Aquisição

998 Words
Eu não dormi. O envelope ficou sobre a escrivaninha a noite inteira, como se estivesse me observando. “Você deveria ter levantado.” Simples. Direto. Sem assinatura. Mas eu sabia. Eu sentia. Kael Draven não parecia o tipo de pessoa que faz ameaças vazias. Ele não ameaça. Ele executa. — Passei a manhã inteira tentando agir normalmente. Café. Aula. Biblioteca. Mas a sensação de estar sendo observada grudou na minha pele como uma segunda camada. Não era paranoia. Era precisão. No corredor principal da Universidade Blackthorne, as câmeras ficavam discretamente posicionadas nos arcos de pedra. Eu nunca tinha pensado nelas antes. Agora eu pensava demais. Alguém sabia onde eu morava. Alguém entrou no meu quarto. Ou tinha acesso suficiente para saber quando eu não estava lá. Minhas mãos suavam. Eu deveria ir à administração. Denunciar. Mas denunciar o quê? Um bilhete. Uma frase. Sem prova. Sem assinatura. E contra quem? Kael Draven. O sobrenome dele estava gravado em metade dos prédios do campus. — Psicologia Criminal era minha última aula do dia. Eu cheguei cedo. Dessa vez, a cadeira ao lado dele estava vazia. Eu parei no meio do corredor. Era uma armadilha silenciosa. Se eu sentasse, estaria obedecendo. Se eu não sentasse, estaria desafiando. A sala começou a encher. Olhares curiosos. Esperando. Eu senti o calor subir pelo meu pescoço. E sentei. Exatamente no mesmo lugar. O silêncio veio logo depois. Ele entrou dois minutos depois. Passos calmos. Ritmados. Controlados. Não olhou para ninguém. Não cumprimentou ninguém. Mas quando se aproximou da fileira, os alunos naturalmente abriram espaço. Como se fosse instinto. Ele parou ao meu lado. Olhou para a cadeira. Depois para mim. Não sorriu. Mas algo nos olhos dele mudou. Aprovação. Ele se sentou. — Boa escolha — murmurou. Eu mantive o olhar no caderno. — Você entrou no meu quarto. Não era pergunta. Ele virou levemente o rosto na minha direção. — Eu não entro em lugares que não me interessam. Meu estômago afundou. — Então você se interessa? Ele demorou três segundos para responder. Três segundos medidos. — Sim. A palavra não carregava desejo. Carregava posse. O professor começou a falar novamente sobre padrões comportamentais obsessivos. Eu quase ri. — Por que eu? — perguntei baixo. Ele ficou em silêncio por um momento. — Você não reagiu como os outros. — Eu desviei o olhar. — Mas não imediatamente. A resposta foi rápida. Estudada. Ele tinha reparado. Detalhes mínimos. Pequenos demais. Eu engoli seco. — Isso não significa nada. — Significa curiosidade — ele disse. — E curiosidade é perigosa. — Para quem? Ele virou o rosto completamente para mim dessa vez. O olhar dele era clínico. — Para você. — No final da aula, uma garota da primeira fileira — loira, perfeita, claramente parte da elite — se aproximou de Kael. — A festa de sexta vai ser na ala norte. Você vai? Ele não olhou para ela. — Não. — Você nunca vai — ela insistiu, rindo nervosa. Foi quando ele finalmente ergueu os olhos. E eu vi. Não havia irritação. Não havia paciência. Não havia absolutamente nada. — Eu não frequento lugares barulhentos — ele disse. — Eles me distraem. Ela ficou vermelha. Saiu rápido. Eu comecei a guardar minhas coisas. — Você não gosta de pessoas? — perguntei antes de pensar. Ele colocou a mochila no ombro. — Pessoas são previsíveis. — E eu? Ele me encarou. Longo. Silencioso. — Ainda estou decidindo. Meu coração bateu forte. Não era flerte. Era avaliação contínua. Eu não era uma garota interessante para ele. Eu era um projeto. — Quando saí do prédio, o céu estava escuro. Frio demais para setembro. Meu celular vibrou. Número desconhecido. Uma mensagem. “Você trabalha até às 23h na cafeteria da Rua Belmont.” Meu sangue virou gelo. Não era pergunta. Era informação. Eu parei no meio da calçada. Respirei fundo. Respondi antes que o medo me paralisasse. “Isso é uma ameaça?” A resposta veio quase instantânea. “Não. É monitoramento.” Minhas mãos começaram a tremer. Ele estava me observando. Sabia meus horários. Minha rotina. Meu endereço. Cada pedaço da minha vida estava sendo analisado como um relatório. Outra mensagem chegou. “Você atravessa a rua sem olhar para os dois lados quando está ansiosa.” Eu quase deixei o celular cair. Ele estava perto. Ou tinha alguém observando. Ou… Eu virei lentamente a cabeça. Do outro lado da rua, encostado em um poste, mãos nos bolsos do casaco escuro… Kael Draven. Ele não acenou. Não sorriu. Apenas me observou. Como se estivesse testando algo. Meu limite. Minha reação. Meu medo. Meu interesse. Eu deveria correr. Deveria entrar no primeiro carro que passasse. Mas meus pés não se moveram. Ele atravessou a rua com calma. Parou a poucos passos de mim. — Você parece pálida — comentou. — Você está me seguindo. — Estou estudando. — Eu não sou um experimento. Ele inclinou levemente a cabeça. — Todos são. O vento soprou entre nós. Frio. — O que você quer de mim? — eu perguntei, finalmente. Ele se aproximou um passo. Sem tocar. Mas perto demais. — Eu quero ver até onde você aguenta. Meu coração disparou. — Aguentar o quê? Ele me observou como se a resposta fosse óbvia. — A mim. Silêncio. A rua parecia distante. Carros passando. Pessoas andando. Mas ali, naquele pequeno espaço entre nós, o mundo estava parado. — E se eu não quiser participar disso? — sussurrei. Ele sustentou meu olhar. Sem piscar. Sem hesitar. — Você já está participando, Lyra. E então ele se afastou. Como se a conversa tivesse terminado. Como se a decisão já tivesse sido tomada. Eu fiquei ali. Respirando com dificuldade. Tentando entender como, em menos de quarenta e oito horas, minha vida tinha se tornado um jogo que eu nunca aceitei jogar. Mas a pior parte? No fundo… Uma parte pequena e perigosa de mim queria saber até onde isso iria. E Kael Draven nunca começa algo que não pretende terminar.
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