(Este capítulo se passa em Trapani, Sicília. Os diálogos a seguir são em italiano, traduzidos para a compreensão do leitor.)
O primeiro som do dia na villa Rossi era o da lâmina. Eu a deslizava com precisão sobre a navalha de couro, o som um sussurro metálico e ritmado que ordenava o silêncio. Diante do espelho veneziano do meu quarto, eu não via um homem de sessenta anos. Via um monumento. Via o poder que havia dobrado a Sicília à sua vontade.
Com a espuma de sândalo no rosto, comecei o ritual. A navalha era uma extensão da minha mão, obediente e letal. Cada movimento era deliberado, sem pressa. A pressa é um sintoma de fraqueza, de falta de controle. Eu sou um homem calmo.
Principalmente quando estou a me barbear. O bigode era a minha assinatura. Grisalho, perfeitamente aparado, um traço de elegância sobre uma boca que, me esposa costumava dizer, raramente sorria. Com uma pequena tesoura de prata, cortei um único fio rebelde. Perfeição.
Uma batida suave na porta de carvalho.
— Avanti.
Elena, a governanta, entrou sem fazer barulho. Ela estava a serviço da minha família há mais tempo do que meus filhos estavam vivos e entendia que palavras eram um recurso a ser economizado na minha presença.
— Don Rossi. O carro vindo do aeroporto passou pelo último vilarejo. Estará aqui em menos de uma hora.
Assenti, os olhos ainda fixos no meu reflexo. Uma hora. Sessenta minutos. Um tempo insignificante. Continuei a ajeitar o nó da minha gravata de seda.
— O café da manhã está servido?
— Sì, Don. Seus filhos o aguardam.
— Diga-lhes que já desço.
Elena se retirou, fechando a porta com um clique quase inaudível. A brasileira estava chegando. A chave para um novo continente. Um incômodo necessário. Mas ela chegaria no meu tempo, não no dela.
Desci para a sala de jantar. A longa mesa de mogno estava como eu exigia: imaculada, com apenas três lugares postos em sua cabeceira. Os talheres de prata brilhavam ao lado da porcelana fina. Sobre os pratos, o de sempre. Café forte, pão fresco, frutas da estação e queijo local. Comida de verdade. O excesso embota os sentidos.
Dante e Romeo se levantaram quando entrei. Um gesto de respeito obrigatório. Romeo, meu primogênito, era a imagem da disciplina. Postura ereta, olhar firme. O herdeiro perfeito para a Itália. Dante, por outro lado, era uma tempestade contida. Havia uma rebeldia em seus ombros, um fogo m*l disfarçado em seus olhos que eu ainda não decidira se era um trunfo ou uma falha a ser corrigida.
Sentei-me na cabeceira. Eles se sentaram em seguida. O silêncio se instalou, quebrado apenas pelo tinir discreto dos talheres contra a porcelana e pelo som de um criado servindo meu café. Era assim que eu gostava. Uma família que entendia que o silêncio é uma demonstração de poder.
Observei meus filhos. Romeo comia com a eficiência de um soldado. Dante m*l tocava na comida, o maxilar travado. Fraco. Ele confundia emoção com força. Precisaria aprender. A brasileira o ensinaria, quisesse ele ou não.
Finalmente, quebrei o silêncio. Meu olhar se fixou no meu filho mais velho.
— Como está Palermo?
Romeo pousou os talheres. Mastigou, engoliu, limpou a boca com o guardanapo. Cada gesto era uma prova de seu autocontrole.
— Calma, padre. Os negócios fluem como o esperado. Nossos associados mantêm a ordem. A cidade... — ele fez uma pausa deliberada, escolhendo a palavra certa — ...respeita a sua vontade.
E obedece ao novo Capo, pensei, sentindo o gosto da ironia. Ele era um bom menino, meu Romeo. Leal. Um bom gerente para a joia mais preciosa do meu império. Mas ele nunca deveria se esquecer de quem o colocou naquele trono, e quem poderia tirá-lo de lá.
Um dos criados se aproximou, curvando-se para sussurrar em meu ouvido.
— O carro chegou, Don Rossi.
Pousei meu guardanapo sobre a mesa. O momento havia chegado. Me levantei com a calma de quem sabe que está sendo esperado.
— Vamos — anunciei para a sala. Meu primogênito já de pé.
Então meu olhar encontrou o de Dante, prendendo-o. Vi o desafio, o medo, o ódio. E o esmaguei.
— Levanta-te, Dante, antes que eu o faça. Vamos agora conhecer sua noiva.
Glossário:
Avanti: "Entre" ou "Pode entrar".
Capo: Literalmente "cabeça" ou "chefe". Na hierarquia da Máfia, refere-se a um Caporegime, um capitão que comanda uma equipe de soldados e um território específico, reportando-se ao Don.
Don: Título de respeito dado ao chefe de uma família da Máfia.
Padre: Pai.