Capítulo 12

2146 Words
Melissa Ferraz Meu celular vibrou em cima da cama enquanto eu ainda encarava o guarda-roupa aberto, tentando decidir quem eu seria naquela noite. Suspirei antes de pegar o aparelho. Melissa: “Amor, vou sair com a Liz hoje. Noite das meninas” A resposta veio rápido demais para alguém que costuma ser econômico nas palavras. Hugo: “Claro, meu amor. Vai lá se divertir. Você merece.” Franzi a testa, surpresa, e continuei. Melissa: “Sério? Achei que você fosse achar r**m…” Hugo: “De jeito nenhum. Confio em você. Aproveita, se divirta bastante. Eu vou trabalhar até mais tarde e depois vou direto pra casa dos meus pais. Estou bem cansado.” Mordi o lábio inferior, sentindo algo quente no peito. Melissa: “Você está um fofo hoje…” Hugo: “Hoje e sempre. Só que às vezes eu demonstro melhor. Me manda mensagem quando chegar, tá?” Sorri sozinha para a tela. Melissa: “Pode deixar. Te amo.” Hugo: “Também te amo. Fica linda, como sempre.” Bloqueei o celular e fiquei alguns segundos parada, absorvendo aquilo. O carinho inesperado. A compreensão. Parte de mim se sentiu acolhida… outra, estranhamente inquieta. Balancei a cabeça, afastando pensamentos desnecessários, e voltei minha atenção ao espelho. Escolhi um vestido que nunca tinha usado para sair à noite. Preto, curto na medida do ousado — mais do que eu costumava usar. Justo o suficiente para marcar meu corpo sem parecer exagerado. Quando vesti, senti um friozinho bom na barriga. Era eu… mas uma versão mais corajosa. A maquiagem veio leve: pele iluminada, delineado fino, cílios destacados, batom nude rosado. Nada pesado. Nada que escondesse quem eu era. O cabelo solto, levemente ondulado, caindo pelos ombros. Quando terminei, me encarei no espelho e quase não reconheci a mulher que me olhava de volta. Eu estava… deslumbrante. Não por vaidade. Mas porque me sentia bem. Peguei a bolsa, respirei fundo e segui para buscar a Liz. Quando ela abriu a porta, vestida com um top brilhante e calça de cintura alta, arregalei os olhos. — Liz… — falei, rindo. — Você tá um absurdo. — Olha quem fala — ela respondeu, me puxando pelo braço para dentro. — Melissa, você tá linda demais. Quem é você e o que fez com minha amiga discreta? — Resolvi ousar um pouco — dei de ombros, sentindo as bochechas esquentarem. — Um pouco? — ela riu. — Se o Hugo te visse agora… — Ele viu foto — respondi. — E foi estranhamente carinhoso hoje. Liz arqueou a sobrancelha, curiosa. — Estranhamente? — Sim… compreensivo, fofo, tranquilo. Mandou eu me divertir. — Milagre? — ela brincou. — Então vamos aproveitar esse momento histórico. Rimos juntas. Liz pegou a bolsa, conferiu o batom no espelho e desligou as luzes. No carro, a música já estava alta, as janelas abertas, o clima leve. A cidade passava rápido enquanto a expectativa crescia dentro de mim. — Hoje é noite das meninas — Liz disse, animada. — Sem culpa, sem pressão. — Sem pensar demais — completei. Ela sorriu pra mim. — Principalmente isso. Quando a balada apareceu à nossa frente, iluminada, pulsando energia, senti o coração acelerar. Algo naquela noite parecia diferente. Como se eu estivesse prestes a atravessar uma linha invisível — mesmo sem saber exatamente qual. Desci do carro respirando fundo. E segui em frente. Os drinks começaram a fazer efeito mais rápido do que eu esperava. Nada exagerado, só o suficiente para deixar os ombros mais soltos, o riso mais fácil, a cabeça menos cheia. Liz falava animada ao meu lado, gesticulando, dançando mesmo parada, e eu acompanhava, rindo, sentindo aquele alívio raro de estar ali sem pensar demais. Não fazia nem tanto tempo que tínhamos chegado, mas parecia que a noite já tinha ganhado ritmo. A música era boa, o ambiente vibrava, e eu me sentia… viva. Presente. Algo que eu não percebia estar sentindo falta até aquele momento. Eu dançava com Liz quando, sem motivo aparente, meu olhar deslizou pela pista. Foi instintivo. Como se alguma coisa tivesse me puxado. No começo, vi apenas um corpo familiar. A postura. O jeito potente de ocupar espaço. O movimento confiante, quase displicente. Meu coração deu um pequeno salto antes mesmo de eu reconhecer o rosto. Eu só precisava ver o rosto. E quando vi, o mundo pareceu perder o som por um segundo. Gustavo. Ele estava na pista, dançando. Próximo demais de uma mulher que eu não conhecia. Ela estava praticamente pendurada no pescoço dele, braços ao redor, corpo colado, boca na dele. Eles se beijavam com vontade, como quem não se importa com mais nada ao redor. Meu estômago revirou. O ar faltou de verdade. Como se alguém tivesse apertado meu peito por dentro. Pisquei algumas vezes, tentando entender porque aquilo estava me afetando daquele jeito. Não fazia sentido, nenhum. Ele tinha flertado comigo dias atrás. Conversas cheias de entrelinhas, olhares carregados de algo que eu tinha fingido não notar. E agora… ali estava ele. Inteiro em outra mulher. Entregue. Visível. Senti o chão oscilar levemente sob meus pés. — Mel? — Liz chamou, percebendo minha mudança. — Você tá bem? Assenti rápido demais, desviando o olhar, mas já era tarde. A imagem estava cravada em mim. — Tô… só calor — menti. Mas não era calor. Era um misto estranho de surpresa, decepção e algo que eu não queria nomear. Uma sensação incômoda de ter sido puxada para fora de um lugar seguro que eu nem sabia que estava ocupando. Voltei a olhar, contra a minha própria vontade. Eles ainda estavam lá. Rindo agora. Ele disse algo no ouvido dela e ela respondeu beijando o canto da boca dele. Familiar demais. Íntimo demais. Meu peito apertou outra vez. Afastei-me um pouco da pista, levando o copo à boca sem realmente sentir o gosto do drink. A música continuava, as luzes piscavam, a noite seguia… mas, dentro de mim, algo tinha mudado de eixo. Eu não sabia explicar o porquê. Só sabia que ver Gustavo ali, daquele jeito, tinha mexido comigo mais do que eu estava disposta a admitir. Meu olhar continuou vagando pela balada, quase como um reflexo automático. Eu precisava me distrair. Precisava apagar da cabeça a imagem de Gustavo, precisava fingir que nada daquilo tinha me atingido. Respirei fundo e virei o rosto para o outro lado da pista. E então eu vi. No começo, foi só uma silhueta conhecida demais. A altura. O jeito de segurar alguém. Meu corpo reconheceu antes da minha mente aceitar. Meu coração disparou de um jeito violento, desesperado. Não. Não podia ser. Mas era. Hugo. Meu noivo. Ele estava agarrado a uma mulher loira, muito próxima, rindo contra a boca dela, as mãos firmes demais para algo inocente. Eles se beijavam. Sem hesitação. Sem culpa. Como se o mundo inteiro tivesse desaparecido. A loira virou um pouco o rosto, e naquele ângulo… parecia ser a mesma mulher. A do shopping. Naquele instante, não foi só o ar que faltou nos meus pulmões. Foi como se o chão tivesse se aberto abaixo dos meus pés. A música virou um zumbido distante, grave, irritante. As luzes ficaram borradas. Tudo ao redor desacelerou, como se eu estivesse presa dentro de uma cena em câmera lenta que eu não tinha escolhido viver. E, como um golpe final, a lembrança veio inteira. O restaurante. O meu restaurante preferido. As velas, o sorriso dele, o joelho no chão. O anel. Meu “sim” dito com a voz trêmula de felicidade. Meu mundo desmoronou ali mesmo, no meio da pista de dança. As lágrimas não pediram permissão. Vieram como uma enxurrada, quentes, incontroláveis. Levei a mão à boca, tentando conter um som que parecia querer rasgar meu peito de dentro pra fora. E então… os olhos dele me encontraram. O sorriso de Hugo morreu no mesmo segundo. O corpo dele ficou rígido. Ele se afastou da loira como se tivesse levado um choque. Foi o suficiente. Não pensei. Não raciocinei. Apenas virei e saí. Empurrei pessoas, esbarrei em corpos, ouvi protestos distantes. Alguém falou meu nome, mas eu não parei. As lágrimas borravam tudo. O coração parecia querer sair pela garganta. Foi quando trombei em alguém com força. — Melissa? — ouvi uma voz surpresa, conhecida demais. Gustavo. Mal consegui olhar para ele. Murmurei um “desculpa” quebrado e continuei andando, atravessando a multidão como se estivesse fugindo de um incêndio. — Mel! — Liz gritou atrás de mim. — Melissa, espera! Saí da boate quase tropeçando, o ar frio da rua batendo no meu rosto molhado de lágrimas. Me curvei um pouco, apoiando as mãos nos joelhos, tentando respirar, tentando não desmoronar ali mesmo. — Mel, o que aconteceu? — Liz chegou ofegante, segurando meus ombros. — O que foi?! Antes que eu conseguisse responder, ouvi passos apressados. — Melissa! — a voz de Hugo veio carregada de pânico. — Espera, por favor! Gustavo apareceu logo atrás, confuso, o semblante tenso. Até a mulher que estava com ele surgiu alguns passos depois, observando a cena sem entender. Eu me virei lentamente, o peito em chamas, os olhos ardendo. Todos estavam ali. E eu nunca tinha me sentido tão exposta… nem tão quebrada. O ar frio da rua não conseguiu esfriar o que queimava dentro de mim. Minhas mãos tremiam, o peito doía como se estivesse sendo esmagado, e quando ergui o rosto para Hugo, toda a dor que eu estava tentando conter transbordou de uma vez. — Então era isso? — minha voz saiu falha, mas alta o suficiente. — Era isso o trabalho até tarde? Ele abriu a boca, desesperado. — Melissa, deixa eu explicar… — Explicar o quê, Hugo? — interrompi, sentindo as lágrimas escorrerem sem controle. — Isso aqui é a casa dos seus pais? — apontei de forma vaga para a entrada da boate. — É aqui que você vem descansar depois de um dia cansativo? Liz apertou meu braço, tentando me ancorar, mas eu já não conseguia parar. — Há quanto tempo isso está acontecendo? — perguntei, a voz agora embargada, quebrada. — Me diz. Um mês? Dois? Ou foi antes do pedido? Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente em pânico. — Não é o que você tá pensando, eu juro… — Não é o que eu tô pensando? — ri, um riso curto e desesperado. — Eu vi você beijando ela, Hugo. Do mesmo jeito que você me beija. Ou… me beijava. As palavras começaram a sair em enxurrada. — Como você pôde fazer isso comigo? — bati a mão no peito. — Comigo! Você acabou de me pedir em casamento. Você ajoelhou na minha frente, colocou um anel no meu dedo e me fez acreditar que a gente estava construindo algo de verdade! A loira estava parada alguns metros atrás, sorrindo, com cara de . Gustavo observava em silêncio, o maxilar travado. A mulher que estava com ele também assistia, sem saber onde enfiar o olhar. Todos me viam desmoronar. — Era por isso, não era? — continuei, sentindo a voz falhar ainda mais. — Era por isso que você estava distante. Por isso que chegava cansado demais, distraído demais, sempre com a cabeça em outro lugar. Por isso que eu implorava por atenção e você dizia que era só estresse! Hugo tentou se aproximar. — Mel, por favor, deixa eu falar… — Não! — gritei, dando um passo para trás. — Agora quem não quer ouvir sou eu. As lágrimas caíam sem parar, mas eu já não me importava. — Você me fez duvidar de mim mesma — disse, quase num sussurro. — Me fez achar que eu estava exagerando, que era insegurança minha. E tudo esse tempo… você estava com outra. Minhas mãos foram direto para a bolsa. Tirei as chaves do carro com um movimento brusco. — Eu só quero ir embora — falei, a voz cansada, o coração em pedaços. Saí andando em direção ao estacionamento, sentindo o corpo pesado demais para sustentar tanta dor. Apertei o botão para destravar o carro e puxei a porta do motorista. — Melissa, não! — Liz correu e segurou meu braço. — Você não tá em condição de dirigir. — Eu tô bem — menti, tentando me soltar. — Não, você não tá — ela disse firme, tomando as chaves da minha mão. — De jeito nenhum. Respirei fundo, derrotada. As pernas falharam por um segundo. — Entra — Liz falou, abrindo a porta do passageiro. — Eu dirijo. Sem forças para discutir, entrei. Fechei a porta e encostei a testa no vidro frio, enquanto Liz dava a volta no carro. Do lado de fora, ainda dava para ver Hugo parado, desorientado, me chamando pelo nome. Gustavo observava de longe, sério, como se entendesse mais do que aparentava. O carro arrancou. E, com ele, a vida que eu achava que tinha também ficou para trás.
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