Um silêncio pesado pairou no ar. O clima na suíte, antes envolto em um jogo de sedução, agora tinha um peso diferente. A tensão era palpável.
Anos antes de conhecer Gabriel e Helena, Elaine se envolvera com um homem misterioso, um empresário ligado a negócios obscuros. Ele a seduziu com promessas de aventura e companherismo , mas por trás do charme havia um perigo que ela só percebeu tarde demais. Numa noite em que tentava romper com ele, um confronto aconteceu – e ele terminou morto. Oficialmente, foi registrado como um acidente, mas Elaine sabia a verdade. Seu nome nunca fora ligado ao crime, mas o peso daquele momento a acompanhava desde então, moldando quem ela era.
Quando conheceu Gabriel, sentiu um arrepio familiar. Ele tinha o mesmo olhar calculista e magnético, o mesmo ar de mistério. Mas ao contrário do passado, agora ela estava no controle. Ou pelo menos, era o que pensava. Gabriel parecia enxergá-la por inteiro, como se soubesse de algo que ela jamais revelou. E Helena, com sua intensidade emocional e entrega absoluta, despertava nela sentimentos que Elaine tentava enterrar. Estar com eles era uma experiência avassaladora, e pela primeira vez, ela temia perder o controle que tanto prezava.
— Você me seguiu… me usou — sussurrou Elaine, a voz carregada de incredulidade e raiva.
Helena não desviou o olhar.
— Eu te procurei, sim. Mas não te usei.
Elaine riu, mas não havia humor ali, apenas amargura.
— E espera que eu acredite nisso? Você sabia quem eu era! Sabia o que aconteceu! E ainda assim…
Ela se calou. Porque a resposta estava ali, crua e inegável. Ainda assim, Helena ficou.
Gabriel observava tudo como se estivesse assistindo a um espetáculo particularmente interessante. Com um meio sorriso, tomou mais um gole de uísque.
— E eu achando que essa noite ia ser monótona — murmurou ele.
Elaine se virou para ele, os olhos brilhando de fúria.
— Você sabia disso também, não sabia?
Gabriel não confirmou, mas também não negou. Apenas girou o copo na mão, deixando o gelo tilintar contra o vidro.
Helena suspirou.
— Eu sabia quem você era, Elaine. Mas o que eu não sabia… era que eu acabaria te protegendo.
Elaine a encarou, o coração ainda disparado.
— Me protegendo de quem? De você mesma?
Helena fechou os olhos por um breve instante, como se tentasse encontrar paciência.
— De Victor — respondeu, firme. — E de tudo o que ele quer fazer com você.
As palavras pairaram entre elas, carregadas de significado.
Gabriel riu baixinho.
— Acho que agora é a parte em que vocês decidem se vão se matar ou se beijar.
Helena estreitou os olhos para ele.
— Cale a boca, Gabriel.
Ele ergueu as mãos em um gesto inocente.
Elaine passou as mãos pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos.
— Eu deveria ir embora — murmurou, mais para si mesma.
— Você pode ir. Mas Victor vai te encontrar. Ele já está mais perto do que imagina — disse Helena, séria.
O medo se infiltrou no peito de Elaine. Ela sabia que Helena estava dizendo a verdade. E, apesar da raiva, da traição, do caos que agora dominava sua mente, havia uma certeza que não conseguia negar.
Ela precisava de Helena e Gabriel para sobreviver.
Engolindo em seco, ela olhou para ambos.
— Então me digam o que vamos fazer.
Gabriel sorriu de lado.
— Agora sim, as coisas ficaram interessantes.
— Como você soube sobre mim? — Perguntou Elaine para Helena em uma tentativa de entender como aquela mulher misteriosa descobriu o seu passado.
Helena segurou o copo de uísque na mão, girando o líquido âmbar sem pressa. Seus olhos, sempre tão afiados e calculistas, estavam sombrios, como se revirassem memórias enterradas há muito tempo.