Olivia Hayes O apartamento de vidro de Alessandro parecia respirar sozinho, como se o ar condicionasse o peito de quem entra. Cheguei antes do pôr do sol, e a luz fez do chão um espelho aveludado, devolvendo-me em silhueta cansada: olhos fundos, a boca cerrada, o casaco abraçando meus braços como quem impede uma queda. Ele me aguardava junto à janela, de costas, o rosto refletido no escuro do vidro — duas versões do mesmo homem, uma humana, outra de pedra. — Chegou cedo — disse, sem se virar. — Fui convocada — respondi. A palavra soou como uma campainha antiga. Silêncio. A cidade, lá embaixo, circulava com a indiferença de sempre. O silêncio dele, porém, não era indiferença: era cálculo. Quando enfim se voltou para mim, veio com um meio sorriso que não alcançou os olhos. — Sente-se. —

