Melissa Ferraz
Em toda minha vida, acho que nunca tive uma noite tão péssima quanto a de hoje.
Me levantei cedo, fiz todo meu ritual da manhã, antes do trabalho. Hoje já é sexta-feira, o que me faz animar um pouquinho.
Cheguei no colégio e fui direto para nossa sala, me deparando com uma Liz perdida em seus pensamentos, um olhar vazio que ao mesmo tempo demonstrava um milhão de coisas.
__ O que se passa nessa cabeçinha em?- Liz quase cai da cadeira de susto, o que me fez assustar também.
__ Garota do céu, quer me matar do coração?.- ela diz com os olhos estalados e com a mão no peito.
__ Perdão amiga, juro que não foi minha intenção.- digo com um sorriso sincero no rosto.
__ Eu sei que não amiga, eu realmente estava longe com meus pensamentos.
__ Quer conversar amiga? Faz dias que estou percebendo que você não está bem, está me deixando preocupada.
__ Eu realmente estou precisando por para fora tudo que guardo aqui dentro.- Liz diz com um olhar de tristeza que me deixa péssima, não gosto de vê-la assim.
__ Almoço hoje naquele restaurante de sempre?
__ Combinado.- agora vejo um lindo sorriso em seu rosto, que deixa meu coração mais leve.
A manhã começou com aquele barulho bom de escola viva — risadinhas, mochilas caindo no chão, vozes pequenas disputando atenção. Assim que as crianças entraram na sala, senti aquele cansaço antigo dar lugar a algo mais leve. Com crianças, isso sempre acontece. Elas não deixam espaço para o peso.
Começamos com a roda no tapete colorido. Eu sentei ao lado da Liz , ajudando a organizar a bagunça boa que se formava, enquanto cada um contava como tinha acordado. Eu me peguei sorrindo mais do que falando. Depois, espalhamos as caixinhas de massinha sobre as mesas e propusemos que criassem algo que representasse o dia deles. Teve sol torto, coração azul, dinossauro com asas. Criatividade pura, sem medo de errar.
Enquanto eles moldavam, a Liz e eu fomos circulando pela sala, ajoelhando ao lado de cada mesa, ouvindo histórias que começavam no meio e terminavam em gargalhada. Foi quando a Luna levantou a mão, com o cenho franzido de concentração.
— Pro Mel… — ela me chamou, baixinho, como se fosse um segredo.
— O que foi, Lua? — respondi, me abaixando ao lado dela, enquanto a Liz observava curiosa logo atrás.
Ela me mostrou a massinha toda colorida, meio bagunçada.
— Eu fiz você. Mas você tá sorrindo grande, porque você sempre sorri pra gente.
Meu peito apertou de um jeito bom. A Liz levou a mão ao peito, discretamente emocionada.
— E ficou parecida? — perguntei, brincando.
Ela analisou a obra com seriedade.
— Ficou. Só que menor… porque você é grande no meu coração.
Eu ri, engolindo a vontade de chorar, e dei um beijo estalado no topo da cabeça dela.
— Então é a versão de bolso da professora — falei.
— E eu fiz a pro Liz aqui do lado — Luna completou, apontando para uma massinha com óculos tortinhos.
A Liz riu.
— Gostei, ficou linda — respondeu, se abaixando para agradecer como se estivesse recebendo um prêmio.
Luna sorriu orgulhosa e voltou à massinha como se tivesse acabado de cumprir duas missões importantíssimas.
Depois vieram as músicas, os desenhos, a história contada com vozes diferentes que eles corrigiam o tempo todo, com a Liz entrando nas brincadeiras e inventando personagens extras. Quando percebi, o sinal tocou anunciando o fim da aula, e eu levei alguns segundos para entender.
Olhei em volta: lápis espalhados, mãos sujas de tinta, abraços inesperados. A manhã tinha passado rápido demais. Daquele jeito que só passa quando é boa, quando é cheia, quando faz sentido.
Saímos da sala juntas, eu e a Liz, com o coração leve, pensando que, por algumas horas, o mundo tinha sido simples. E isso, pra mim, já era tudo.
Saímos da escola ainda com o som das risadas das crianças ecoando no corredor. O cheiro de tinta guache parecia ter grudado na roupa e no cabelo, e eu sabia que aquele era o tipo de cansaço bom, que pede comida e conversa. A Liz caminhava ao meu lado, mais quieta do que o normal.
— Vamos almoçar? — sugeri, já atravessando a rua.
— Por favor — ela respondeu. — Se eu ficar mais cinco minutos na escola, vou começar a falar com massinha.
Sentamos no restaurante pequeno da esquina. O mesmo de sempre. O garçom nem perguntou, só anotou nossos pedidos.
— Você está diferente hoje — falei, mexendo no guardanapo. — Quietinha demais.
Ela suspirou, apoiando os cotovelos na mesa.
— É que minha cabeça está uma bagunça hoje, um turbilhão de pensamentos.
— Quer falar ou prefere comer primeiro? — perguntei, com um meio sorriso.
— Falar… antes que eu mude de ideia.
Eu me ajeitei na cadeira, dando a ela toda a minha atenção.
— Minha família anda complicada de novo
— ela começou. — Minha mãe joga tudo em cima de mim, como se eu tivesse que resolver cada problema. Meu pai… — ela fez um gesto vago com a mão — sempre some quando as coisas ficam difíceis.
— E você fica no meio — completei, com cuidado.
Ela me olhou, surpresa por eu ter entendido tão rápido.
— Sempre. E quando eu reclamo, ainda dizem que sou forte, que aguento. Ninguém pergunta se eu quero aguentar.
Estendi a mão por cima da mesa e toquei a dela.
— Você não é obrigada a carregar tudo sozinha, Liz.
O prato chegou, mas ela m*l olhou para a comida.
— Isso tudo me fez lembrar dele — disse, mais baixo.
Eu esperei.
— Eu achei que aquele relacionamento ia dar certo — ela continuou. — Eu me joguei de verdade. E no fim, ele foi embora… mas antes disso, me fez duvidar de mim, do que eu sentia, do que eu merecia.
— Isso não é amor — falei, sem pensar duas vezes.
Ela riu, sem humor.
— Pois é. Desde então, eu não acredito mais. Amor, pra mim, virou sinônimo de frustração.
— Talvez o problema não seja o amor — falei devagar. — Talvez sejam as pessoas que não sabem amar sem machucar.
Ela me encarou, pensativa.
— Você ainda acredita?
Pensei por um segundo antes de responder.
— Eu acredito em cuidado. Em presença. Em alguém que fica mesmo quando é difícil. Se isso é amor, então sim… eu acredito.
Liz respirou fundo.
— Eu só tô cansada de tentar.
— Então descansa — falei, apertando a mão dela. — Não desiste de você. O resto pode esperar.
Ela sorriu de leve, daquele jeito frágil que só aparece quando a gente baixa a guarda.
— Obrigada por me ouvir.
— Sempre — respondi. — Você não precisa enfrentar nada sozinha. Nem família, nem passado, nem descrença.
Enquanto voltávamos a comer, senti que aquele almoço não tinha resolvido os problemas dela. Mas tinha feito algo igualmente importante: lembrado a Liz de que ela não estava sozinha. E, às vezes, isso já muda tudo.
Ficamos alguns segundos em silêncio, só o barulho dos talheres preenchendo o espaço entre nós. A Liz mexia distraída no arroz quando algo dentro de mim apertou. Eu sabia que precisava dizer. Se não dissesse agora, ia pesar o resto do dia.
— Liz… — chamei, a voz mais baixa do que eu pretendia.
Ela levantou o olhar.
— O que foi?
Respirei fundo.
— Eu fiquei noiva ontem.
O garfo dela parou no ar.
— Você… o quê? — os olhos arregalaram num susto genuíno. — Noiva?
Assenti devagar, sentindo aquele misto estranho de expectativa.
— Ontem à noite.
Ela largou os talheres na mesa.
— Meu Deus, Melissa. — passou a mão pelo cabelo. — Isso é… isso é grande. Eu não fazia ideia.
— Ninguém sabe ainda — falei. — Você é a primeira.
Ela me encarou por alguns segundos, tentando ler meu rosto.
— Mas… — hesitou — você tá feliz?
A pergunta ficou suspensa entre nós. Eu queria que a resposta fosse simples. Queria poder sorrir largo e dizer que sim, que era isso, que finalmente tudo tinha se encaixado. Mas não era verdade. Não inteira.
— Eu tô… tranquila — respondi, escolhendo cada palavra. — Não exatamente feliz. Não daquele jeito que a gente imagina quando pensa em noivado.
Liz franziu a testa.
— Melissa…
— Não é r**m — me apressei em explicar. — É só… diferente. Parece a coisa certa. Segura. Estável.
— Mas você acredita nisso? — ela perguntou, com cuidado.
Abaixei o olhar.
— Eu acredito que nem todo amor vem como incêndio. Alguns vêm como abrigo.
Ela ficou em silêncio, absorvendo.
— E você quer um abrigo agora? — perguntou.
Pensei em tudo o que eu tinha vivido, nas dúvidas que tinham cessado quando o pedido veio, na sensação de que talvez fosse tarde demais para questionar.
— Eu acho que sim — respondi. — Ou pelo menos acho que deveria querer.
Liz estendeu a mão e segurou a minha com força.
— Você sabe que pode mudar de ideia, né?
— Eu sei.
— E sabe que não precisa se convencer de nada pra ninguém.
Sorri de leve.
— É por isso que eu te contei.
Ela suspirou.
— Eu fiquei em choque, confesso. Mas se você acredita que é o certo… eu tô do seu lado. Só não quero que você se contente com menos do que merece.
Meu peito apertou.
— Eu também não — falei, quase num sussurro.
Voltamos a comer em silêncio, mas não era um silêncio pesado. Era cheio de pensamentos. Eu sabia que aquele noivado ia mudar muita coisa. Mas, ali, com a Liz na minha frente, eu percebi que ainda precisava entender se o que eu chamava de “certo” era realmente o que eu queria.
E essa dúvida… era mais barulhenta do que eu gostaria de admitir.