Capítulo 6 — O que é meu

1061 Words
Lyra Eu deveria ter aprendido. Mas existe uma parte estúpida dentro de mim que ainda acredita que, se eu agir normalmente, as coisas vão voltar ao normal. Spoiler: não voltam. A semana inteira eu senti ele. Não me tocando. Não falando comigo. Só… ali. Observando. Eu cruzava o campus da Universidade Blackthorne e sentia aquele arrepio subir pela coluna antes mesmo de vê-lo. Como se meu corpo tivesse desenvolvido um radar específico para Kael Draven. Hoje o céu está cinza, pesado. O tipo de dia que combina com ele. Estou saindo da biblioteca quando percebo dois caras encostados no meu carro. Rindo. Um deles segura meu celular. Meu celular. — Devolve isso — digo, mantendo a voz firme. Eles trocam um olhar. — Calma, Hale. Só estávamos vendo suas fotos. Meu estômago despenca. — Apaga tudo. — Relaxa. A gente só queria saber se você tem algo interessante além dessa cara de santa. Eu avanço para pegar o aparelho, mas ele ergue o braço, fora do meu alcance. E então o riso deles morre. O silêncio cai como um peso. Eu não preciso olhar para trás para saber o motivo. — Solta. — A voz dele é baixa. Sem pressa. Sem emoção. Os dois engolem em seco. Quando me viro, Kael está a poucos metros. Mãos nos bolsos do casaco escuro. Expressão neutra demais. Olhos fixos demais. Um dos caras tenta rir. — A gente só estava brincando, Draven. Kael inclina levemente a cabeça. — Você tocou no que é meu. O ar some dos meus pulmões. Meu. Antes que eu possa processar, Kael atravessa a distância. Não é rápido. Não é explosivo. É controlado. Ele segura o pulso do garoto que está com meu celular. E aperta. O som que sai não é exatamente um grito. É mais um engasgo de dor. — Eu não repito — Kael murmura. — Solta. O celular cai no chão. Ele larga o pulso como se tivesse tocado algo sujo. Os dois recuam. Um deles ainda tenta recuperar o pouco de dignidade que restou. — Você é doente, cara. Kael dá um meio sorriso. — Eu sei. Eles vão embora. E eu fico ali. Paralisada. Ele se abaixa, pega meu celular do chão e me entrega. — Eles desbloquearam? Eu balanço a cabeça, ainda atordoada. — Não. Ele segura meu queixo. De novo. Como se tivesse direito. — Se mentir para mim, Lyra, eu vou descobrir. Meu coração dispara. — Não desbloquearam. Ele me solta. — Ótimo. — Eu não sou sua — escapa antes que eu consiga me impedir. Ele me encara. Longo demais. Intenso demais. — Você ainda não entendeu. Meu estômago se contrai. — Eu não pertenço a ninguém. Kael dá um passo mais perto. Agora estamos tão próximos que eu sinto o cheiro dele. Algo limpo, frio. Quase clínico. — Você não pertence a ninguém — ele concorda, a voz calma demais. — Mas eles não podem tocar. — Eles não são nada. — E você é? — retruco, tentando manter alguma dignidade. Ele observa meu rosto como se estivesse analisando uma peça rara. — Eu sou o que decide. Arrogante. Insuportável. Assustadoramente convincente. — Eu não pedi sua proteção. — Eu não ofereci proteção. Eu engulo seco. — Então o que é isso? Ele se aproxima mais um centímetro. — Controle. O mundo parece inclinar. — Eu não sou algo que você controla. Ele sorri de leve. Não é gentil. Não é divertido. É satisfeito. — Vamos testar essa teoria. Kael Ela ainda acha que tem escolha. Isso é quase… fofo. Eu observo enquanto ela entra no carro. Mãos tremendo levemente quando liga o motor. Ela tenta parecer forte. Gosto disso nela. Não é fraca. Só não entende o jogo. Eu poderia ter quebrado o pulso daquele i****a. Pensei nisso. Avaliei a pressão exata necessária. Mas não era necessário. Eles já entenderam. Todos vão entender. Lyra Hale não é território aberto. Ela é um ponto fixo. E eu não gosto que mexam nas minhas coisas. Meu celular vibra no bolso. Ignoro. Continuo parado ali enquanto o carro dela desaparece. Tenho observado a rotina dela há semanas. Os horários. Os lugares. As pessoas com quem fala. Ela acha que é coincidência nos encontrarmos sempre. Não é. Nada é coincidência quando envolve escolha. E eu escolhi ela. Não porque ela seja a mais bonita. Não porque seja a mais fácil. Mas porque ela me olhou naquele dia na escadaria da Universidade Blackthorne… e não desviou. As pessoas sempre desviam. Ela não. E isso foi um erro. Lyra Eu deveria estar com medo. E estou. Mas o que me apavora mais não é o que ele faz. É o jeito que meu corpo reage. O jeito que meu coração acelera quando ele chega perto. O jeito que eu sinto falta quando ele não aparece. Isso é doentio. Eu estou sentada na cama quando recebo uma notificação. Número desconhecido. “Troque sua senha.” Meu sangue congela. Outro alerta. “Algo mais difícil. Você é previsível.” Eu fico olhando para a tela. Ele. Eu não dei meu número para ele. Como ele— O celular vibra novamente. “Não é invasão. É precaução.” Eu me levanto, andando pelo quarto. “Você não tem o direito.” A resposta vem em segundos. “Eu nunca disse que tinha.” Meu coração bate forte demais. “Para.” Silêncio. Eu respiro aliviada cedo demais. O telefone vibra outra vez. “Se eu quisesse te machucar, Lyra, você já estaria machucada.” Meu estômago se revira. “Isso deveria me tranquilizar?” Demora alguns segundos. “Sim.” Eu fecho os olhos. Ele não ameaça gritando. Ele ameaça sendo lógico. É isso que me apavora. Porque ele realmente acredita que está certo. Eu digito antes de pensar: “Você é doente.” A resposta demora. E quando vem, eu sinto um arrepio percorrer meu corpo inteiro. “Eu sei.” E pela primeira vez desde que tudo começou… Eu percebo uma coisa muito pior do que medo. Ele não está fingindo ser frio. Ele não está interpretando um vilão. Kael Draven não quer ser salvo. Ele não quer amor. Ele não quer redenção. Ele só quer posse. E eu fui escolhida. E talvez — só talvez — eu esteja começando a gostar do perigo. E isso pode ser o maior erro da minha vida.
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