O zumbido chegou antes da consciência. Um som baixo e constante que vibrava nos meus ossos, subindo pela minha espinha e se alojando na minha cabeça. Havia um cheiro químico persistente, o fantasma doentio do pano que me roubou o mundo.
Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras pesavam uma tonelada cada. Tentei mover um braço, uma perna, mas meu corpo era uma marionete com as cordas cortadas, afundado em um colchão de veludo invisível. O tempo se desfez. Horas se misturaram em um borrão de inconsciência.
Um flash. Ar frio e cortante no meu rosto. O cheiro de combustível. Vozes, mais graves e ásperas do que as do meu pai. A língua era um rosnado de consoantes que dançavam fora do meu alcance. Senti meu corpo ser erguido, um peso morto nos braços de alguém forte. O cheiro de colônia cara e cigarro.
Depois, o abraço do veludo me engoliu de novo. E o zumbido mudou, ficou mais agudo, mais alto. Pressão nos meus ouvidos. Uma sensação de subida, de ser arrancada da terra. Eu estava voando. E depois, nada.
A próxima vez que a consciência voltou, foi devagar, como mel escorrendo. O zumbido tinha sido substituído por um balanço suave, o som de pneus deslizando sobre o asfalto. Abri os olhos, piscando contra uma luz que parecia diferente, mais dourada, menos agressiva que a do sol do meu Ceará.
Eu estava no banco de trás de um carro. Um carro tão luxuoso que o couro dos assentos parecia mais macio que a minha própria pele. Minhas roupas não eram mais as minhas; a farda do mercado tinha sumido, substituída por uma calça de moletom preta e uma camiseta de algodão, ambas grandes demais.
Meu coração começou a martelar contra as minhas costelas, um tambor de pânico. Quem teria feito aquilo sem o meu consentimento? Se podiam trocar minhas roupas e me tirar da minha casa contra a minha vontade, o que mais poderiam fazer comigo?
Olhei para a janela. O mundo lá fora era um quadro que eu nunca tinha visto. Colinas e mais colinas, de um verde tão intenso que doía os olhos, desciam em direção a um brilho azul no horizonte que só podia ser o mar. O ar que entrava pela fresta do vidro tinha um cheiro denso de terra e um toque de sal.
Oliveiras retorcidas, com seus troncos grossos e folhas prateadas, dividiam o espaço com as fileiras geométricas dos vinhedos. Entre eles, árvores escuras e pontudas se erguiam como sentinelas, e pequenas casas de pedra com telhados de terracota vigiavam a estrada, cercadas por muros que pareciam ter séculos de idade.
Não era o Brasil. Eu nunca tinha saído do meu estado, mas não era preciso ser uma grande viajante para saber daquilo. A luz do sol, a arquitetura das casas, as próprias árvores... cada detalhe era uma confirmação silenciosa.
A palavra que meu pai disse ecoou na minha cabeça: Itália. A certeza se instalou, fria e pesada, um fato incontestável. Aquele era o lugar para onde eu fui vendida. Meu olhar subiu para o espelho retrovisor, e meus pulmões simplesmente pararam de funcionar.
Eram os mesmos olhos. Frios, sem emoção, os mesmos que me observaram enquanto eu era arrastada para longe da minha família. O homem que me capturou estava dirigindo. Ele me viu acordada, mas sua expressão não mudou. Eu era apenas a carga que ele estava transportando.
A garganta arranhava, seca por não sei quanto tempo sem beber água. A desidratação era uma dor aguda. Como se lesse meus pensamentos, a mão dele se moveu. Ele pegou uma garrafa de água mineral no banco do passageiro e, sem se virar, estendeu-a para trás, para mim.
Fiquei encarando a garrafa. Um gesto de... cuidado? Não. Era manutenção. Ele estava apenas garantindo que a encomenda chegasse ao seu destino em condições aceitáveis. Meu instinto gritava para não aceitar nada dele, para não confiar, mas a sede era uma tortura. Com a mão trêmula, peguei a garrafa. O plástico estalou sob a força do meu aperto. Bebi a água em goles desesperados, cada gota um alívio doloroso.
Entreguei a garrafa de volta, vazia. Nenhuma palavra foi trocada. Forcei meu cérebro a trabalhar através da névoa. Pense, Emanuele. Pense. Onde eles estavam me levando? Para o tal noivo? Para o pai dele? Eu precisava observar. Memorizar cada detalhe. O pânico era um luxo que eu não podia me permitir. A única arma que eu tinha era a minha mente, e eu precisava dela afiada.
O carro diminuiu a velocidade, saindo da estrada principal para um caminho ladeado por árvores altas e escuras. O asfalto deu lugar ao cascalho, e o som dos pneus triturando as pedras era o único ruído no silêncio da tarde. Parecia que estávamos nos afastando de todo e qualquer vestígio de civilização. Meu corpo ficou tenso. Estávamos chegando.
O carro parou. O motor foi desligado, e o silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de expectativa. Meu carcereiro saiu e caminhou até a minha porta. Ele a abriu com um clique alto. A luz do sol me atingiu em cheio, e eu ergui a mão para proteger os olhos.
— Scendi — ele disse, a voz grave. A primeira palavra que ele dirigiu a mim. Seja lá o que signicasse.
Ele me puxou pelo braço, sem delicadeza, me forçando a ficar de pé sobre o cascalho. Meus joelhos fraquejaram. E então, eu levantei a cabeça. E o ar sumiu dos meus pulmões.
Não era uma casa. Era um monstro erigido por, sei lá, talvez gigantes. Um palácio de pedra clara e hera escura, com três andares de janelas que me encaravam como olhos vazios. Tinha a imponência de uma igreja antiga e a frieza de um mausoléu. Estendia-se para os lados, abraçando um jardim perfeitamente cuidado, tão vasto que parecia um parque. Era cercado por um muro de pedra alto, como uma fortaleza.
O carro partiu. Atrás de mim, ouvi o som de um portão de ferro, pesado e antigo, se fechando. O rangido foi seguido por um baque metálico, final e absoluto.
O som do mundo se fechando para mim.
Glossário:
Scendi: desça.