Condicionamento

1178 Words
Eu deveria ter bloqueado o número. Deveria ter denunciado. Deveria ter corrido. Mas, em vez disso, eu fui trabalhar como se nada estivesse acontecendo. Como se não houvesse um homem observando cada passo meu. Como se eu ainda tivesse controle. A cafeteria da Rua Belmont era pequena, iluminada demais, sempre com cheiro de grãos queimados e açúcar caramelizado. O tipo de lugar que fingia aconchego. Eu vesti o avental às 18h em ponto. Às 18h07, meu celular vibrou. “Você prende o cabelo quando está nervosa.” Minhas mãos congelaram no meio do movimento. Eu estava prendendo o cabelo. Lentamente, olhei pela vitrine. Carros passando. Pessoas andando. Nada fora do comum. Mas ele estava ali. Em algum lugar. Observando. Outra mensagem. “Você morde o lábio quando está tentando parecer forte.” Eu soltei o lábio imediatamente. Meu coração estava acelerado demais. Eu respirei fundo. Respondi. “Você é doente.” A resposta demorou dez segundos. Longos. Precisos. “Eu sei.” Nenhuma defesa. Nenhuma negação. Só constatação. Isso era pior do que qualquer tentativa de se justificar. — Às 19h32, a porta da cafeteria abriu. O sino acima dela tilintou. Eu soube antes de olhar. O ar mudou. Kael Draven entrou como se aquele lugar lhe pertencesse. Casaco escuro. Postura relaxada. Olhos atentos. Algumas garotas na fila imediatamente ficaram tensas. Um dos baristas ao meu lado murmurou: — Por que ele está aqui? Eu não respondi. Kael caminhou até o balcão. Sem pressa. Sem olhar para o cardápio. Parou exatamente na minha frente. — Boa noite, Lyra. Ele nunca elevava a voz. Nunca precisava. — O que você quer? — perguntei, mantendo o tom profissional. — Café preto. Sem açúcar. Eu preparei. Minhas mãos estavam firmes demais. Controladas demais. Ele apoiou o braço no balcão enquanto me observava. Sem vergonha. Sem disfarce. — Você não deveria estar aqui — eu murmurei. — Você também não deveria ter sentado naquela cadeira. Toque. Direto. Meu maxilar tensionou. — Isso não te dá direito de me seguir. — Não estou seguindo — ele corrigiu. — Estou avaliando consistência. Eu empurrei o copo na direção dele. — Isso é assédio. Ele segurou o copo, mas não desviou o olhar. — Não. Assédio envolve intenção emocional. Meu estômago revirou. — E qual é a sua intenção? Ele inclinou levemente a cabeça. — Precisão. — Às 20h15, um cliente regular, Ethan, encostou no balcão. Ele vinha quase toda semana. Sempre educado. Sempre simpático. — Lyra, você vai na festa de sexta? — ele perguntou, sorrindo. Eu forcei um sorriso de volta. — Acho que não. — Você devia. É bom sair um pouco dessa rotina. Eu senti. Antes mesmo de olhar. O peso. Kael estava sentado sozinho em uma mesa no canto. Observando. Não conversava. Não mexia no celular. Só observava. Ethan continuou falando. — A gente pode ir junto, se você quiser. Eu ia responder quando vi Kael se levantar. Lentamente. Sem pressa. Ele caminhou até o balcão novamente. Parou ao lado de Ethan. Perto demais. — Ela já tem planos — Kael disse. Ethan piscou. — Ah… eu só estava convidando. Kael virou o rosto na direção dele. E ali estava. Não raiva. Não ciúme. Algo mais frio. Desinteresse absoluto pela existência dele. — Você não foi convidado a falar com ela. A voz saiu baixa. Sem emoção. Ethan riu nervoso. — Cara, relaxa. O erro foi tocar no ombro de Kael. Foi rápido. Instintivo. E suficiente. O movimento de Kael foi tão preciso que pareceu ensaiado. Ele segurou o pulso de Ethan. Girou. Pressionou. Um estalo seco ecoou. Ethan gritou. A cafeteria inteira congelou. Kael soltou o braço dele imediatamente. Como se tivesse terminado um experimento. — Eu não gosto de contato físico — ele disse, calmo. Ethan segurava o próprio pulso, o rosto pálido. — Você… você é maluco?! Kael apenas inclinou a cabeça. — Sim. Sem ironia. Sem provocação. Só verdade. O gerente saiu correndo do escritório. — O que está acontecendo aqui?! Kael pegou a carteira. Colocou dinheiro suficiente no balcão para cobrir qualquer dano. — Ele escorregou — respondeu. Ethan abriu a boca para contestar. Mas algo no olhar de Kael o fez hesitar. Algo primitivo. Instintivo. O gerente olhou para o dinheiro. Depois para Ethan. Depois para Kael. — Talvez seja melhor todo mundo esfriar a cabeça — ele murmurou. Ethan foi levado para fora. Eu fiquei parada atrás do balcão. Chocada. O coração batendo forte demais. Kael voltou para a mesa. Sentou. Tomou o café como se nada tivesse acontecido. — Quando meu turno terminou às 23h, eu saí tremendo. Ele estava encostado na parede do lado de fora. Esperando. — Você quebrou o braço dele? — perguntei. — Não. Apenas desloquei. — Você podia ter machucado sério. — Eu podia ter feito pior. O vento soprou entre nós. — Por quê? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Ele me encarou. Longamente. — Porque ele tocou em mim. — Isso não justifica. Ele se aproximou um passo. — Não estou interessado em justificar. Silêncio. — Você gosta disso? — perguntei. — Machucar pessoas? Ele pensou por um momento. Literalmente pensou. — Eu não sinto prazer — respondeu. — Sinto eficiência. Meu estômago apertou. — Você não é normal. Ele deu um pequeno sorriso. — Eu nunca disse que era. Eu dei um passo para trás. — Fica longe de mim. Ele observou o movimento. Registrando. — Isso não é uma opção. — Você não manda em mim. — Ainda não. Meu coração quase parou. — O que isso significa? Ele chegou mais perto. Não tocou. Mas o calor do corpo dele invadiu meu espaço. — Significa que você ainda está escolhendo ficar. Eu balancei a cabeça. — Eu não estou escolhendo nada. — Está, sim — ele murmurou. — Você não correu. E ele tinha razão. Eu não tinha corrido. Mesmo depois do envelope. Mesmo depois das mensagens. Mesmo depois do braço deslocado. Eu ainda estava ali. Olhando para ele. Respirando o mesmo ar. — Eu poderia destruir sua rotina inteira em uma semana — ele continuou, calmo. — Bolsa cancelada. Emprego perdido. Transferência forçada. O sangue sumiu do meu rosto. — Mas eu não fiz. — Isso é uma ameaça. — Não. É demonstração de controle. Minhas mãos tremiam. — O que você quer de mim? Ele sustentou meu olhar. Sem piscar. — Quero ver quando você vai quebrar. O mundo pareceu inclinar. — Eu não vou. Um pequeno sorriso surgiu. Frio. Confiante. — Todos quebram. Ele deu um passo para trás. — Boa noite, Lyra. E foi embora. Como se tivesse apenas confirmado uma hipótese. Eu fiquei ali. Sozinha na calçada. Tentando respirar. Tentando entender. Ele não estava interessado em romance. Nem em sexo. Nem em paixão. Ele queria poder. Controle. Condicionamento. Eu não era uma garota. Eu era um limite. E Kael Draven queria descobrir exatamente onde ele estava. — E, pela primeira vez desde que isso começou… Eu tive medo de que ele estivesse certo. Porque alguma coisa dentro de mim… Ainda não tinha ido embora.
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