O jogo tinha mudado de mãos, mas ninguém ali acreditava que Arthur aceitaria perder tão facilmente.
Helena foi a primeira a falar, sua voz firme.
— Precisamos de um bode expiatório. Alguém que possa desviar os olhos do Victor enquanto seguimos com o plano.
Arthur estreitou os olhos, girando o vinho na taça.
— E vocês querem que eu seja esse alguém?
Gabriel cruzou os braços.
— Você tem contatos, conhece o submundo tão bem quanto ele. Se plantar uma informação falsa no lugar certo, Victor vai morder a isca.
Arthur sorriu de canto, inclinando-se para frente.
— Entendi. Querem que eu brinque de marionete, assumindo os riscos, enquanto vocês fazem o trabalho sujo nas sombras.
Rafael bufou.
— Não se faça de vítima, Arthur. Você adora um jogo. Isso aqui é só mais uma rodada.
Arthur lançou-lhe um olhar afiado, mas ignorou a provocação. Seu foco voltou-se para Elaine.
— E o que eu ganho com isso?
Elaine sorriu, mas havia um toque perigoso em seu olhar.
— Além da satisfação de ver Victor ruir? Podemos garantir que, quando tudo acabar, você saia ileso. Você sabe que, se Victor descobrir o que estamos planejando, você será o próximo alvo.
Arthur sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de soltar um suspiro exagerado.
— Droga, Elaine. Você sabe como me convencer.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Isso significa que está dentro?
Arthur recostou-se na cadeira, observando cada um deles com um olhar calculista. Sua mente trabalhava rápido.
"Eles acham que podem me manipular tão facilmente. Mas eu conheço esse jogo melhor do que eles imaginam. Rafael me odeia, Gabriel não confia em mim, e Helena... bom, ela me enxerga como um risco a ser controlado. Mas Elaine... ah, Elaine ainda é o ponto fraco de todos nessa mesa. E eu sei exatamente como usar isso a meu favor."
Ele deslizou os dedos ao redor da taça vazia, mantendo o sorriso despreocupado no rosto.
— Sim. Mas vou fazer isso do meu jeito.
Rafael soltou um riso seco, claramente irritado.
— Isso é o que veremos.
Arthur não respondeu, apenas manteve o olhar afiado sobre Elaine. Ela nunca fora uma mulher fácil de dobrar, mas ele sabia que ainda havia algo ali, escondido sob camadas de orgulho e determinação.
"Eles precisam de mim. Mas talvez, no final, sejam eles que acabem jogando exatamente como eu quero."
A tensão entre eles não desapareceu completamente, mas o acordo estava selado. Agora, restava colocar o plano em prática.
E, no fundo, todos sabiam: ninguém confiava totalmente em Arthur.
O grupo deixou o restaurante sob uma tensão palpável. Cada um estava imerso em seus próprios pensamentos, avaliando os riscos, revisando mentalmente os detalhes do plano e, acima de tudo, vigiando Arthur.
De volta ao esconderijo temporário – um apartamento discreto alugado por Rafael –, o silêncio se instalou enquanto todos tomavam seus lugares na sala. Gabriel encostou-se na parede, os braços cruzados sobre o peito, observando Arthur com desconfiança. Helena sentou-se no sofá, afiada como uma lâmina pronta para cortar qualquer deslize. Rafael ficou ao lado da janela, olhando para a rua abaixo, a mente inquieta.
Elaine, por outro lado, foi até o bar improvisado, pegando uma garrafa de whisky e servindo a si mesma um copo.
Arthur a acompanhou com o olhar, sorrindo de canto.
— Você sempre soube como manter a compostura, não é, ruiva?
Elaine virou-se para ele, levando o copo aos lábios, seus olhos verdes brilhando com um desafio silencioso.
— Você acha que me conhece, Arthur. Mas você nunca soube de verdade quem eu sou.
Arthur se levantou e caminhou lentamente até ela, pegando outro copo e servindo-se também. Ele inclinou a cabeça levemente.
— Então talvez seja a minha chance de descobrir.
Gabriel deu um passo à frente, a tensão em seu corpo evidente.
— Chega de joguinhos, Arthur. Amanhã precisamos estar focados.
Arthur ergueu as mãos em rendição.
— Relaxa, grandão. Só estou me divertindo um pouco. Afinal, quem sabe o que vai acontecer amanhã?
Rafael virou-se da janela, cortando a conversa.
— Precisamos revisar tudo. Se um de nós falhar, Victor vai sentir o cheiro da armadilha a quilômetros de distância.
Helena concordou.
— E o Arthur precisa seguir o plano exatamente como combinado. Sem improvisos.
Arthur riu, jogando-se no sofá.
— Vocês realmente não confiam em mim, não é?
— Não. — Rafael respondeu sem hesitação.
Arthur apenas sorriu, mas, por dentro, sua mente fervilhava.
"Eles não confiam em mim? Ótimo. Isso significa que não verão quando eu decidir jogar minha própria cartada."
A madrugada avançava, e a tensão no ar só aumentava. Amanhã, tudo seria decidido.
O relógio marcava duas da manhã, e ninguém havia dormido ainda. O apartamento estava mergulhado em um silêncio cortante, quebrado apenas pelo tilintar do gelo nos copos e pelo zumbido baixo da cidade ao fundo.
Elaine apoiou-se no balcão da cozinha, terminando seu whisky, enquanto observava os outros. Seus olhos percorreram Rafael, parado perto da janela com os punhos cerrados, Gabriel sentado no sofá com uma expressão
fechada, Helena reorganizando mentalmente cada detalhe do plano… e Arthur.
Arthur parecia tranquilo demais. Ele se inclinou para trás no sofá, os braços apoiados no encosto, um sorriso despreocupado nos lábios. Mas Elaine conhecia bem aquele olhar – ele estava planejando algo.
Ela decidiu quebrar o silêncio.
— Se amanhã tudo der errado, qual será o plano B?
Helena suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Não pode dar errado. Trabalhamos nisso tempo demais para deixar escapar.
Rafael virou-se para o grupo, seus olhos escuros sérios.
— Se Victor perceber a armadilha, vamos precisar de uma rota de fuga. Eu tenho um contato que pode conseguir passaportes falsos e um avião pronto para nos tirar daqui.
Gabriel balançou a cabeça.
— Fugir não é uma opção. Se deixarmos Victor vivo, ele vai caçar a gente até o fim da vida.
Arthur riu baixo, atraindo a atenção de todos.
— Adoro essa confiança de vocês. Mas me pergunto… e se algum de vocês estiver cometendo um erro?
Helena estreitou os olhos.
— O que você quer dizer com isso?
Arthur girou o copo na mão, fingindo distração.
— Só estou dizendo que Victor não chegou onde chegou sendo burro. Ele deve ter um plano próprio. Ele pode estar esperando vocês darem o primeiro passo para atacar.
A inquietação pairou no ar. Gabriel rangeu os dentes, os olhos analisando Arthur.
— Você parece saber muito sobre como Victor pensa.
Arthur sorriu, bebendo o último gole de whisky antes de responder.
— Eu já joguei nesse tabuleiro antes, meu caro. Sei reconhecer um rei quando vejo um. A questão é: vocês estão preparados para sacrificá-lo, ou vão hesitar no último momento?
Rafael cerrou os punhos, encarando Arthur de um jeito perigoso.
— Se você está sugerindo que algum de nós pode fraquejar, está muito enganado.
Arthur deu de ombros.
— Espero que sim.
O clima ficou mais pesado. Cada um deles sabia que Arthur gostava de jogar dos dois lados, sempre mantendo uma saída caso precisasse trocar de lado no último segundo.
Elaine pousou seu copo sobre o balcão e caminhou lentamente até Arthur, parando bem à sua frente. Seus olhos verdes brilharam com intensidade.
— Eu não confio em você.
Arthur ergueu a sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.
— Eu ficaria preocupado se confiasse.
Elaine manteve o olhar afiado.
— Se amanhã você tentar nos trair, eu juro que será a última jogada da sua vida.
Arthur inclinou-se levemente para ela, a voz baixa e provocadora.
— Ruiva, você me ameaça de um jeito que me dá arrepios.
Elaine não recuou. Apenas sorriu de canto.
— Ótimo. Isso significa que estou fazendo direito.
O silêncio se instalou novamente, mas dessa vez carregado de algo diferente.
Arthur percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, ele não tinha certeza de quem sairia vitorioso desse jogo.
O sol começou a se erguer, tingindo o céu de tons dourados e laranjas. A cidade acordava, mas dentro do apartamento, o silêncio reinava. Ninguém dormiu direito. O peso do que estava prestes a acontecer era sufocante.
Elaine foi a primeira a se levantar, caminhando até a sacada. O vento fresco da manhã bagunçava seus cabelos ruivos enquanto ela respirava fundo. Sentiu uma presença atrás de si e não precisou se virar para saber quem era.
— Não consegue relaxar? — Rafael perguntou, sua voz rouca de sono.
Ela soltou uma risada curta.
— Relaxar? Hoje não é um dia para isso.
Rafael se apoiou na grade ao lado dela, cruzando os braços.
— Eu entendo… Mas você confia mesmo no Arthur?
Elaine virou o rosto para ele, sua expressão séria.
— Não. Mas ele é um m*l necessário.
Rafael assentiu, mas seu maxilar estava tenso. Ele não gostava de como Arthur olhava para Elaine, não gostava do jeito que ele jogava suas palavras como se estivesse sempre um passo à frente. E, mais do que isso, não gostava do fato de que Arthur já teve Elaine em seus braços um dia.
— Ele ainda quer você. — Rafael soltou, sem rodeios.
Elaine arqueou uma sobrancelha e virou-se para ele.
— Eu sei.
Rafael apertou os lábios, tentando conter o incômodo que aquilo lhe causava. Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, uma terceira voz interrompeu a conversa.
— Vocês dois parecem bem próximos para quem está prestes a entrar em uma guerra.