Capítulo 17- Verdades veladas, Sangue real

1279 Words
Chegando à residência, Seraphina já nos esperava. Ela parecia pálida e ansiosa: – Até que enfim... Aconteceu uma coisa e fiquei muito preocupada com vocês. – O quê? Espera... Zazi? O que eu perdi? – perguntei confusa. – Primeiro, vamos para um lugar mais reservado – disse Seraphin, olhando ao redor. – Faz um tempo que comecei a desconfiar de certas coisas... Não conheço um feitiço que impeça alguém de escutar do lado de fora do quarto. Vamos? Subimos para o quarto de Seraphin, e lá Seraphina começou a contar o que havia acontecido. – Ubirajara...? – murmurei, surpresa. – Acho que todos já estavam sabendo, menos a gente – disse Seraphin, cruzando os braços. – Agora me conta: por que a Zazi está aqui? Zazi então começou a explicar: – Vai acontecer uma guerra. – Uma guerra? QUE INCRÍVEL! – disse Seraphina, animada demais. – Não sei como você consegue ficar animada. Essa guerra pode ser uma passagem sem volta... – murmurei. – Mas... e o traidor? Como vamos descobrir quem é? – perguntei, aflita. – Deixa comigo – disse Zazi. – Conheço uma magia antiga que usávamos para identificar traidores. Ela é quase indetectável. O feitiço fica na comida... mais especificamente, numa sopa. – E o que acontece com quem é pego? – perguntou Seraphin. – A língua incha completamente e fica coberta de feridas – respondeu Zazi. Nesse momento, Marcelo’s entrou no quarto. – Marcelo’s? – Seraphin e Seraphina disseram juntos. – Achei que ia demorar mais! – respondeu ele, rindo. – Mas não vão perceber que é magia? – questionou Seraphin. – É aí que você se engana. A sopa vai estar quente. Qualquer reação pode ser atribuída à temperatura – explicaram Marcelo’s e Zazi juntos. – Ah, tá bom, né... Eu conheço todos esses feitiços e encantamentos! – disse Marcelo’s, se gabando. – Ui, desculpa aí, senhor sabe-tudo! – rebateu Seraphin. – Meninos, já deu! – interrompeu Seraphina, em tom mais sério. – Enfim, se vamos guerrear, precisamos de fundamentos. Alguém teve algum sonho ou visão? Então contei sobre meu sonho. – Desde que me entendo por gente, “1111 depois da floresta” é um orfanato – comentou Seraphina. – Tá insinuando que eu fui adotada? Se bem que meu pai nunca foi carinhoso... Mas isso não prova nada. – Lyra, você tem quantos anos mesmo? – perguntou Zazi. – Vou fazer 19. Por quê? Zazi respirou fundo antes de contar: – Há quase 19 anos, houve um m******e em Gomorra. Era uma aldeia que aceitava todo tipo de povo. Um rei das três aldeias queria se casar com uma das filhas da rainha de Gomorra: Luciana ou Eleonor. Ele escolheu Luciana, mas ela estava grávida. O pai de Luciana recusou o casamento. O rei, furioso, atacou. Quase todos morreram. Apenas o bebê e a irmã de Luciana sobreviveram. – E o que aconteceu com Luciana...? – Ela deu a vida para salvar o filho. Deixou claro: se fosse menino, se chamaria Lucio’s. Se fosse menina, Lyra. – Não... não é possível... – murmurei, atordoada. – Lyra, Luciana pode ser sua mãe – afirmou Zazi. – ENTÃO ME EXPLICA! COMO? – gritei, nervosa. – A irmã dela sabia que viriam atrás. Para te proteger, te deixou em um orfanato com o nome mudado. Mais tarde, voltou, te buscou e se casou. Quando você esfaqueou seu “pai”, isso despertou seus poderes. Você tem o poder de todos os clãs. É herdeira de Gomorra. E precisa lutar pelo seu povo e por sua origem! – SIM, CLARO! VOU LUTAR POR UM POVO QUE EU NUNCA VI NA VIDA! – disse saindo correndo, chorando. Subi para o topo da casa e fiquei lá, em silêncio. Após alguns minutos, Seraphina se aproximou: – Finalmente te achei. Te procurei pela casa toda... Você nos deu um susto, sabia? – disse, sentando ao meu lado. – Me desculpa... Foi muita informação de uma vez. – Eu sei. Mas quero que saiba que estamos com você. Sempre. Você faz parte da nossa família! – disse, me abraçando. – Seh, você é a melhor pessoa que eu já conheci. Obrigada por tudo. Eu amo você. – Eu também amo muito você. Agora vamos, tá? – disse me puxando pelas mãos. – O que eu vou fazer agora...? – O que nós vamos fazer, né? Amanhã vamos ao orfanato procurar os registros de 19 anos atrás. Se encontrarmos sua ficha, saberemos que Zazi está certa. Depois falaremos com Ubirajara e com a curandeira. E por fim... vamos a Gomorra. Prontinho! – disse, sorrindo. – Você falando “prontinho” faz parecer que tudo vai ser fácil... – Eu sei que não vai. Mas temos uns aos outros. --- Ao descer, encontramos Seraphin sentado na cama. Zazi e Marcelo’s estavam perto do caldeirão, recitando: – Pessoa que trai não merece ter língua... falei pra não mexer e agora vocês vão ver como é que paga com a língua! Se nunca viu, vai ver caldeirão sem fundo ferver! Uma fumaça preta subiu do caldeirão. – Parece até magia n***a – disse Seraphin. – Magia n***a é aquela feita para o m*l – corrigiram Zazi e Marcelo’s juntos. – Mas como vamos fazer todos comerem isso? – perguntei. – Chamem Aleck e Letícia para o jantar. Simples. Quando vocês estiverem lá embaixo, tudo já estará pronto – disse Marcelo’s. Subi para chamá-los. Esqueci de bater na porta e, ao abrir, vi os dois se beijando. – Ehhh, desculpa! Volto outra hora... – Não, Lyra! Relaxa, pode falar – disse Aleck. – É só o jantar... está servido – murmurei e saí na frente, meio constrangida. Cinco minutos depois, eles chegaram. Sentamos à mesa. O clima era tenso e silencioso. Até que: – AAAHHHHH, MINHA LÍNGUA!!! – gritou Letícia. – Que aconteceu, amor? Calma... – disse Aleck, preocupado. – CALMA O QUÊ, ALECK? MINHA LÍNGUA TÁ INCHANDO! – Passa mel, dizem que melhora – comentou Seraphina com um tom debochado. Letícia subiu furiosa. Aproveitamos para contar tudo a Aleck. – Não acredito... Me desculpem, de verdade. – A culpa não é só sua. Fica tranquilo – tentei confortá-lo. – E agora? O que faremos com ela? – perguntou Seraphin. – Acho que podemos deixar isso com o Aleck – sugeriu Seraphina. – Tem algo em mente, Aleck? – questionou Marcelo’s. – Ah... E tem mais: no dia do almoço, ela tentou me beijar. Não falei antes por causa da volta da Lyra... Me desculpem – revelou Seraphin. – Vou resolver isso agora. Aleck subiu. Encontrou a maleta de Letícia aberta sobre a cama. Dentro, havia poções e artefatos. – NÃO MEXE NISSO! – gritou Letícia, ao entrar. – Por quê? – Minha mãe me deu antes de partir... Perdão, se me equivoquei... – Fiquei sabendo que você tentou beijar o Seraphin. Não quero explicações. Só quero que saia da minha vida. – Mas... – Mas nada. Para de ser cínica, Letícia. Primeiro o ex-noivo, agora isso. Amanhã, quando eu acordar, não quero te ver aqui. – Você vai se arrepender! Está jogando fora alguém único. Nunca vai encontrar outra como eu! – E nem quero. Você até é uma boa pessoa... lá no fundo. Letícia pegou sua maleta e desceu sem dizer uma palavra, passando por todos. – Você tá bem? – perguntei a Aleck. – Tô sim. Me sinto até mais leve... – É bom irmos dormir – disse Zazi. Cada um subiu. Antes de dormir, fiz um pequeno corte na palma da minha mão esquerda e desenhei símbolos mágicos de p******o nas janelas e portas. Por fim, me deitei, com a mente girando entre guerras, traições... e a verdade sobre mim.
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