O amanhecer trouxe uma luz fraca que m*l penetrava as janelas grades do depósito. Amira permaneceu acordada a maior parte da noite, sem conseguir dormir. Cada sombra parecia esconder Lorenzo, cada barulho fazia seu coração disparar.
Ela se lembrava de tudo: o carro, o toque frio dele, a sentença que transformou sua vida. A sensação de impotência ainda queimava dentro dela, e um ódio profundo contra seu pai crescia a cada lembrança.
Ricardo Duarte jamais deveria ter arriscado a filha. Um homem tão fraco, tão submisso, que não conseguia cumprir uma dívida mínima, entregara a própria filha como pagamento. Amira fechou os olhos, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escorrer.
— Isso não pode estar acontecendo… — sussurrou, quase para si mesma.
Lorenzo, do lado de fora, observava as câmeras de segurança. Cada movimento dela, cada gesto de desespero ou desafio, era registrado em sua mente. Ele não demonstrava emoção — apenas analisava, calculava. Mas havia algo diferente naquela garota.
Uma força silenciosa que ele não estava acostumado a enfrentar.
No escritório improvisado do depósito, Dante Russo analisava documentos e mapas. Ele sabia que Ricardo Duarte cometera um erro imperdoável ao atrasar o pagamento. Um erro que custaria caro, não apenas para ele, mas para todos que ousassem desafiar Lorenzo.
— Ele nunca vai pagar — disse Dante, sem levantar os olhos dos papéis. — E você sabe disso.
Lorenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos, acendendo um charuto. A fumaça subiu como se o tempo tivesse parado.
— Eu sei. — Sua voz era baixa, cortante. — Mas isso não muda o fato de que alguém vai arcar com o preço.
Dante suspirou. Sabia que não havia argumentos. Lorenzo sempre encontrava a maneira mais c***l de cobrar dívidas. Sempre.
Enquanto isso, Amira tentava se recompor. Seus pensamentos giravam em torno de planos de fuga, mas a cada ideia, a força de Lorenzo se apresentava como obstáculo impossível. Ela sentiu a frustração crescer dentro de si.
— Preciso pensar… — murmurou, apertando os punhos. — Preciso…
A porta de ferro rangeu e Lorenzo entrou na sala, parado à porta. Ele olhou para Amira com a mesma frieza que tinha desde o primeiro instante em que a viu.
— Dormiu bem? — perguntou, a voz carregada de sarcasmo.
— Não — respondeu ela, sem levantar os olhos. — E eu nunca vou dormir aqui.
Ele se aproximou, cada passo ecoando pelo piso frio.
— Você vai dormir, sim. — E deu uma breve pausa, analisando cada linha do rosto dela. — Quando seu pai pagar a dívida, você terá… o que? — Ele ergueu uma sobrancelha. — Talvez liberdade? Não garanto nada.
Amira respirou fundo. Tentava não demonstrar medo, mas a presença dele era esmagadora.
— Ele vai pagar… — disse, tentando soar firme. — Ele tem que pagar!
— E se não pagar? — murmurou Lorenzo. — Você está preparada para a realidade?
O olhar dela se encontrou com o dele, desafiador. Um instante de silêncio absoluto pairou no ar. Amira sabia que cada palavra poderia ser interpretada como afronta ou desafio.
— Eu… — começou, mas ele interrompeu com um gesto brusco.
— Não fale demais. — Ele apontou para a cadeira ao lado da mesa. — Sente-se.
Ela hesitou, mas finalmente se sentou, ainda mantendo a postura de quem não se rende. Lorenzo acendeu outro charuto e observou.
— Ricardo Duarte — disse ele baixinho, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa. — Cometer erros pode custar caro. Mas esse… — fez uma pausa — Esse foi imperdoável.
Amira franziu a testa, sem entender completamente.
— Que erro? — perguntou, com cautela.
— O erro de acreditar que pode me enganar. — Lorenzo soltou a fumaça lentamente, como se cada palavra queimasse. — O erro de achar que dívidas podem ser adiadas. — Ele inclinou-se, fixando os olhos nela. — E o maior erro… é o seu pai ter me dado você.
O impacto dessas palavras atingiu Amira como um golpe. Ela engoliu em seco, sentindo-se mais vulnerável do que nunca.
— Ele não… ele não podia… — tentou protestar, mas não encontrou forças.
— Não podia? — Lorenzo repetiu, os olhos escuros queimando como carvão aceso. — Ele errou, e agora você está aqui. E você vai aprender, seja lá o que isso signifique.
Amira fechou os olhos, sentindo o peso da realidade esmagá-la. Ela não sabia se odiava mais o pai ou o homem à sua frente.
O silêncio voltou a dominar a sala. Apenas o som da fumaça se dissipando quebrava a tensão. Lorenzo permanecia em pé, a postura impecável, observando a garota. Cada detalhe dela parecia gravado em sua mente — a respiração acelerada, os olhos marejados, o modo como as mãos tremiam levemente.
— Olhe — disse ele, finalmente sentando-se na cadeira à frente dela. — Eu não vou machucar você… ainda. Mas não confunda isso com bondade.
Amira o encarou, desconfiada.
— Então o que você quer de mim? — perguntou, tentando manter a voz firme. — Por que me trouxe aqui?
— Uma dívida precisa ser paga. — Lorenzo cruzou os braços. — Seu pai não pagou. Você… pagará.
Ela recostou-se na cadeira, o peito subindo e descendo rapidamente. A adrenalina ainda queimava em suas veias.
— Eu não vou me submeter a isso! — disse ela, com coragem inesperada. — Eu não sou uma peça!
Lorenzo sorriu, um sorriso frio, sem humor.
— Eu gosto da sua coragem. — Ele se inclinou para frente, tão próximo que Amira podia sentir o calor da respiração dele. — Mas aqui, coragem não vai salvar você. Nem lágrimas. Nem gritos. — Ele pausou, deixando as palavras pairarem no ar. — Você vai aprender o que significa pertencer a alguém como eu.
Dante entrou na sala silenciosamente, carregando um tablet com imagens de câmeras do depósito. Ele se aproximou e mostrou a Lorenzo o mapa de segurança do prédio.
— Todos os acessos estão bloqueados. Nenhuma saída sem que o senhor saiba. — Dante falou com a precisão de sempre.
Lorenzo olhou para Amira novamente.
— Viu só? — disse. — Qualquer movimento é inútil.
Ela tentou controlar a respiração, tentando manter a calma. Cada palavra dele era como uma lâmina afiada, mas ela precisava reagir de algum modo.
— Eu vou sair daqui — disse ela, baixinho. — Um dia eu vou.
Ele riu, mas não um riso de diversão. Era um riso de aviso, gelado e ameaçador.
— Talvez. — A voz dele ecoou pelo espaço frio. — Mas não enquanto eu estiver aqui. E, lembre-se: ninguém engana Lorenzo Valente. Nunca.
Amira sentiu o pavor misturado a uma estranha fascinação. Ele era c***l, frio, e ainda assim irresistível. Cada gesto seu, cada olhar, parecia dominar o espaço. E ela sabia que o homem diante dela era capaz de qualquer coisa.
— Então eu espero que esteja preparada — continuou ele, levantando-se. — Porque a cobrança de sangue começa agora.
Ela engoliu em seco. A frase soou como sentença. Amira não sabia exatamente o que isso significava, mas o medo e a tensão cresciam dentro dela como uma onda prestes a quebrar.
— Sangue… — murmurou ela, quase para si mesma, sentindo o frio subir pela espinha. — Não… não pode ser verdade…
Lorenzo se aproximou, parando a poucos passos dela, e por um instante, o mundo pareceu parar.
— É verdade — disse ele, firme. — E você vai aprender, Amira, que o erro do seu pai é agora seu. Que a vida tem regras, e quem as desrespeita… paga caro.
Ela fechou os olhos, tentando reunir coragem. Mas a verdade era simples: sua vida mudara para sempre. O mundo como conhecia desaparecera, e o homem diante dela não era apenas um mafioso — era a tempestade que a engolia inteira.
O primeiro dia de cárcere tinha começado. E Amira sabia que cada hora que passasse ali seria uma batalha entre medo e resistência. Entre a luta pela sobrevivência e a atração perigosa que começava a se infiltrar, silenciosa, dentro de seu coração.