A ALTA DE HOPE — O DIA EM QUE ANTHONY CRUZA A LINHA ENTRE CUIDAR E QUERERO
No dia da alta surgiu silencioso, quase sagrado, como se o universo inteiro estivesse por trás da porta, aguardando aquele momento especial.
—Hope estava nervosa, com as mãos trêmulas repousando sobre o lençol estéril, enquanto a luz suave da manhã filtrava-se através das cortinas, criando um halo ao seu redor.
—A ansiedade pulsava dentro dela, misturando alegria e temor pelo desconhecido.
— Quando a porta do quarto se abriu lentamente, seu coração disparou.
Anthony entrou com passos firmes, irradiando confiança serena.
— Ele segurava um buquê de rosas brancas brilhantes, que parecia iluminar o ambiente e encher o ar com frescor de esperança.
— Bom dia, Hope. — Sua voz soou mais suave do que ela jamais havia ouvido, como um bálsamo acariciando suas preocupações. — Hoje é o seu dia.
Ela sorriu timidamente, a emoção quase palpável, como se as pétalas das rosas dançassem com o ritmo de seu coração nervoso.
— São… pra mim?
— Claro, ele entregou o buquê em suas mãos, ajustando os dedos delicadamente nos talos, como se estivesse manipulando algo sagrado. — Você merece algo bonito depois de tudo que enfrentou.
Antes que pudesse responder, um médico entrou, interrompendo a mágica do momento para fornecer as últimas instruções. Anthony, sempre atento, se levantou imediatamente, sua postura mostrando que sua preocupação transcendia a mera curiosidade.
— Doutor, como está a irmã dela?
O médico, com um sorriso encorajador, explicou que o transplante foi um sucesso, que a medula estava reagindo perfeitamente e que agora começava a fase de manutenção e cuidado contínuo. Hope fechou os olhos, sentindo uma onda de alívio inundar seu ser. Um suspiro escapou de seu peito, libertando parte do peso que sempre parecia estar sobre seus ombros.
—Ao abri-los novamente, iniciou o olhar para Anthony; havia um calor naquele olhar que ela ainda não conseguia entender completamente, mas que a fazia sentir-se segura, como se ele estivesse prometendo que tudo ficaria bem.
— Vamos? — ele perguntou gentilmente, com uma expressão que misturava determinação e suavidade.
Com um cuidado surpreendente, ele empurrou a cadeira de rodas pelo corredor, e seu gesto teve a graça de uma dança silenciosa.
— Até mesmo as enfermeiras notaram, lançando-lhe olhares de aprovação e até um sorriso cúmplice, reconhecendo a beleza da cena diante deles.
No estacionamento, Hope avistou uma mulher uniformizada já à espera dentro de um carro, um símbolo de que sua jornada estava apenas começando.
— Esta é a enfermeira Brenda. Ela vai cuidar de você até que sua recuperação esteja completa. E quando você voltar para casa… — Anthony respirou fundo, um leve sorriso nos lábios — …terá outra enfermeira à sua disposição. Vinte e quatro horas.
Hope arregalou os olhos, preocupada com a ideia de depender de outros para sua recuperação.
— Isso tudo é necessário?
— Sim. — Ele respondeu sem hesitar, a firmeza da sua voz cheia de cuidado.
— Você precisa descansar, sua irmã está em boas mãos e, assim que puder receber visitas, você volta aqui. Até lá, não quero que arrisque nada.
— Tudo bem, Sr. Anthony.
Ele parou de empurrar a cadeira e a olhou com seriedade, mas também com uma gentileza que derretia as barreiras que ela havia construído ao longo dos meses.
— Pare. — O tom dele era firme, mas carinhoso. — Não me chame mais de senhor. Somos amigos.
Hope sentiu suas bochechas aquecerem. Algo naquela troca despertava em seu coração a possibilidade de uma nova conexão.
— Tudo bem, Anthony.
— Pode me chamar de Tony.
Ela sorriu pela primeira vez naquele dia, um sorriso que parecia iluminar o espaço ao redor.
— Ok, Tony.
Ele voltou a empurrar a cadeira, e à medida que se aproximavam do carro, sua voz transbordava de uma alegria inesperada, como se o dia tivesse sido moldado para trazer luz a suas vidas.
— E agora… vou te deixar em casa. E quem vai comemorar sua chegada mais do que eu… você sabe quem é, né?
Hope riu baixinho, a lembrança do amor descontraído do avô enchendo sua mente de conforto.
— O vovô Portiço. Ele deve estar ansioso.
— "Ansioso" é pouco. — Ele riu, o som dele vibrando com uma leveza contagiante. — E já que você o chama de vovô… então, por extensão, ele é meu também.
Ela olhou para ele, surpresa e tocada pela forma como ele aceitava sua família, como um laço que agora os unia ainda mais.
— Ele disse que queria que eu o chamasse assim.
— Então pronto. Agora ele é seu vovô e meu vovô. E acabou. — Anthony concluiu, leve, como se estivesse brincando, mas com uma sinceridade que enviava ondas de conforto pelo corpo de Hope.
Hope suspirou, sentindo seu coração bater descompassado em meio a essa nova realidade que se desenrolava. Anthony então parou. E sem aviso, ele mudou sua vida para sempre de uma maneira que ela nunca teria imaginado.
— Hope… — Ele se abaixou um pouco, alinhando-se à sua altura, como se quisesse que cada palavra se fixasse profundamente em sua alma. — Nós vamos adiar a inseminação.
Ela piscou, sem compreender, a confusão misturada a uma curiosidade avassaladora.
— Vamos… como?
— Vamos nos casar.
O mundo ao redor parou. O ar pareceu congelar em um estado suspenso. Ela parou, sua mente lutando para processar a enormidade da proposta.
— C-casar?
— Sim. — Ele colocou a mão sobre a dela com firmeza, como se estivesse fazendo uma promessa irrefutável. — E quero que você me ajude a cuidar dessas crianças. Se forem minhas, eu não vou deixá-las com aquela mulher. Não vou permitir que inocentes fiquem nas mãos de quem já se mostrou c***l. Preciso de alguém em quem confie para estar ao meu lado.
Hope colocou a outra mão sobre o coração, como se precisasse controlar a agitação que começava a percorrer seu ser.
— O senhor… gosta… o senhor confia em mim?
Ele aproximou o rosto ainda mais, suas expressões transbordando sinceridade e emoção.
— Confio. Confio em você porque não ganha nada sendo honesta comigo. Porque você me aconselhou como ninguém jamais fez. Porque vê as coisas de um jeito que eu não consigo. E porque… — respirou fundo, como se estivesse se preparando para a verdade que ia além das palavras — eu não quero continuar essa vida sem você por perto.
As lágrimas vieram, silenciosas, brotando de um lugar profundo dentro dela, um testemunho do impacto que Anthony tinha em sua vida.
— Tony… — ela sussurrou, comovida. — Pode contar comigo, para tudo. Sempre.
Ele apertou a mão dela, selando um pacto que não poderia ser desfeito, uma nova aliança entre almas que agora se reconheciam.
— Então vamos pra casa, Hope, a partir de hoje você é parte da família.