– Vai tomando banho enquanto vejo uma veste para ti.
– Mas, Seh, eu acabei de tomar banho...
– Já havia me esquecido! – disse rindo.
– Então vai arrumar esse belo cabelo. Dá pra fazer uns penteadinhos bem legais – disse com um leve sorriso.
Fui para frente do espelho e comecei a testar diversos feitiços, pois não sabia fazer penteados sozinha:
Cabelo querido, com graça e leveza, se ajeite agora, trazendo beleza!
(Não deu muito certo...)
Dos ventos rebeldes para o brilho encantado, hoje meu cabelo estará sempre alinhado.
(Meu cabelo ficou super embaraçado.)
Com magia e amor, que o nó desapareça, e meu cabelo deslize com delicadeza.
(Meus cachos se soltaram perfeitamente, e duas trancinhas delicadas surgiram nas laterais.)
– SERAPHINA! OLHA ISSO! – gritei empolgada.
Quando ela se aproximou, o espelho começou a embaçar. Fui ficando tonta, até minha visão escurecer por completo...
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Ouvi sussurros distantes:
– Lyra... Lyra...
Acordei em um lugar completamente escuro. Havia uma menina à frente, e ao me aproximar percebi que ela era idêntica à Mariazinha. Ela parecia querer me mostrar algo. Segui seus passos silenciosos. O lugar era estranhamente familiar, cheio de portas. A garota entrou correndo por uma porta com o número 66. Lá dentro, vi a mim mesma, ainda pequena, sentada em uma maca. Ao lado, uma bandeja com bisturi e tesoura. Um homem se aproximava e começava uma série de testes. Eu gritava, chorava...
A garota apontou para a cena e disse:
– As respostas estão aí: 1111. Depois da última floresta...
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Acordei de verdade, deitada na cama, com Seraphina completamente aflita.
– Que alívio, Lyra! O que aconteceu? Você desmaiou do nada... eu fiquei preocupada! Você tá melhor?
– Calma, Seh... Eu só passei m*l. Mas... que horas são mesmo? – perguntei, me levantando.
– Acho que você estava certa. Precisa mesmo esfriar a cabeça. Vai ser legal.
– An-an! Você não vai de jeito nenhum! – disse, me barrando.
– Ei, calma... eu tô bem. É esse o vestido que você escolheu? – disse, pegando o vestido.
– Ele é lindooo! Muito obrigada! – a abracei.
Depois de me trocar, fui até o quarto do Seraphin. Ele já estava pronto.
– Para onde vamos??? – perguntei curiosa.
– É surpresa... Mas preciso que coloque essa venda nesses seus lindos olhos. – disse, entregando-me a venda.
– Surpresa? Ok... AGORA UMA VENDA?
– Vai, se anima, Ly! Você vai adorar.
– Seraphin, se você me deixar cair, eu te levo JUNTO!
– Relaxa, meu amor – disse rindo, enquanto colocava a venda.
Ao atravessar o portal, senti um friozinho, arrepios... Um som de vento sussurrava ao redor.
– Chegamos?... – perguntei.
Ele retirou a venda...
E eu fiquei sem palavras.
O laguinho estava transformado. Pétalas vermelhas e brancas formavam um caminho até uma mesa iluminada com duas velas. Vagalumes voavam, cintilando luz ao redor.
– Seraphin...
– Você gostou?
– Eu adorei... Você fez tudo isso sozinho?
– Na verdade... tive uma ajudinha do Marcelo’s e da Seraphina – disse rindo.
– Então ela sabia de tudo...
– Acontece! Mas fico feliz que tenha gostado.
– Obrigada... Uau. Eu nem sei o que dizer – disse sorrindo.
– Eu adoro esse seu sorriso. A vibração e a energia que ele emite... tão pura, leve e impactante.
– É? – falei tímida, sorrindo envergonhada.
– Com toda certeza! Tá com fome? Vamos comer?
Sentamos à mesa. Ele me serviu com carinho.
– Tá gostando?
– Eu tô amando. Parece que cada detalhe foi planejado por dias – disse rindo.
– Meu coração se enche de emoção ao ouvir isso. Fiz com tanto carinho... Queria te animar.
– Como assim?
– Desde que voltou, te achei cabisbaixa. Não leva a m*l, só fiquei preocupado.
– É que... Às vezes, as coisas não saem como queremos. A gente muda... e tudo muda junto.
– Entendo bem como se sente. Mas independente do que acontecer, vou estar aqui pra você – e com você, tá?
– Obrigada, Seraphin. Vou estar aqui pra você também.
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Enquanto isso, na residência...
Letícia estava no meu quarto procurando algo, sem saber que Seraphina passaria bem na hora:
– Letícia? O que você tá fazendo aqui?
– Ah, oi... estou procurando uma coisa minha.
– Mas... no quarto da Lyra?
– Eh... Mas deixa, já achei – disse saindo com um brinco na mão.
Seraphina entrou e fechou a porta, mas ouviu uma voz:
– Lyra? Você tá aí?
Assustada, começou a procurar a origem da voz. Ao olhar no espelho...
– MISERICÓRDIA!!! – gritou com a mão no peito.
– Quem é você?
– Espera... Cadê Lyra? Não tenho muito tempo. Meu nome é Ubirajara e preciso que você entregue uma mensagem a ela: Jandira disse que chegou a hora da guerra, e de Lyra descobrir mais sobre suas origens. Diga também que nem todos ao redor dela são confiáveis. Em breve, nos encontraremos.
E desapareceu.
Seraphina ficou em choque.
"Nem todos são confiáveis..."
O que será que Letícia estava fazendo aqui? Será que...
Começou a procurar por algo e encontrou, entre as vestes caídas, uma lesma-escuta. Ela pisou imediatamente, espalhando uma gosma pegajosa pelo chão.
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De volta ao laguinho...
Terminamos o jantar, e me sentei ao chão para ver as estrelas:
– Achou que não ia ter sobremesa? Lógico que tem! E é seu preferido: morango – disse, me entregando o potinho.
– Você realmente se superou, hein! – comentei rindo.
De repente, um barulho vindo do mato.
– Zazi? – dissemos juntos.
– Vocês? Estão... – disse desconfiada.
– NÃO, não. Só amigos – respondi rindo.
– A senhorita não havia ido atrás do seu tão amado dragontado? – debochou Seraphin.
– Muito engraçado, Seraphin. Por que não cresce ao invés de fazer piadinhas idiotas?
– Eu cresci. Já você... – gargalhou.
– Não vou discutir com você. Eu entrei em algo maior: em Gomorra vai haver uma terrível guerra. A rainha disse que Lyra está envolvida!
– QUE???
– Gomorra? Mas essa cidade nem tem rei nem rainha!
– Calma, Lyra. Eu explico tudo. Mas precisamos voltar para a residência. Lá, conto os detalhes.