A primeira manhã no depósito trouxe uma sensação de desolação que Amira jamais imaginara sentir. Cada canto do lugar parecia projetar a presença de Lorenzo: sombras longas, paredes frias e o silêncio pesado que pressionava a garganta. Ela se sentou na cama improvisada, tentando organizar pensamentos que giravam entre medo, raiva e incredulidade.
A lembrança do toque frio dele, a forma como a arrastara do carro, e o olhar que a atravessava como uma lâmina de aço, queimava sua mente. Ela fechou os olhos, respirou fundo, tentando encontrar coragem. Mas a verdade era c***l: ela estava diante da fera, e não havia saída.
Um som metálico fez Amira erguer a cabeça. A porta do depósito rangeu, e Dante Russo entrou, carregando dois copos de café. Ele colocou um deles sobre a mesa e se retirou silenciosamente, sem olhar para a garota.
O aroma quente do café trouxe um instante de conforto, mas foi interrompido quando a porta de ferro se abriu novamente.
Lorenzo entrou, como sempre, sem avisar, sem bater. Seu olhar percorreu cada centímetro da sala, fixando-se nela.
— Bom dia. — A voz dele era fria, mas carregava uma intensidade que fez Amira recuar na cadeira. — Dormiu bem?
— Não — respondeu, tentando manter a voz firme. — E você não tem direito de perguntar.
Ele sorriu, mas não era um sorriso de gentileza. Era uma curva nos lábios que carregava poder, ameaça e desprezo.
— Eu tenho direito de tudo aqui — murmurou. — Inclusive de saber como está a minha “moeda de troca”.
Amira engoliu em seco, sentindo o sangue ferver de raiva.
— Você não é meu dono! — disse ela, sem medo, apesar do coração disparado. — Eu não vou me submeter a você!
Lorenzo deu um passo à frente, e cada movimento dele parecia dominar a sala inteira. O cheiro de charuto e couro misturava-se ao ambiente pesado.
— Você acha que tem escolha? — perguntou ele, aproximando-se ainda mais. — Cada passo que você dá fora da linha, cada desafio… me lembra que meu poder está aqui para ser respeitado.
Amira apertou os punhos. A raiva queimava como fogo dentro dela, mas a realidade era esmagadora. Ela não podia escapar, e qualquer gesto em falso seria interpretado como afronta.
— Eu não vou desistir — murmurou, encarando-o. — Nunca.
Ele inclinou a cabeça, observando cada detalhe.
— Corajosa… mas imprudente. — A voz dele baixou, quase sussurrada. — Eu admiro a coragem, mas não sou um homem que se deixa enganar. Você vai aprender que resistência aqui é inútil.
Ela percebeu que cada palavra dele era um aviso velado. O jogo entre eles havia começado, e Amira entendia que precisaria ser mais esperta, mais rápida do que jamais fora.
Lorenzo caminhou até a mesa, acendendo outro charuto, e soltou a fumaça no ar como se a presença dele impregnasse tudo ao redor.
— Ricardo Duarte cometeu um erro — disse, mais para si mesmo do que para ela. — Ele não entende que dívidas com Valente são pagas com sangue, não promessas.
Amira franziu a testa, sem entender completamente.
— Que erro? — perguntou, tentando parecer corajosa.
— Ele acreditou que poderia me enganar. — A resposta foi fria, calculada. — Ele acreditou que poderia adiar a dívida e, de alguma forma, proteger você. — Um sorriso torto surgiu nos lábios de Lorenzo, mas não havia calor nele. — Enganou-se.
Ela engoliu em seco, sentindo o medo crescer. Mas a raiva era maior.
— E eu estou pagando por isso? — perguntou, a voz tremendo, mas firme. — Eu não pedi nada!
— E é exatamente por isso que vai aprender — respondeu ele, aproximando-se mais, deixando o calor dele quase tocar sua pele.
— A vida não dá escolha, Amira. Ela impõe regras que não se discute.
Ele parou a poucos centímetros dela, e o silêncio se tornou ainda mais sufocante. Cada respiração era medida, cada batida do coração parecia ecoar pelo depósito.
— Você é teimosa… — murmurou Lorenzo, baixando o tom. — Um problema. Mas também… intrigante.
Amira desviou o olhar, sentindo uma estranha confusão. Como alguém tão c***l, tão perigoso, poderia despertar algo diferente dentro dela? Algo que misturava medo e fascínio, raiva e… desejo?
Ela sacudiu a cabeça, tentando se concentrar.
— Não vou ceder! — disse com força, tentando reafirmar sua determinação.
Lorenzo se afastou um passo, estudando-a. Ele odiava sentir qualquer coisa por alguém, e essa garota começava a minar a muralha que ele construíra ao longo de anos de violência e poder.
— Então vamos ver quanto tempo você resiste — disse, a voz baixa, cortante. — Porque eu não sou homem de paciência.
O dia avançava lentamente, e o depósito parecia absorver o tempo. Amira observava cada detalhe, cada sombra, cada movimento dos homens de Lorenzo que circulavam pelo local. Tudo estava sob controle, mas a sensação de estar constantemente vigiada fazia a adrenalina subir.
Ela tentava imaginar uma forma de escapar, mas a mente sempre retornava à mesma conclusão: impossível. Cada porta, cada janela, cada corredor estava sob vigilância. E Lorenzo… ele estava em todos os lugares. Um fantasma vivo, sempre atento, sempre perigoso.
Durante uma pausa, Lorenzo aproximou-se novamente.
— Sabe… — disse ele, recostando-se na parede ao lado dela — a maioria das mulheres que passo a vida vendo… terminam desistindo. Elas aprendem a obedecer. Elas entendem que não têm escolha.
Amira ergueu a cabeça, encarando-o com desprezo.
— Eu não sou a maioria. — A voz saiu firme, mas ela sentiu o corpo tremer levemente.
— É o que veremos. — Ele deu um passo em direção à porta, como se saísse, mas parou e olhou por cima do ombro. — Por enquanto, fique aqui. E não tente nada que não possa controlar.
Os minutos seguintes foram longos. Amira sentou-se na cama, observando o espaço vazio, tentando planejar movimentos, imaginar rotas de fuga, mas cada ideia era esmagada pela presença de Lorenzo em sua mente.
O que a perturbava mais era que, por mais que odiasse o homem, havia algo nele que a atraía de maneira assustadora. Um magnetismo sombrio, perigoso, que ela não conseguia compreender. O mesmo homem que arruinara sua vida agora provocava confusão em seu coração.
Quando a noite caiu novamente, Lorenzo retornou. Desta vez, não havia só frio e ameaça; havia algo mais. Uma tensão diferente, carregada de desejo contido.
— Sente-se — disse ele, apontando para a cadeira. Amira hesitou, mas obedeceu.
— Eu não quero que isso seja normal — disse ela, tentando manter a voz firme. — Eu não quero me acostumar com você.
— Normal? — Ele se aproximou lentamente, cada passo medido. — Não existe normal aqui. Não existe para você, não existe para mim. O que existe é controle, medo… e… — Lorenzo suspirou brevemente, uma rara demonstração de hesitação — …o que surge mesmo quando tento me manter distante.
Amira sentiu o coração acelerar. Cada palavra, cada gesto dele, era um enigma. Como alguém tão c***l poderia carregar algo que a fazia hesitar, confundir-se e… querer lutar contra o desejo que nascia dentro dela?
— Eu não vou me apaixonar por você — murmurou, quase em um sussurro.
— Talvez você não tenha escolha — disse ele, aproximando-se mais, tão perto que o calor da presença dele parecia invadir cada fibra de seu corpo. — Porque amor… ou ódio, é um risco que você não pode evitar comigo.
O olhar dele, fixo, intenso, era uma mistura de ameaça e fascínio. Ele queria controlá-la, domá-la, mas algo em Amira o desconcertava. Cada resistência dela provocava nele sentimentos que ele sempre jurou não ter.
E assim, a primeira noite realmente começou. O jogo entre eles se aprofundava: a fera contra a presa, o poder contra a resistência, o medo contra o desejo. Amira descobriu que a força de Lorenzo não estava apenas em sua violência, mas na maneira como conseguia dominar mente e coração de quem ousava enfrentá-lo.
E Lorenzo, por sua vez, percebeu que aquela garota não seria facilmente quebrada. Ela seria… um desafio que talvez, por mais que odiasse admitir, despertasse nele algo há muito tempo enterrado: a possibilidade de sentir.