Invasão

1082 Words
Eu troquei a fechadura. No dia seguinte. Usei metade do meu salário para pagar um chaveiro às sete da manhã, antes das aulas. Ele trabalhou rápido. — Problema com ex-namorado? — perguntou, casual. Eu quase ri. — Algo assim. Se fosse só um ex, seria fácil. Ex você bloqueia. Psicopata você não sabe onde começa. — Passei o dia inteiro com uma tensão estranha sob a pele. Como se eu estivesse esperando um acidente que ainda não aconteceu. Kael não apareceu na primeira aula. Nem na segunda. Na terceira, Psicologia Criminal, a cadeira ao meu lado estava vazia. Pela primeira vez desde segunda-feira… vazia. Senti algo que me irritou imediatamente. Alívio. E uma ponta absurda de frustração. Eu odeiei isso. O professor falava sobre escalada comportamental. — Quando um indivíduo testa limites e não encontra resistência significativa, ele tende a avançar. Eu não consegui anotar nada. A cadeira continuava vazia. Ele não apareceu. — Às 22h48 eu estava no meu quarto. Tranquei a porta. Conferi duas vezes. Fechei a janela. A cortina. O envelope preto ainda estava guardado na gaveta, como prova silenciosa de que eu não estava imaginando coisas. Eu sentei na cama. Respirei. Talvez ele tivesse se cansado. Talvez eu não fosse interessante o suficiente. Talvez ele tivesse encontrado outro “experimento”. Meu celular vibrou. Número desconhecido. Meu estômago despencou. “Nova fechadura. Modelo comum. Fácil de abrir.” Meu corpo inteiro congelou. Eu virei lentamente o rosto para a porta. Trancada. Imóvel. Silenciosa. Outra mensagem. “Você deveria pesquisar antes de gastar dinheiro.” Meu coração começou a bater tão forte que doía. Eu levantei da cama devagar. Aproximei-me da porta. Encostei o ouvido. Nada. Silêncio absoluto. Eu respirei fundo. Ele estava tentando me assustar. Era isso. Manipulação. Pressão. Jogo psicológico. “Você não está aqui.” Eu digitei. A resposta veio. “Não estou?” A maçaneta girou. Devagar. Sem pressa. Sem força. Como se fosse rotina. Como se fosse normal. O clique da fechadura abrindo ecoou no quarto pequeno. Eu senti o mundo afundar sob meus pés. A porta abriu alguns centímetros. E então ele entrou. Kael fechou atrás de si. Tranquilo. Casaco escuro. Mãos nos bolsos. Postura relaxada. Como se estivesse visitando uma colega de classe. Eu não conseguia me mover. — Como você… — minha voz falhou. Ele ergueu a chave entre os dedos. — Cópia antiga. Eu nunca tinha dado chave para ninguém. — Isso é invasão — sussurrei. — Sim. Ele não negava nada. Não escondia nada. Era isso que tornava pior. Ele caminhou lentamente pelo quarto. Olhou a escrivaninha. Os livros. A cama desarrumada. Minha mochila jogada no canto. Nada escapava do olhar dele. — Espaço pequeno — comentou. — Você dorme m*l aqui. Meu sangue gelou. — Sai daqui. Ele parou. Virou-se para mim. — Você está tremendo. — Eu vou chamar a polícia. Ele inclinou levemente a cabeça. — Não vai. O tom não era desafiador. Era factual. E eu odiava que ele provavelmente estivesse certo. Porque explicar o quê? Que um herdeiro milionário entrou no meu quarto sem arrombar nada? Que ele mandou mensagens? Sem prova. Sem testemunha. Minha palavra contra a dele. — Por que você está fazendo isso? — perguntei. Ele se aproximou um passo. Depois outro. Eu recuei até minhas costas encostarem na parede. Sem toque. Mas perto. Sempre perto demais. — Porque você ainda não quebrou. Meu coração estava descontrolado. — Isso é um jogo para você? — Não. — Então o que é? Ele me estudou por alguns segundos. Longos. Precisos. — Condicionamento. A palavra caiu como gelo. — Eu não sou um animal. — Todos são — ele respondeu. — Alguns só fingem melhor. Ele ergueu a mão lentamente. Eu prendi a respiração. Mas ele não tocou em mim. Ele tocou a parede ao lado do meu rosto. Prendendo-me ali sem contato. — Você mudou a fechadura — murmurou. — Tentativa de controle. — É o mínimo. — Controle é uma ilusão, Lyra. Ele aproximou o rosto do meu. Não havia desejo no olhar. Havia curiosidade. — Eu poderia destruir sua bolsa amanhã. Meu estômago despencou. — Poderia. — Mas não vou. — Por quê? Ele demorou um segundo. — Porque isso seria rápido demais. O silêncio entre nós ficou sufocante. — Você quer me destruir devagar? — minha voz saiu quase inaudível. — Quero observar o processo. Meu peito subia e descia rápido demais. — Você é doente. Ele sustentou meu olhar. — Sim. Eu senti algo quebrar dentro de mim. Não medo. Não exatamente. Raiva. — Então observa isso — eu sussurrei. E empurrei o peito dele. Não forte. Mas firme. O suficiente para criar espaço. Qualquer outra pessoa teria reagido. Ele não. Ele olhou para a minha mão contra o casaco dele. Depois para o meu rosto. E algo diferente aconteceu. Um microsegundo. Um ajuste. Interesse ampliado. — Finalmente — ele murmurou. Meu coração falhou uma batida. — Finalmente o quê? — Reação real. Ele segurou meu pulso. Não apertou. Mas a firmeza era inquestionável. — Medo é previsível — continuou. — Raiva é interessante. Meu pulso estava preso. O toque dele era frio. Controlado. — Me solta. Ele me soltou imediatamente. Como se estivesse testando algo. E tivesse obtido o resultado esperado. Ele deu um passo para trás. — Você vai continuar sentando ao meu lado. — Não vou. — Vai. — Não. Silêncio. Então ele sorriu. Pequeno. Quase invisível. — Veremos. Ele caminhou até a porta. Abriu. Antes de sair, parou. — Tranque melhor a janela. Meu sangue virou gelo. — Eu fechei. Ele me olhou por cima do ombro. — Não o suficiente. E saiu. A porta se fechou. O quarto ficou em silêncio. Eu fiquei parada por longos segundos. Depois corri até a janela. A trava estava solta. Não aberta. Mas não travada. Minhas mãos começaram a tremer de verdade agora. Ele tinha entrado antes. Antes da fechadura. Antes do envelope. Antes de tudo. Isso não começou na segunda-feira. Isso começou quando? Quanto tempo ele estava me observando? Meu celular vibrou mais uma vez. “Você é mais resistente do que eu imaginei.” Eu encarei a tela. O ar pesado. O quarto pequeno demais. Pela primeira vez, a realidade finalmente atingiu com força total: Kael Draven não estava improvisando. Ele estava conduzindo. Cada passo. Cada reação. Cada limite. E eu não estava tentando sobreviver a um romance. Eu estava dentro de um experimento psicológico. E o pesquisador nunca perde o controle do laboratório.
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