Capítulo 7 — Linha de Sangue

1046 Words
Lyra Eu não respondo mais. Depois da última mensagem, deixo o celular virado para baixo na mesa como se ele pudesse explodir. Troco a senha. Depois troco de novo. Depois desligo. Nada disso faz diferença. Porque o problema nunca foi o telefone. É ele. Passo a manhã inteira tentando agir como uma pessoa normal. Aula de Psicologia Criminal — ironia deliciosa — e eu finjo que presto atenção enquanto o professor fala sobre transtornos antissociais, ausência de empatia, padrões de manipulação. Eu não olho para trás. Mas eu sei que ele está ali. Sinto antes de confirmar. Quando o professor pergunta algo sobre comportamento predatório, o silêncio se espalha pela sala. — Senhorita Hale? — ele me chama. Eu travo. — Predadores não caçam por necessidade emocional — eu digo automaticamente. — Eles caçam porque podem. Porque gostam do controle. Silêncio. — Correto — o professor responde. E então, finalmente, eu olho. Kael está duas fileiras atrás. Observando. Não há sorriso. Não há provocação. Só… aprovação. E isso me irrita mais do que qualquer ameaça. No intervalo, eu decido fazer algo i****a. Decido ignorá-lo. Saio do prédio principal da Universidade Blackthorne e caminho direto para o estacionamento, onde encontro Noah encostado no capô do carro dele. Noah é seguro. Simples. Normal. Ele sorri quando me vê. — Ei. Sumida. — Estava ocupada. — Com o Draven? Eu suspiro. — Não começa. Ele franze o cenho. — Ele não é boa notícia, Lyra. — E você virou meu pai agora? Ele dá um passo mais perto. — Eu só não gosto da forma como ele olha para você. Meu estômago aperta. — E como ele olha? — Como se já tivesse decidido algo. Eu não respondo. Porque ele decidiu. Noah toca minha mão. Um gesto inocente. Simples. Mas o mundo muda. O ar fica pesado. A temperatura cai. Eu sei antes mesmo de ouvir a voz. — Solta. Noah vira. Kael está a poucos metros, mãos nos bolsos, expressão vazia demais. — Qual é o seu problema? — Noah pergunta. Kael ignora. Os olhos dele estão em mim. — Eu avisei. Meu coração dispara. — Você não manda em mim. Ele inclina levemente a cabeça. — Não? Noah se posiciona na minha frente. — Cara, dá um tempo. É quase engraçado. Quase. Kael dá um passo à frente. Depois outro. E outro. Sem pressa. Sem raiva aparente. Isso é o que assusta. — Você gosta dela? — Kael pergunta calmamente. Noah hesita. Erro. — Isso não é da sua conta. Kael sorri de leve. — Resposta errada. Eu m*l vejo o movimento. Só escuto o impacto. Noah cai contra o carro com um baque seco. Kael não grita. Não xinga. Ele segura Noah pelo colarinho e fala baixo demais para eu ouvir. — Para! — eu grito. Kael me ignora. Noah tenta reagir, mas Kael é preciso. Controlado. Um soco. Dois. O suficiente para deixar claro. Não é uma briga. É uma demonstração. Eu puxo o braço de Kael. — Chega! Ele para. Imediatamente. Como se tivesse esperado meu comando. Ele solta Noah, que desliza até o chão, atordoado. O silêncio no estacionamento é denso. Algumas pessoas assistem de longe, mas ninguém interfere. Claro que não. — Fica longe dela — Kael diz a Noah, a voz tranquila demais. — Ou eu termino o que comecei. — Você é maluco — Noah cospe sangue no chão. Kael dá de ombros. — Possível. Ele se vira para mim. — Entra no carro. — Vai se ferrar. Ele segura meu pulso. Não machuca. Mas não é gentil. — Entra. No. Carro. Há algo diferente agora. Algo mais escuro. E pela primeira vez, eu vejo um fio fino de algo que parece… irritação. Eu entro. Não porque ele mandou. Mas porque eu preciso entender. Ele dá a volta e assume o volante do meu próprio carro. — Sai — eu digo. Ele liga o motor. — Depois. Kael Eu dei a ela espaço. Observei. Esperei. E o que ela faz? Toca outro homem. Ela ainda não entende. Não é ciúme. É ordem. E ordem precisa ser mantida. Dirijo em silêncio. Ela está tensa ao meu lado. — Você não tinha o direito — ela diz. — Ele encostou em você. — Isso não te dá permissão pra bater nele! Eu olho para ela rapidamente. — Eu não pedi permissão. Ela respira fundo, tentando manter o controle. — Você não pode decidir quem chega perto de mim. Eu estaciono abruptamente em uma área isolada atrás do antigo prédio administrativo da Universidade Blackthorne. Desligo o motor. O silêncio é absoluto. Eu me viro para ela. — Posso. — Não. — Posso — repito, a voz mais baixa. — Porque eu não funciono como você. Ela tenta abrir a porta. Eu seguro seu queixo. De novo. Ela treme. — Você acha que isso é romance? — ela sussurra. Eu quase sorrio. — Isso não é romance. — Então o que é? Eu aproximo meu rosto do dela. Tão perto que sinto a respiração irregular. — Escolha. Ela fecha os olhos por um segundo. E eu vejo. Medo. Raiva. E algo mais. — Eu não escolhi você — ela diz. Eu toco levemente a linha da mandíbula dela. — Eu sei. O olhar dela encontra o meu. — E isso deveria me assustar? Eu encosto minha testa na dela. — Sim. O silêncio se prolonga. Ela poderia me empurrar. Poderia gritar. Poderia correr. Mas ela fica. E isso diz mais do que qualquer palavra. — Você machucou ele — ela murmura. — Eu poupei ele. — Isso é doentio. Eu a solto lentamente. — Eu avisei, Lyra. Eu não sou o herói da sua história. Ela engole seco. — Então o que você é? Eu saio do carro. Abro a porta do lado dela. Estendo a mão. — O começo do problema. Ela olha para minha mão como se fosse uma armadilha. Talvez seja. Mas, depois de alguns segundos que parecem eternos… Ela segura. E no instante em que seus dedos tocam os meus… Eu sei. Ela ainda acredita que pode me consertar. Ela ainda acredita que existe algo humano aqui. Mal sabe ela. O que eu sinto por Lyra Hale não é amor. É necessidade. E necessidade, quando negada… vira algo muito pior.
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