico, organizando o que dava. Nada perfeito, mas pelo menos apresentável.
Quando terminei, eu já tava suada. Passei a mão no rosto.
— Aff…
Fui direto pro quarto e peguei um perfume. Passei generoso, sem economizar. Depois coloquei um lenço leve no pescoço. Não queria correr o risco de chegar fedendo. Hoje não. Hoje eu precisava estar impecável.
Foi então que o celular tocou de novo.
Peguei rápido, achando que era a Rubia. Mas quando vi o nome… Revirei os olhos. Fernanda.
— Ai, não… — murmurei.
Nem abri a mensagem. Nem quis saber. Sempre a mesma coisa. Pergunta, cobrança, preocupação… Eu não tinha paciência.
Ignorei na hora e fui direto pra conversa da Rubia. Liguei pra ela.
— E aí?
— Tô chegando na barreira já — ela disse animada.
— Então me espera lá, vou descer agora.
— Ta bom.- Desliguei na hora.
Peguei minha bolsa, meu celular e contei o dinheiro que ainda tinha. Não era muito. Mas dava pro gasto. Ou pelo menos… eu ia fazer dar.
Saí de casa trancando a porta e comecei a descer em direção à barreira. O clima já tava diferente. Música ao longe. Gente subindo. Movimento. Do jeito que eu gosto.
Quando cheguei lá, vi a Rubia e a Ana… mas também vi outra coisa. O vapor discutindo com elas.
Franzi a testa e me aproximei.
— O que tá acontecendo?
Rubia virou na hora.
— Ele não quer deixar a gente subir!
Olhei pro vapor. E reconheci. Era o mesmo que tinha me ajudado aquele dia com as minhas coisas.
— Porque, o que foi? — perguntei.
Ele cruzou os braços.
— Hoje é só pra morador.
— Mas elas tão comigo.
— Não importa.
Tentei dar uma enrolada.
— Ah, deixa disso… é só hoje…
Mas ele foi firme.
— Já falei.
— Que saco… — murmurei irritada.
Foi então que ouvi o barulho de uma moto. Na hora meu coração acelerou. Virei na expectativa.
— É ele… — pensei.
Mas não era. Era o sub.
Ele parou ali, tirou o capacete e olhou a cena.
— Qual foi?
O vapor respondeu:
— Elas querem subir, mas hoje não tá liberado.
O sub olhou pra gente. De cima a baixo. Analisando. Depois deu um meio sorriso.
— Pode deixar na minha responsa.
O vapor hesitou.
— Mas o patrão…
— Eu seguro o rojão.
Pronto. Foi o suficiente.
— SÉRIO?! — a Ana soltou.
A gente começou a comemorar na hora, dando pulinhos.
— Sabia! — Rubia riu.
Ele já subiu na moto de novo.
— Vejo vocês lá no baile — disse piscando.
Aquilo me animou mais ainda.
Começamos a subir o morro empolgadas, rindo, falando alto, completamente animadas. O som do baile já tava mais forte. As luzes. A movimentação. Tudo aquilo me dava energia.
— Hoje promete — Rubia falou.
— Hoje eu quero beber até esquecer meu nome. — Ana completou.
Eu só sorri. Porque, pra mim… Hoje era mais do que isso.
Hoje eu queria ele. Talibã. Queria chamar atenção. Queria fazer ele me notar de novo. E dessa vez… Não deixar escapar.
Olhei pra frente enquanto subia o morro, sentindo aquela mistura de ansiedade e adrenalina.
Hoje eu não queria pensar. Não queria problema. Não queria responsabilidade. Queria viver. Queria esquecer de tudo. Da Fernanda. Da casa. Dos problemas. De tudo.
— Hoje eu vou aproveitar muito — falei mais pra mim mesma do que pra elas.
E dessa vez… Era de verdade.
Porque hoje… Eu queria me perder. Nem que fosse só por uma noite.