"O Começo Do Caos"

1363 Words
Selene atravessou os portões da mansão em disparada, ofegante, com os olhos arregalados diante da cena que encontrou. Beatriz estava no centro do hall, descontrolada, com a mão direita ensanguentada e o vestido azul tingido de vermelho. Gritava palavrões como se cuspisse fogo, os olhos tomados por fúria. — Aquele bastardo maldito! Como ele ousa me humilhar daquela forma na frente de todos?! — rugiu ela, sacudindo a mão ferida no ar. Ao lado dela, Richard tentava contê-la com gentileza, mas seu semblante denunciava confusão. Era nítido que ele não sabia lidar com aquele lado da esposa. Beatriz, no entanto, não era uma mulher comum. Tinha um histórico de explosões, de reações viscerais diante de qualquer ameaça à sua imagem. Estava acostumada a vencer pelo grito, pela manipulação e, quando necessário, pela crueldade. — O que houve? — Selene perguntou, ainda trêmula, aproximando-se da mãe. Beatriz lançou-lhe um olhar cortante. — Aconteceu o que você viu, Selene! Aquele maldito do Mikael me odeia. Odiava a mãe dele e agora me odeia mais ainda por ter me casado com Richard! Ele me acusa de tudo. Disse que sou uma oportunista, uma interesseira… mas Richard só me conheceu depois que a mulher dele morreu! O tom da mulher oscilava entre a raiva e a súplica. Mas Selene conhecia sua mãe bem demais para acreditar em qualquer tentativa de vitimização. Beatriz não era inocente, e Richard, enfeitiçado por ela, parecia cego ao que todos enxergavam. — Richard… — murmurou Selene, em um último fio de esperança. — Diga alguma coisa. O homem não respondeu. Limitou-se a abraçar Beatriz com ternura, como se aquilo bastasse. Selene sentiu-se sufocada. A mãe havia manipulado tantos homens ao longo da vida… e agora, mais uma vez, parecia repetir o padrão. — Talvez a gente deva ir embora, mãe. Essa casa é do Mikael, e ele não quer a gente aqui — arriscou a jovem. — Cala a boca, Selene! — gritou Beatriz, girando para encará-la. — Richard é meu marido, esta também é minha casa! Se aquele bastardo aceita ou não, o problema é dele! — Mãe… — murmurou Selene. — Pare de chamá-lo assim. — Mas é o que ele é! Um bastardo ingrato que não aceita que o pai dele seguiu em frente! O silêncio de Richard doía mais que qualquer palavra. Selene virou-se, frustrada, e saiu para o jardim. Precisava respirar. A maior parte dos convidados já havia deixado a propriedade. Ela andou sem rumo, tentando processar os acontecimentos até que, sem perceber, deu de cara com Mathias. — Está tudo bem com sua mãe? — ele perguntou, com gentileza. — Ela está… como sempre — respondeu Selene, baixando os olhos. — E Mikael? — indagou o rapaz. Ela hesitou. — Não sei. Está bem? — Está sim. Só cansado. Mikael tem um temperamento difícil, mas não é r**m. Ele viu a mãe morrer lentamente, após um acidente. Ficou duas semanas no hospital… e quando Richard apareceu com outra mulher, com você… ele sentiu que a mãe tinha sido substituída ,explicou Mathias. Selene não respondeu. Apenas assentiu. Aquilo tudo explicava o ódio de Mikael… mas não justificava a crueldade com que a tratava. — Onde ele está agora? — perguntou, sem encarar o rapaz. — Com Thamiris — respondeu ele. O nome da namorada de Mikael a incomodou mais do que ela gostaria de admitir. Mathias deu um passo em sua direção, os olhos brilhando. — Você é muito bonita. Sabe disso? Ela corou, constrangida. — Não precisa mentir. Ele riu. — Não estou mentindo. Seus olhos são lindos. Sua boca, sua pele… você é encantadora. — Por favor… pare. Isso me deixa desconfortável — pediu Selene, dando um passo para trás. — Desculpa. Não quis ser inconveniente — disse ele, com um sorriso gentil. Despediu-se e a deixou sozinha. Selene voltou para dentro da casa e subiu as escadas. Parou, no entanto, ao ouvir gemidos vindos do quarto de Mikael. — Isso… mexe gostoso — a voz dele soou como uma faca entrando em seu peito. Thamiris gemeu alto logo em seguida. Selene ficou paralisada. Não queria escutar, mas não conseguia se mover. O som da relação s****l ecoava pelas paredes. Por fim, recuou, enojada, e correu para seu quarto. Trancou a porta e foi direto para o banho. A água gelada ajudou a aliviar a sensação de raiva e vergonha. Depois, deitada na cama, olhou fotos antigas da Grécia em seu celular. Imaginava se o pai biológico estaria em algum lugar por lá… se pensava nela. Era um desejo antigo, conhecer sua história. Adormeceu com o celular nas mãos. --- Na manhã seguinte, o sol iluminava o quarto, mas Selene não queria levantar. Sua mãe, porém, invadiu o espaço. — Levanta! — ordenou Beatriz. — Me deixa em paz, mãe… — Não posso. Preciso falar com você. Selene se sentou devagar. — O que foi agora? — mikael disse para Richard que só me casei com ele por dinheiro, acredita nisso?. — E você não casou? Beatriz hesitou. Então, largou a bomba. — Estou grávida. O mundo de Selene parou. — Como é? um filho do Richard? — Isso mesmo. Estou esperando um filho. Do Richard. Estamos juntos há dois anos. Dois anos. A mãe de Mikael morrera há dois anos. O cálculo era simples. — Você era amante dele — acusou Selene, com voz baixa. Beatriz não respondeu. Apenas mudou de assunto. — O que importa agora é que você terá um irmão. Mas Mikael… ele vai surtar. Estou com medo do que ele pode fazer. — Você causa destruição por onde passa e depois quer que todos aceitem sem reclamar — retrucou Selene. Beatriz explodiu. Avançou sobre a filha e a agarrou pelo pescoço. — Eu sou sua mãe! Você me respeita! — gritou. — Me solta! — berrou Selene, empurrando-a. — Você transformou nossas vidas em um inferno! Beatriz a soltou e saiu batendo a porta. Selene, ainda ofegante, se recompôs. Prendeu os cabelos, vestiu-se e desceu para o café. Todos estavam reunidos. Mikael e Thamiris sorriam com falsidade. Richard e Beatriz sentavam juntos. O clima era tenso. Mikael debochou: — Como está sua mão, querida madrasta? — Ótima — respondeu Beatriz, com veneno. — Cortei com uma taça… sem querer. — Sem querer? Jurava que fosse jogar em mim. Beatriz levantou-se com raiva e deixou a mesa. Thamiris sorriu e se despediu com um beijo estalado em Mikael. — Tchau, Selene — disse com ironia. Quando ela saiu, Mikael olhou para Selene. — Gostou do que ouviu ontem à noite, coelhinha? — Não sei do que está falando. — Sei que estava ouvindo. Ficou com t***o? — Seu nojento! Quem quer ouvir isso de você? — Quer que eu vá no seu quarto hoje? Só você e eu? Ela pegou a xícara de café e jogou no rosto dele. Estava fria. Pena. Mikael levantou furioso, agarrou o braço dela e a beijou com violência. Selene tentou se soltar, em vão. sentia nojo. — Me solta! Seu pervertido! Ele continuava. — Vai dizer que não gostou? Ou prefere o Mathias? Avisei a ele pra tomar cuidado com a filha da prostituta. Selene se desvencilhou, limpou a boca com raiva e correu para fora da casa. Caminhou por quase uma hora, até chegar a uma lagoa cercada por pedras. Sentou-se no deck e chorou em silêncio. Era ali, naquele lugar escondido e sereno, que ela se sentia segura. Seu refúgio. Quando escureceu, o celular estava quase sem bateria. No caminho de volta, um carro parou. Era Mathias. — Selene? O que faz aqui? Entra. Está perigoso. Ela hesitou, mas aceitou. O carro era confortável e ele ofereceu sua blusa. Ao chegarem, desceu e ouviu os gritos. — Selene! — Beatriz surgiu, furiosa. — Onde você se meteu? Antes que a garota respondesse, levou um tapa no rosto. — O que fazia com esse rapaz? Selene levou a mão ao rosto, humilhada. Richard e Mikael estavam na porta, observando. Mikael a fitava com ódio nos olhos. Mas dentro daquele olhar também havia algo mais sombrio. Algo que Selene começava, enfim, a entender: Ela era o alvo. E ninguém naquela casa estava disposto a protegê-la.
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