Gustavo Pierone
Eu ainda estava acordado.
Deitado na cama, olhando para o teto, com a cabeça pesada demais para dormir. Cada imagem da noite voltava como um soco: o olhar perdido da Melissa, as marcas nos braços, a casa em silêncio depois que ela chorou.
Foi quando eu ouvi.
Um grito.
Não foi alto no começo. Foi rasgado. Desesperado. Um som que não vinha só da garganta — vinha da alma.
Eu levantei no mesmo segundo.
Outro grito. O nome não saiu claro, mas eu sabia que era ela.
Corri pelo corredor e abri a porta do quarto sem pensar, sem bater, sem me importar com nada além do fato de que alguma coisa estava errada.
— Melissa
Ela estava se debatendo na cama, o corpo tenso, os lençóis embolados, o rosto molhado de lágrimas. Os olhos fechados, a respiração descompassada.
— Não… para… — ela murmurava. — Por favor…
Meu peito apertou de um jeito quase insuportável.
— Melissa — chamei mais firme, me aproximando. — Ei, olha pra mim. Você tá aqui. Tá segura.
Ela acordou de repente, sentando na cama com um sobressalto, os olhos arregalados, perdidos, como se ainda estivesse presa ao pesadelo.
— Não encosta em mim! — gritou, a voz quebrada.
Aquilo doeu. Mas eu entendi.
— Sou eu — falei rápido. — Gustavo. Você tá na minha casa. Não tem ninguém aqui, só nós dois.
Ela começou a tremer.
O corpo inteiro dela cedeu de uma vez, como se toda a força tivesse ido embora, e então ela desabou.
Eu a segurei.
Sem pensar, sem pedir permissão, apenas a puxei contra o meu peito quando ela se agarrou a mim, os dedos cravando na minha camiseta como se eu fosse a única coisa sólida naquele mundo.
— Tá tudo bem — murmurei, envolvendo-a com os braços. — Eu tô aqui. Eu não vou soltar você.
Ela chorava sem controle, soluçando, respirando m*l, o rosto escondido no meu pescoço. Eu sentia o coração dela disparado contra o meu, como um passarinho assustado.
Apertei o abraço um pouco mais, firme o suficiente para ancorá-la, cuidadoso o bastante para não machucar.
— Foi só um sonho — repeti. — Passou. Você tá segura agora.
Ela levou alguns minutos para conseguir respirar direito. Eu fiquei ali. Sem pressa. Sem intenção além de sustentar aquele momento.
Minha mão subia e descia devagar nas costas dela, num gesto quase automático. Proteção. Presença.
Quando os soluços diminuíram, ela ainda não se afastou.
E eu não pedi que se afastasse.
Porque naquele instante, com ela quebrada nos meus braços, uma verdade se impôs de um jeito que eu não consegui ignorar:
Aquilo não era só cuidado.
Não era só raiva do que tinham feito com ela.
Era medo de perdê-la.
E pela primeira vez em muito tempo, eu não soube —
nem quis —
lutar contra isso.
Eu fiquei ali, com ela nos meus braços, enquanto o mundo parecia ter encolhido até caber naquele quarto.
O choro foi virando silêncio aos poucos. Não um silêncio tranquilo — um silêncio cansado, pesado, como se cada lágrima tivesse levado um pedaço da força dela embora. Senti quando o corpo dela foi relaxando contra o meu, o peso real, humano, confiado.
— Desculpa… — ela murmurou, a voz rouca, quase envergonhada. — Eu achei que… achei que ainda tava lá.
Meu maxilar travou.
— Não pede desculpa — falei baixo, firme. — Nunca por isso. Nunca.
Afastei só o suficiente para conseguir olhar para o rosto dela. Os olhos vermelhos, inchados. O medo ainda ali, escondido, como um animal ferido que não sabe se pode sair do esconderijo.
— Foi ele de novo? — perguntei com cuidado, mesmo sabendo a resposta.
Ela assentiu, quase imperceptível.
— No sonho… eu não conseguia gritar. Meu corpo não obedecia. Eu tentava correr, mas… — a voz falhou.
Puxei ela de volta pro meu peito antes que as palavras machucassem mais do que ajudassem.
— Aqui você grita — eu disse. — Aqui você corre. Aqui você manda. Ele não tem mais poder nenhum sobre você.
Eu precisava que ela acreditasse, sentei na beirada da cama com ela ainda envolta em mim. O quarto estava na penumbra, só a luz fraca do abajur iluminando metade do rosto dela. A outra metade ficava escondida na sombra, como se ainda estivesse em guerra.
— Você quer água? — perguntei. — Ou… quer que eu fique?
Ela não respondeu de imediato. Só apertou mais forte minha camiseta em sua mão.
Aquilo foi resposta suficiente.
— Eu fico — falei antes que ela precisasse pedir.
Ajustei os travesseiros e me encostei na cabeceira, puxando-a comigo, com cuidado. Ela deitou de lado, a cabeça apoiada no meu peito, como se aquele fosse o lugar mais seguro que encontrou.
Minha mão foi parar no cabelo dela, devagar, respeitando cada centímetro, cada limite invisível. Passei os dedos com calma, repetindo o gesto até a respiração dela começar a desacelerar.
— Você não tá sozinha, Melissa — murmurei. — Não agora. Não mais.
Ela respirou fundo, como se aquelas palavras finalmente tivessem encontrado um lugar para pousar.
— Tenho medo de fechar os olhos —
confessou, quase num sussurro.
Meu coração apertou de novo.
— Então não fecha — respondi. — Eu fico acordado por nós dois.
Ela soltou um som pequeno, que poderia ser um riso fraco ou um choro contido. Talvez os dois.
Ficamos assim por um tempo que eu não soube medir. Minutos? Horas? Não importava.
O importante era que, aos poucos, o corpo dela foi cedendo ao cansaço. Os músculos relaxaram. A mão na minha camiseta afrouxou. A respiração ficou profunda, regular.
Ela dormiu.
E eu permaneci ali, imóvel, com medo de que qualquer movimento pudesse quebrar aquele frágil acordo de paz.
O quarto estava silencioso, mas dentro de mim tudo gritava.
Raiva. Culpa. Medo.
E algo mais — perigoso, intenso, impossível de ignorar.
Eu olhei para ela, dormindo no meu peito, tão pequena apesar de toda a força que demonstra ter.
E fiz uma promessa silenciosa, daquelas que não se dizem em voz alta porque mudam tudo:
Enquanto ela estivesse sob o meu teto,
ninguém mais encostaria nela para machucar.
Nem por cima do meu cadáver.