Capítulo 18

899 Words
Melissa Ferraz A sala parecia um campo de batalha. Almofadas espalhadas pelo chão, uma cadeira fora do lugar, o abajur torto iluminando tudo de forma irregular. A luz amarelada criava sombras estranhas nas paredes, como se o próprio ambiente ainda estivesse tentando se recuperar do que tinha acontecido ali. O ar estava pesado. Carregado. Os gritos já tinham cessado, mas parecia que ainda ecoavam nas paredes, presos em cada canto da casa. Eu estava no meio daquele caos, tremendo, tentando entender como a minha vida tinha chegado àquele ponto. Minhas mãos não paravam de tremer. Meu peito doía como se alguém tivesse apertado meu coração com força demais. Gabriel me abraçava forte, um braço firme ao redor dos meus ombros, como se tivesse medo de que eu desaparecesse se ele me soltasse. O abraço dele era quente, protetor, e por um instante eu me permiti me esconder ali. Meu rosto estava enterrado no peito dele, molhando a camisa com lágrimas que já nem pediam desculpa. Eu chorava sem controle. Sem dignidade. Sem conseguir parar. Do outro lado da sala, Gustavo observava. Os olhos dele estavam escuros, em chamas. O maxilar tenso, os braços rígidos ao lado do corpo. Não era só raiva. Era algo mais profundo. Mais perigoso. Como se tudo o que tinha acontecido tivesse atravessado um limite dentro dele também. Como se ele estivesse lutando para manter o controle. — Eu não entendo… — minha voz saiu abafada, quebrada contra a camisa de Gabriel. As palavras saíram quase como um sussurro. — Eu não entendo como isso virou isso. Levantei o rosto devagar, sentindo o abraço do meu irmão se apertar um pouco mais, como se ele tentasse me proteger até das lembranças. Meus olhos ardiam. — A gente era bom, Gabriel — continuei, o choro voltando com força. — Não era perfeito… mas era bom. As lembranças vieram como facadas. Momentos simples. Risadas. Promessas que agora pareciam tão distantes. — Quando foi que deixou de ser amor? — minha voz falhou. — Quando foi que virou medo? Gabriel fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se cada palavra minha fosse um golpe nele também. Eu senti o peito dele subir e descer lentamente. — A culpa não é sua, Mel — ele disse firme, a voz baixa mas carregada de certeza. — Nunca foi. Balancei a cabeça imediatamente, negando, perdida dentro de mim mesma. — Eu fico pensando em cada sinal que eu ignorei… — falei, sentindo o peito arder. — Cada vez que eu achei que era exagero meu. Cada vez que eu inventei desculpas pra justificar as coisas. Passei as mãos pelo rosto molhado. — E agora… olha isso. — minha voz saiu fraca. — Olha pra mim. O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos. Era um silêncio pesado. Quase sufocante. Foi quando senti o peso do sofá afundar ao meu lado. Gustavo tinha se sentado. O movimento dele foi calmo, controlado. Como se ele estivesse medindo cada gesto para não me assustar ainda mais. Ele não falou de imediato. Apenas ficou ali. Próximo o suficiente para que eu sentisse a presença dele, sem me invadir. Então, com cuidado, ele estendeu a mão e segurou a minha. O toque foi firme. Quente. Real. Por um segundo, eu congelei. Levantei os olhos para ele. O olhar de Gustavo estava diferente de qualquer outro momento que eu tinha visto. Não havia ironia. Não havia provocação. Só preocupação. E uma raiva silenciosa direcionada a alguém que não estava mais ali. — Você não pode mais ficar aqui — Gustavo disse, a voz baixa, controlada, mas carregada de urgência. Meu coração disparou imediatamente. — Essa casa não te protege mais — ele continuou. — E você precisa denunciar ele, Melissa. Meu nome na boca dele soou diferente. Mais pesado. Mais verdadeiro. Como se ele estivesse dizendo algo que já tinha decidido muito antes de abrir a boca. — Eu tenho medo — confessei, apertando os dedos dele sem perceber. Minha voz saiu pequena. Quase infantil. — Medo do que ele pode fazer… medo do que pode acontecer depois… medo de tudo. Gustavo apertou minha mão de volta, como se estivesse me ancorando no presente. Como se estivesse dizendo sem palavras que eu não estava sozinha. — Eu sei — ele disse. Os olhos dele não se desviaram dos meus. — Mas você não vai passar por isso sozinha. Nem hoje. Nem depois. Gabriel se inclinou um pouco mais perto, a mão ainda firme no meu ombro. — A gente vai com você — ele completou. — Pra onde você quiser. Ele respirou fundo antes de continuar. — Delegacia, hospital, outro lugar… qualquer lugar. Fez uma pausa. — Mas você não fica aqui. Olhei para os dois. Meu irmão. O menino que sempre esteve ao meu lado desde a infância. E o homem que tinha entrado na minha vida de um jeito confuso, intenso e completamente inesperado. Dois olhares diferentes. Mas com a mesma promessa silenciosa. Proteção. E, pela primeira vez desde que tudo tinha desmoronado, eu senti algo diferente da dor. Não era felicidade. Ainda estava longe disso. Mas era algo novo. Uma sensação pequena, frágil… mas presente. Esperança. Talvez ainda houvesse um caminho depois daquele caos. Talvez eu ainda estivesse quebrada. Mas, ali, entre dois braços que me sustentavam, eu soube de uma coisa com certeza. Eu não precisava enfrentar os escombros sozinha.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD