Sempre era assim. Selene sentia que não deveria ter nascido. Correndo com o rosto marcado, se trancou em seu quarto e chorou. Chorou com raiva, com dor, com aquela mistura amarga de solidão e desespero. Ela odiava Mikael. Odiava a própria mãe por tê-la colocado naquele inferno. O choro vinha do fundo da alma, como se pudesse arrancar com ele toda a dor, todo o peso que carregava no peito desde que conseguia se lembrar.
Precisava conversar com a mãe. Precisava, pela primeira vez, saber quem era seu pai. Na noite anterior, durante o jantar, Beatriz havia deixado escapar que ele era grego. Grego. Aquilo ecoava na mente de Selene como uma revelação estranha e fora de lugar. Então ela tinha sangue grego correndo nas veias? Levantou os olhos para o espelho. A pele era clara, quase pálida, igual à da mãe. Os olhos azuis também vinham dela. Mas os cabelos castanhos escuros... talvez, só talvez, fossem do pai.
Enxugou as lágrimas com a manga da blusa. A marca do tapa de Mikael ainda ardia em seu rosto. Ele não tinha piedade. Já levantara a mão até para o próprio pai então o que faria com ela? Tremeu só de pensar. Tirou o moletom e a calça, trancou a porta com a chave. Não queria mais ser perturbada por aquele pervertido. Que se danasse o mundo. Que se danasse Mikael. Se preciso fosse, ela mesma colocaria fogo nele. Mas não permitiria mais que ele se aproximasse.
Dormiu com pensamentos sufocantes, desejando que tudo um dia acabasse.
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Acordou com batidas na porta. A voz de sua mãe soou irritada:
— Acorda, Selene! Você tem aula!
Deu um pulo. Tinha esquecido completamente. Último ano, era já para ela ter se formado no ensino médio,mas com sua mãe mudando de cidade e tudo, ela reprovou e justo agora tinha que começar em um colégio novo. Já previa o bullying, os olhares tortos, as fofocas. Não queria ir.
Ainda mas com 19 anos, teria meninas mais jovens que iriam tirar sarro pela sua idade.
Quando abriu a porta, sua mãe entrou como um furacão.
— Não está pronta? Mikael vai te levar.
Selene a olhou com desgosto.
— Eu não vou com aquele maluco! Ele deve estar só esperando uma chance de me matar e jogar meu corpo num deserto qualquer.
A mãe riu.
— Selene, você anda assistindo muito programa de crime, filha?
Ela ignorou o sarcasmo e encarou a mãe.
— E sobre meu pai? Ontem você disse que ele era grego. Qual o nome dele?
Beatriz desviou o olhar.
— Pra quê você quer saber? Ele nos abandonou. Só isso que você precisa saber.
— Então por que falou isso ontem... pra aqueles desconhecidos... mas pra mim, sua filha, nunca disse nada?
A mulher já estava perdendo a paciência.
— Se arrume logo, Selene!
Penteou os cabelos castanhos escuros, prendeu num r**o baixo e vestiu seu velho moletom azul-escuro, que combinava com os olhos. Desceu, tomou um café rápido. A mãe fingiu um carinho falso e lhe deu um beijo. Richard, pensou Selene, deveria achar que Beatriz era um anjo.
Lá fora, Mikael a esperava num Porsche. O coração de Selene acelerou nunca na vida imaginou que entraria em um carro daqueles. Entrou com cuidado, até com medo de sujar os bancos.
Mikael estava de roupa esportiva, impecavelmente bonito. Mas ela ignorou, fingiu não notar.
— Bom dia, coelhinha — disse ele, com um sorriso debochado.
Selene teve vontade de arrancar aquele sorriso do rosto dele.
Ele tocou o rosto machucado dela.
— Pelo visto, bati forte ontem...
Ela não sabia se ele falava com pena ou sarcasmo. Empurrou a mão dele.
— De você, não desejo pena. Só me leva logo, estou atrasada.
Ele acelerou, sem responder. Chegaram em dez minutos. Sua mãe havia dito que o colégio era particular, só para filhos da elite. As meninas pareciam ir a um desfile, não a uma escola. Os meninos se comportavam como idiotas.
Na sala, a professora anunciou:
— Hoje temos uma nova aluna. Apresente-se, por favor.
Engolindo a timidez, Selene se levantou:
— Meu nome é Selene Wilson. Espero que nos demos bem.
Algumas meninas cochichavam, quem é ela? Parece mais velha, e riam um ou outro menino jogava bolinhas de papel. Sentou-se num canto, aliviada quando a aula terminou.
No intervalo, ninguém falou com ela. Isso era o normal. Sempre foi.
Ao fim das aulas, quando se preparava para ir embora, um grupo de garotas a abordou na porta.
— Selene, né?
— Sim, sou eu.
— Você tá morando na casa do Sr. Richard?
Selene não entendia aquele interesse.
— Sim, estou.
— Então você é irmã do Mikael?
Ela arregalou os olhos.
— Não sou irmã dele. Minha mãe só casou com o pai dele. Com licença, preciso ir.
A menina segurou seu braço.
— Sempre quis me aproximar do Mikael. Ele é amigo do meu irmão. Você bem que poderia me convidar pra sua casa.
— Não.
— Por quê?
— Porque ele é um homem. E você é uma adolescente.
A menina riu com as amigas.
— Tá louca? Eu tenho 18. Sou mulher.
— Você não quer minha amizade. Só quer se aproximar do Mikael.
A garota se irritou.
— Todo mundo aqui sabe que sua mãe casou com o pai do Mikael por dinheiro. Você é filha de uma qualquer! E ainda tem a audácia de negar nossa amizade? Sua mãe é uma v***a! E você quer o Mikael pra você?
O sangue de Selene ferveu. Sem pensar, deu um soco na garota. Subiu em cima dela, a golpeava com fúria. Alguém a puxou.
— Me solta! Eu vou arrancar a língua dessa garota!
Era Mikael quem a segurava.
— Pelo visto, a coelhinha é uma tigresa — disse, rindo.
A menina no chão chorava.
— Mikael, essa garota é louca! Olha o que ela fez comigo!
Ele a ajudou a levantar.
— Calma, Bianca. Quer que eu chame seu irmão?
— Quero...
Mikael a acompanhou, deixando Selene sozinha, humilhada.
Meia hora depois, voltou furioso.
— Olha aqui, sua v***a! Eu não sou sua babá! Não sou seu irmão, muito menos algo seu pra ficar resolvendo seus dramas!
— E eu te pedi pra me buscar? Te pedi pra ser algo meu? Vaza da minha frente, bastardo!
Mikael a agarrou pelo braço e a arrastou até o carro. Jogou-a lá dentro, bateu a porta e arrancou com o carro. Não falou nada no caminho. Ao chegar na mansão, Selene saiu correndo. Mas ele a interceptou.
— Agora me conta o que realmente aconteceu.
— Não tenho por que te dizer nada. Você mesmo disse: não sou nada sua. Me deixe em paz.
Ele riu.
— Você leva tudo muito ao pé da letra, coelhinha...
Antes que ele pudesse dizer mais, Thamiris apareceu e o beijou. Selene percebeu o tom de provocação. Ela era linda. E deixava claro: Mikael era dela.
— Oi — disse Thamiris, seca.
— Oi — respondeu Selene, e subiu para o quarto.
Minutos depois, sua mãe invadiu o cômodo.
— Você enlouqueceu? Arrumando briga no primeiro dia de aula? Quer reprovar novamente? Aqui é outro nível, Selene! São os filhos dos mais importantes do país!
— Aquela menina me chamou de v***a. Disse que sou como você.
— E você dá ouvidos pra adolescentes?
— Eu não deveria, não estar nem estudando com adolescentes, a culpa é sua, essas mudanças de casa, atrapalhou meus estudos.
— Já falei: sorria. Finja. É seu último ano.
— Tá bem...
— No sábado teremos um jantar. É o primeiro evento como esposa de Richard. Não me faça passar vergonha. E nem pense em ir de moletom.
Selene não queria ir. Sabia que todos cochichariam sobre ela e a mãe. Mas não tinha escolha.
Durante a semana, visitou lojas com Beatriz até encontrar o vestido perfeito: preto, longo, com uma f***a na perna e decote nas costas. No sábado, prendeu o cabelo num coque delicado, com fios soltos. Colocou uma gargantilha com uma concha de cristais e a letra S presente que tinha desde criança.
Desceu. O salão estava lotado. Gente rica. Perfumes caros. Roupas caras. Viu a mãe, linda como nunca, rindo entre os convidados. Richard parecia feliz. Selene a observou... talvez, só talvez, houvesse amor ali.
Tentando fugir da agitação, esbarrou num rapaz de cabelos pretos e olhos verdes.
— Oi. Me chamo Mathias.
— Olá... Selene.
— Você é irmãzinha do Mikael?
— Ele não é meu irmão.
Ele riu. Pouco depois, Mikael apareceu.
— Mikael, por que não me disse que sua nova irmã era uma linda jovem?
— Você tá bêbado? Que beleza você vê nessa magricela?
Mathias riu.
Selene, envergonhada, se afastou. Tentava sumir entre os convidados, quando ouviu gritos. Correu.
Sua mãe, com a mão ensanguentada, uma taça quebrada. Richard gritava com Mikael, que mantinha o olhar demoníaco.
— Estão gostando da festa? A querida v***a do meu pai quem preparou!
O chão sumiu sob os pés de Selene.
Richard arrastou Mikael para dentro da casa. Beatriz tentou manter a pose. E Selene apenas... queria desaparecer.
Uma mão pousou em seu ombro.
— Você está bem, Selene?
Era...Mathias
— eu estou bem, mas ela não estava ela fingiu, ali ela não poderia demonstrar, ela sabia que naquele mundo só o mais forte sobreviveria.