No dia seguinte, fingimos que nada tinha acontecido e vivemos nossos dias normalmente.
Depois de tomarmos café, fomos ao jardim. Fui direto falar com Chimera — até porque, com tanta coisa acontecendo, eu precisava conversar com ele. Assim que me viu, ele perguntou:
— Lyra! Por que demorou tanto pra vir aqui? Quase morri de saudades, minha criança. Mas conte-me as novidades... Imagino que tenha muitas novidades e perguntas!
Corri até ele, dei um bom abraço e comecei a contar tudo o que havia acontecido na praia. Chimera deu uma gargalhada e disse:
— Ah, Lyra! Mas já? Eu lembro que a Seraphina demorou um pouco mais pra conhecer a protetora dela... Mas cada um evolui do seu jeitinho. Fico tão feliz por você! Ver sua evolução é incrível!
Passei a manhã inteira com Chimera. Quando voltei para a residência, não tinha ninguém por lá, então aproveitei para ir até a biblioteca.
Assim que me aproximei, ouvi um barulho. Fui bem devagar, e então começaram os sussurros:
"Volte onde tudo começou..."
"Volte onde tudo começou..."
"Volte onde tudo começou..."
Me arrepiei inteira e comecei a ficar tonta. Em um momento, caí no chão e vi alguém se aproximando, dizendo:
— Menina! Menina! Você está bem?
Depois disso, tudo se apagou.
Quando abri os olhos de novo, estava em um lugar completamente estranho. Eu me sentia confusa e com medo. Usava uma roupa azul e estava deitada numa cama, amarrada. Ao lado, havia uma mesinha com um bisturi.
Com muito custo, aproximei a mesa com os pés e consegui pegar o bisturi. Rapidamente, me soltei.
Saí pela sala em busca de ajuda. Havia várias portas com números, mas uma delas — a 777 — brilhava. Fui até ela.
Dentro, havia uma moça sentada em uma cadeira, com um capuz, mexendo algo em um caldeirão. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela disse:
— Olá, minha rainha... Estava te esperando. Por que demorou tanto?
Assustada, comecei a correr. Mas parecia que, quanto mais eu corria, mais o corredor aumentava. Ela veio correndo atrás de mim. Quando chegou muito perto... tudo escureceu novamente.
Ao acordar, ouvi uma voz:
— Senhorita Lyra? Está aí? Acorda!
Abri os olhos. Estava deitada em uma cama desconhecida, mas muito confortável. Me levantei, com dor de cabeça, e fui até o banheiro. Quando olhei no espelho, vi um reflexo estranho... e ouvi de novo:
"Abra os olhos. Acorde."
Fechei os olhos. Ao abri-los, estava no chão da biblioteca, de novo. Fiquei completamente sem entender nada.
Saí para tomar ar. Quando abri a porta, Seraphin, Seraphina, Aleck, Flora e Marcelo’s estavam lá. Assim que me viram, correram para me abraçar. Foi um abraço tão bom...
Conversamos por horas. Pensei em contar tudo o que aconteceu, mas... não queria preocupar ninguém. Guardei pra mim.
Eu estava muito cansada, então subi pra tomar um banho e dormir. Já deitada, alguém bateu na porta.
— Pode entrar! — falei.
Era o Aleck.
— Oi, Lyra. Você está linda, como sempre...
— Obrigada. Posso te ajudar com algo?
— Então... É que eu tive um pesadelo h******l essa noite. Queria saber se posso dormir com você. Só hoje.
Ri e respondi:
— Claro, fica à v*****e.
Ele se deitou com delicadeza ao meu lado.
— Posso te abraçar? — perguntou.
Peguei a mão dele e coloquei por cima de mim. E dormimos.
De manhã, fomos acordados pelo Seraphin batendo na porta:
— Lyraaaa! Bom dia, vamos acordar!
Quando abriu a porta e viu Aleck comigo na cama, o brilho nos olhos dele sumiu.
— O que ele está fazendo aqui, Lyra? Não me diga que vocês...
Me levantei assustada:
— Não, não! Aleck... não é bem isso...
Aleck ficou nervoso e disse umas coisas que me chatearam.
— E se tivesse acontecido? O que você tem a ver com isso? — rebati.
Seraphin saiu do quarto.
Aleck riu.
— SAI DAQUI! NÃO QUERO VER A CARA DE VOCÊS DOIS HOJE!!! — gritei.
— Calma, Lyra...
— SAI, ALECK!
Ele saiu.
Tomei banho tentando me acalmar. Depois fui até o quarto do Marcelo’s.
— Que gritaria foi aquela logo cedo no seu quarto? — ele perguntou.
Suspirei.
— Eita, pelo visto foi tenso, né?
Ele me abraçou. Um abraço tão quentinho e gostoso.
— Eu sinto muito. Se quiser falar, estou aqui!
Contei tudo a ele. Ele sorriu de canto:
— Já sei do que você precisa! Chame a Seraphina. Hoje nós três vamos sair!
— Tenho que treinar antes.
— Vai lá. Depois volte e se arrume! Eu falo com a Seraphina.
Desci com a desculpa de treinar, mas só queria andar um pouco...
Mil pensamentos tomavam minha mente. Quando percebi, estava longe. Vi pessoas pintadas de vermelho. Me aproximei sorrateiramente. Parecia um ritual.
Uma criança morena, de cabelo liso preto e o corpo todo pintado, segurou minha mão.
Todos me olharam.
Dei um passo pra trás e esbarrei em alguém — um homem muito bonito.
Ele segurou meu braço. Tentei me soltar, mas ele era forte.
— Por favor, não me matem!!! Eu não sou inimiga! Posso ajudar, ajudo no que for!
— Menina, calma. Não vamos te m***r. Só queremos conversar — disse ele, com calma.
Pisei no pé dele com toda força, puxei um punhal escondido no corset e coloquei perto do pescoço dele. Várias lanças foram apontadas pra mim.
“Da onde eles tiraram isso????”
Abaixe o punhal devagar.
— Desculpa, foi reflexo... Não vai acontecer de novo.
Uma senhora baixinha, idosa, se aproximou, segurou minhas mãos e disse:
— Minha jovem, você terá um longo caminho pela frente. Terá que escolher entre dois grandes caminhos. Então se prepare para tomar grandes decisões.
Não foi por acaso que você nos encontrou. Vamos te ensinar feitiços, simpatias... você vai aprender muito. Aqui, você estará em boas mãos.