Lyra
Eu não respondo mais.
Depois da última mensagem, deixo o celular virado para baixo na mesa como se ele pudesse explodir. Troco a senha. Depois troco de novo. Depois desligo.
Nada disso faz diferença.
Porque o problema nunca foi o telefone.
É ele.
Passo a manhã inteira tentando agir como uma pessoa normal. Aula de Psicologia Criminal — ironia deliciosa — e eu finjo que presto atenção enquanto o professor fala sobre transtornos antissociais, ausência de empatia, padrões de manipulação.
Eu não olho para trás.
Mas eu sei que ele está ali.
Sinto antes de confirmar.
Quando o professor pergunta algo sobre comportamento predatório, o silêncio se espalha pela sala.
— Senhorita Hale? — ele me chama.
Eu travo.
— Predadores não caçam por necessidade emocional — eu digo automaticamente. — Eles caçam porque podem. Porque gostam do controle.
Silêncio.
— Correto — o professor responde.
E então, finalmente, eu olho.
Kael está duas fileiras atrás.
Observando.
Não há sorriso.
Não há provocação.
Só… aprovação.
E isso me irrita mais do que qualquer ameaça.
No intervalo, eu decido fazer algo i****a.
Decido ignorá-lo.
Saio do prédio principal da Universidade Blackthorne e caminho direto para o estacionamento, onde encontro Noah encostado no capô do carro dele.
Noah é seguro. Simples. Normal.
Ele sorri quando me vê.
— Ei. Sumida.
— Estava ocupada.
— Com o Draven?
Eu suspiro.
— Não começa.
Ele franze o cenho.
— Ele não é boa notícia, Lyra.
— E você virou meu pai agora?
Ele dá um passo mais perto.
— Eu só não gosto da forma como ele olha para você.
Meu estômago aperta.
— E como ele olha?
— Como se já tivesse decidido algo.
Eu não respondo.
Porque ele decidiu.
Noah toca minha mão.
Um gesto inocente.
Simples.
Mas o mundo muda.
O ar fica pesado.
A temperatura cai.
Eu sei antes mesmo de ouvir a voz.
— Solta.
Noah vira.
Kael está a poucos metros, mãos nos bolsos, expressão vazia demais.
— Qual é o seu problema? — Noah pergunta.
Kael ignora.
Os olhos dele estão em mim.
— Eu avisei.
Meu coração dispara.
— Você não manda em mim.
Ele inclina levemente a cabeça.
— Não?
Noah se posiciona na minha frente.
— Cara, dá um tempo.
É quase engraçado.
Quase.
Kael dá um passo à frente.
Depois outro.
E outro.
Sem pressa.
Sem raiva aparente.
Isso é o que assusta.
— Você gosta dela? — Kael pergunta calmamente.
Noah hesita.
Erro.
— Isso não é da sua conta.
Kael sorri de leve.
— Resposta errada.
Eu m*l vejo o movimento.
Só escuto o impacto.
Noah cai contra o carro com um baque seco. Kael não grita. Não xinga. Ele segura Noah pelo colarinho e fala baixo demais para eu ouvir.
— Para! — eu grito.
Kael me ignora.
Noah tenta reagir, mas Kael é preciso. Controlado. Um soco. Dois. O suficiente para deixar claro.
Não é uma briga.
É uma demonstração.
Eu puxo o braço de Kael.
— Chega!
Ele para.
Imediatamente.
Como se tivesse esperado meu comando.
Ele solta Noah, que desliza até o chão, atordoado.
O silêncio no estacionamento é denso.
Algumas pessoas assistem de longe, mas ninguém interfere.
Claro que não.
— Fica longe dela — Kael diz a Noah, a voz tranquila demais. — Ou eu termino o que comecei.
— Você é maluco — Noah cospe sangue no chão.
Kael dá de ombros.
— Possível.
Ele se vira para mim.
— Entra no carro.
— Vai se ferrar.
Ele segura meu pulso.
Não machuca.
Mas não é gentil.
— Entra. No. Carro.
Há algo diferente agora.
Algo mais escuro.
E pela primeira vez, eu vejo um fio fino de algo que parece… irritação.
Eu entro.
Não porque ele mandou.
Mas porque eu preciso entender.
Ele dá a volta e assume o volante do meu próprio carro.
— Sai — eu digo.
Ele liga o motor.
— Depois.
Kael
Eu dei a ela espaço.
Observei.
Esperei.
E o que ela faz?
Toca outro homem.
Ela ainda não entende.
Não é ciúme.
É ordem.
E ordem precisa ser mantida.
Dirijo em silêncio.
Ela está tensa ao meu lado.
— Você não tinha o direito — ela diz.
— Ele encostou em você.
— Isso não te dá permissão pra bater nele!
Eu olho para ela rapidamente.
— Eu não pedi permissão.
Ela respira fundo, tentando manter o controle.
— Você não pode decidir quem chega perto de mim.
Eu estaciono abruptamente em uma área isolada atrás do antigo prédio administrativo da Universidade Blackthorne.
Desligo o motor.
O silêncio é absoluto.
Eu me viro para ela.
— Posso.
— Não.
— Posso — repito, a voz mais baixa. — Porque eu não funciono como você.
Ela tenta abrir a porta.
Eu seguro seu queixo.
De novo.
Ela treme.
— Você acha que isso é romance? — ela sussurra.
Eu quase sorrio.
— Isso não é romance.
— Então o que é?
Eu aproximo meu rosto do dela.
Tão perto que sinto a respiração irregular.
— Escolha.
Ela fecha os olhos por um segundo.
E eu vejo.
Medo.
Raiva.
E algo mais.
— Eu não escolhi você — ela diz.
Eu toco levemente a linha da mandíbula dela.
— Eu sei.
O olhar dela encontra o meu.
— E isso deveria me assustar?
Eu encosto minha testa na dela.
— Sim.
O silêncio se prolonga.
Ela poderia me empurrar.
Poderia gritar.
Poderia correr.
Mas ela fica.
E isso diz mais do que qualquer palavra.
— Você machucou ele — ela murmura.
— Eu poupei ele.
— Isso é doentio.
Eu a solto lentamente.
— Eu avisei, Lyra. Eu não sou o herói da sua história.
Ela engole seco.
— Então o que você é?
Eu saio do carro.
Abro a porta do lado dela.
Estendo a mão.
— O começo do problema.
Ela olha para minha mão como se fosse uma armadilha.
Talvez seja.
Mas, depois de alguns segundos que parecem eternos…
Ela segura.
E no instante em que seus dedos tocam os meus…
Eu sei.
Ela ainda acredita que pode me consertar.
Ela ainda acredita que existe algo humano aqui.
Mal sabe ela.
O que eu sinto por Lyra Hale não é amor.
É necessidade.
E necessidade, quando negada…
vira algo muito pior.