Capítulo 11

1399 Words
Gustavo Pierone O dia começou como quase todos os outros: cedo demais e com café de menos. O relógio marcava seis e meia quando saí do apartamento ainda meio anestesiado pelo sono, já vestindo a armadura invisível que eu uso no trabalho. Ser ginecologista me ensinou muitas coisas — sobre o corpo humano, sobre silêncio, sobre confiança — mas também me ensinou a separar emoções em gavetas muito bem organizadas. Pelo menos é o que eu tento acreditar. O consultório já estava cheio quando cheguei. A primeira paciente do dia era uma mulher na casa dos trinta e poucos anos, primeira consulta comigo. O tipo de atendimento que exige mais conversa do que exame. Ela estava visivelmente nervosa, mãos inquietas no colo, voz baixa. Comecei como sempre faço: explicando cada passo, cada procedimento, tentando devolver a ela um pouco do controle que muitas pacientes perdem ao longo da vida. Falamos sobre rotina, histórico, medos. No fim, o exame foi tranquilo. Ela saiu aliviada, sorrindo de leve. Esses são os momentos que fazem tudo valer a pena — quando você percebe que, por algumas horas, foi um lugar seguro para alguém. O segundo atendimento foi completamente diferente. Uma paciente mais velha, objetiva, prática, dessas que não gostam de rodeios. Veio para acompanhamento de um tratamento hormonal. Exame rápido, perguntas diretas, respostas curtas. Ainda assim, existe algo reconfortante nesse tipo de consulta. Não exige muito de mim além da precisão e da responsabilidade. Às vezes, eu agradeço por atendimentos assim. Eles não mexem com nada aqui dentro. O terceiro atendimento do dia foi o mais delicado. Uma jovem, pouco mais de vinte anos, com atraso menstrual e o olhar carregado de ansiedade. Eu reconheço esse olhar de longe. Antes mesmo de qualquer resultado, ela já tinha mil cenários na cabeça. Fizemos o teste, conversamos longamente. Negativo. O alívio veio em forma de lágrimas silenciosas. Entreguei um lenço, expliquei as possíveis causas do atraso, falei com calma. Ela agradeceu mais vezes do que o necessário. Eu fiquei ali, em silêncio, respeitando aquele momento. Tem dias que o consultório vira quase um confessionário. Quando o último atendimento terminou, eu estava cansado de um jeito específico — não físico, mas mental. Aquela exaustão que não aparece no corpo, só na cabeça. Organizei prontuários, respondi mensagens da secretária, desliguei o computador. Mais um dia encerrado. Voltei para casa no fim da tarde, troquei a roupa social por algo confortável e desci direto para a academia do condomínio. Treinar é minha forma mais eficiente de desligar o mundo. Coloquei os fones, aumentei o volume e deixei o corpo trabalhar enquanto a mente finalmente se calava. Peso, repetição, respiração. Cada movimento era quase uma limpeza. Saí de lá suado, cansado, mas estranhamente mais leve. Depois do banho, preparei algo rápido para comer — nada elaborado. Frango, arroz, legumes. Comi no sofá, distraído, mexendo no celular sem realmente prestar atenção em nada. Deitei por alguns minutos, só o suficiente para o corpo entender que estava em casa. Mas não demais. Eu tinha planos. Levantei antes que o cansaço vencesse, me arrumei com calma. Camisa preta, jeans escuro, perfume na medida certa. Olhei meu reflexo no espelho e pensei, sem muita profundidade, que eu parecia exatamente o que eu sou: alguém que não espera grandes coisas da noite, mas que sempre acaba encontrando algo inesperado. Cheguei à balada já sentindo o som vibrar no peito. Luzes, vozes, aquele caos organizado que eu finjo não gostar, mas sempre acabo frequentando. Avisei Gabriel que tinha chegado e não demorou para encontrá-lo perto do bar. — Até que enfim — ele disse, sorrindo, copo na mão. — Pensei que ia dar pra trás. — Dia cheio — respondi, puxando uma cadeira. — Mas precisava sair. Gabriel é meu melhor amigo há anos. Ele me conhece mais do que eu gostaria. Sabe ler meus silêncios, minhas ironias, minhas fugas. Brindamos sem motivo específico, rimos de coisas banais, falamos sobre trabalho, sobre gente que não importa. A música aumentava, o ambiente ficava mais denso, mais solto. Eu ainda não sabia, mas aquela noite não seria só mais uma. E, como quase sempre acontece, eu só perceberia isso tarde demais. O copo já estava pela metade quando levei o primeiro gole mais longo. O whisky desceu queimando, do jeito que eu gosto. Encostei no balcão, observando o movimento, quando senti antes de ver. — Não acredito… — a voz veio atrás de mim, arrastada, familiar demais. Fechei os olhos por meio segundo antes de virar. Chloe. Vestido justo, curto, como sempre. Cabelo solto, maquiagem impecável, aquele sorriso que ela usava só quando sabia exatamente o efeito que causava. Ao lado dela, uma mulher que eu não conhecia — morena, mais discreta, mas com um olhar afiado. — Gustavo — Chloe disse, alongando meu nome como se tivesse i********e demais. — Quanto tempo. — Tempo suficiente — respondi, erguendo o copo. — Oi, Chloe. Ela riu, ignorando completamente o tom. — Continua do mesmo jeito… seco. — E você continua exagerando — retruquei, sem sorrir. — Essa é a Beatriz — ela apontou para a amiga. — Bia, esse é o Gustavo… aquele que eu te contei. Beatriz me olhou de cima a baixo, arqueando uma sobrancelha, claramente avaliando. — Ah… esse Gustavo — ela disse, sorrindo de canto. Antes que eu respondesse, Gabriel apareceu ao meu lado, como se tivesse sido invocado. — Estou interrompendo alguma coisa? — ele perguntou, já sorrindo. — Depende — Beatriz respondeu rápido demais. — Você é sempre assim bonito ou é só hoje? Gabriel riu, surpreso. — Geralmente sou melhor acompanhado. — Ótimo — ela disse, pegando o copo dele sem pedir e dando um gole. — Então vamos resolver isso. Chloe revirou os olhos, mas sorriu. — Eles se encontraram — ela disse, puxando minha atenção de volta pra ela. — Vamos pedir outra bebida? Olhei rapidamente para Gabriel, que já estava completamente envolvido na conversa com Beatriz. Eles riam, próximos demais para quem tinha acabado de se conhecer. — Parece que eles se entenderam — falei. — Melhor pra gente — Chloe respondeu, encostando no meu braço sem pedir permissão. Esse sempre foi o problema. Chloe nunca entendeu limites. Nunca foi algo casual o suficiente pra ela. E eu odeio mulheres pegajosas. Odeio a sensação de alguém tentando me encaixar em algo que eu não quero ser. Por isso nunca levei aquilo adiante, apesar das inúmeras vezes em que ficamos. Mesmo assim… eu estava ali. — Você sumiu — ela disse, fazendo bico. — Nunca mais respondeu minhas mensagens. — Eu não sumi — respondi, bebendo mais um gole. — Eu só… não continuei. — Você fala isso como se fosse algo técnico — ela riu. — Mas olha pra gente agora. Ela chegou mais perto. Perto demais. — Só estamos bebendo — falei. — Por enquanto. A música mudou, o grave ficou mais intenso. Chloe segurou minha mão. — Vem dançar comigo. Eu devia ter recusado. Sabia disso. Mas deixei o copo no balcão e fui. Na pista, o corpo dela encaixou no meu com uma facilidade irritante. Mãos na minha cintura, meu braço ao redor dela, o cheiro do perfume me envolvendo. Chloe dançava colada, sem pressa, como se aquele fosse exatamente o lugar dela. — Você lembra como a gente funciona bem junto — ela sussurrou no meu ouvido. — A gente funciona bem no momento — corrigi. — Sempre tentando racionalizar tudo… — ela disse, rindo, enquanto se movia mais devagar, provocando. A luz cortava o rosto dela em flashes. Eu desci o olhar sem querer. Ela percebeu. — Viu? — provocou. — Ainda sente. Antes que eu respondesse, ela segurou meu rosto e me beijou. Não foi um beijo tímido. Foi intenso, quente, cheio de vontade acumulada. Eu correspondi, puxando-a mais pra perto, sentindo o corpo dela reagir ao meu. O mundo ao redor virou ruído. Só existia aquele momento, aquela troca conhecida, perigosa. Quando nos afastamos, ainda próximos demais, ela sorriu satisfeita. — Você nunca resiste — disse. — Não confunda resistência com escolha errada — respondi, ainda com a respiração pesada. Ela riu, passando a mão pelo meu pescoço. — Então erra comigo essa noite. Olhei por cima do ombro e vi Gabriel e Beatriz desaparecendo no meio da multidão, rindo, completamente alheios ao resto do mundo. Voltei o olhar pra Chloe. E, contra todo meu bom senso, continuei ali.
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