Capítulo 09

998 Words
Fernanda narrando A casa ficou vazia depois que a Rafaela saiu. Mas não foi um vazio comum. Foi aquele tipo de vazio que pesa… que faz eco… que incomoda até o barulho do próprio pensamento. Eu fiquei sentada no sofá por um bom tempo depois que o carro levou ela embora. Sem mexer. Sem falar nada. Só olhando pro nada, tentando entender como a gente chegou naquele ponto. Minha irmã. Minha responsabilidade desde os dezesseis anos. Indo embora como se eu não fosse nada. Passei as mãos pelo rosto, respirando fundo. A preocupação veio na hora. Porque eu conheço a Rafaela. Conheço mais do que ela imagina. Ela é impulsiva, cabeça quente… não pensa nas consequências de nada. Vive o momento como se não existisse amanhã. E o problema é exatamente esse. A vida cobra. E cobra caro. Fechei os olhos por um segundo. — Você vai ter que aprender… — murmurei baixo. Não do jeito que eu queria. Mas do jeito que a vida ensina. Porque, infelizmente, ela fez a escolha dela. E agora… vai ter que lidar com isso. Levantei devagar do sofá e caminhei pela casa. Tudo parecia diferente. Mais silencioso. Mais pesado. Mais vazio. Parei na porta do quarto dela e empurrei devagar. O quarto tava praticamente vazio. Algumas coisas jogadas, o resto ela levou tudo. Entrei e fiquei olhando ao redor. Foi inevitável. As lembranças vieram. Eu lembrei da minha mãe. Do jeito que ela falava com a gente. — Vocês precisam cuidar uma da outra… porque quando eu e seu pai não estivermos mais aqui, vocês só vão ter uma à outra. Engoli seco. — A gente só tinha uma à outra… — falei baixinho. Mas, quando se trata da Rafaela… Eu não sei o que aconteceu. Sério. Eu não sei. Talvez eu tenha errado. Talvez eu tenha passado a mão demais na cabeça dela. Talvez eu tenha protegido tanto… que acabei estragando. Porque ela nunca precisou passar por nada. Nunca faltou comida. Nunca faltou roupa. Nunca faltou nada. Eu fiz questão disso. Mesmo quando eu não tinha. Mesmo quando eu passava dificuldade. Eu sempre dei um jeito. Pra ela não sentir. E agora… Agora ela tá perdida. Nesse mundo de festa, droga, homem… E eu não consigo parar de pensar que a culpa é minha. Saí do quarto devagar e fechei a porta. A noite caiu e, com ela, a minha cabeça não parou um segundo sequer. Eu tentei assistir alguma coisa. Tentei mexer no celular. Tentei até deitar. Mas nada funcionava. Minha mente só voltava pra Rafaela. Será que ela já tinha comido? Será que tava bem? Será que tava segura? Ou será que já tava metida em alguma confusão? Virei de um lado pro outro na cama. O relógio parecia não andar. Foi uma das piores noites que eu já tive. Quando finalmente o dia amanheceu, eu já tava acordada. Cansada. Mas acordada. Levantei devagar e fui direto pro banheiro. Lavei o rosto, me olhei no espelho. Olheira. Cansaço. Preocupação estampada. — Você não pode parar… Ela fez a escolha dela, então agora essa guia em frente até porque uma hora ou outra ela ia sair de casa seguir com a vida dela.— falei pra mim mesma. Porque a vida não para. Independente de qualquer coisa. Eu ainda tinha contas. Aluguel. Comida. Dívidas. Respirei fundo e entrei no banho. A água caiu sobre mim, mas dessa vez não levou o peso. Só amenizou. Saí, me arrumei com uma roupa mais apresentável. Nada demais, mas o suficiente pra passar uma boa impressão. Peguei meus documentos, coloquei alguns currículos dentro da bolsa e fui até a cozinha. Comi alguma coisa rápida. Sem muita fome. Mas precisava. Porque eu não sabia que horas ia voltar. Antes de sair, olhei a casa uma última vez. Silenciosa. Vazia. Diferente. Tranquei a porta e saí. O sol já tava alto quando comecei a andar. Primeira parada: um restaurante. — Bom dia, vocês estão contratando? A mulher no balcão nem olhou direito. — Não. Assenti. — Obrigada. Saí. Fui pra uma lanchonete. — Bom dia, posso deixar meu currículo? — Pode deixar, qualquer coisa a gente entra em contato. Aquela frase. Sempre a mesma. E quase nunca dava em nada. Continuei. Passei por lojas, mercados, até alguns escritórios. — No momento não estamos contratando. — Deixa o currículo. — Depois a gente liga. E nada. Em alguns lugares, eu nem precisava ouvir. O olhar já dizia tudo. Me analisavam de cima a baixo. E eu sabia. Não era sobre vaga. Era sobre aparência. Sobre padrão. Sobre coisas que eu não me encaixava. Mas mesmo assim, eu continuei. Porque desistir nunca foi uma opção pra mim. Quando percebi, já era quase quatro da tarde. Minhas pernas doíam. Meu corpo tava cansado. E minha cabeça… Pior ainda. Voltei pra casa devagar. Entrei, joguei a bolsa no sofá e fui direto pra cozinha. Minha última refeição tinha sido cedo demais. Eu tava com fome. Fiz alguma coisa rápida. Arroz, um resto de feijão… o que tinha. Sentei na mesa e comecei a comer em silêncio. A casa parecia ainda mais quieta naquele momento. Mas, dessa vez… O silêncio foi interrompido. Meu celular tocou. Franzi a testa e peguei ele na mesa. Número desconhecido. Atendi. — Alô? — Oi, Fernanda? — Sou eu. — Aqui é da loja de roupas que você deixou currículo hoje de manhã. Meu coração acelerou na hora. — Sim… — A gente gostou do seu perfil e queria saber se você pode vir amanhã fazer um teste. Por um segundo… Eu nem consegui responder. — Posso sim! — falei rápido, quase sem respirar. — Então vem amanhã às nove, tá bom? — Tá ótimo! — A gente te espera. — Muito obrigada! Desliguei o telefone e fiquei parada, olhando pra tela. E, pela primeira vez no dia… Eu sorri. Um sorriso de verdade. Pequeno. Mas cheio de esperança. — Vai dar certo… — murmurei. Porque, talvez… Só talvez… As coisas estivessem começando a melhorar.
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