Chegando à residência, Seraphina já nos esperava. Ela parecia pálida e ansiosa:
– Até que enfim... Aconteceu uma coisa e fiquei muito preocupada com vocês.
– O quê? Espera... Zazi? O que eu perdi? – perguntei confusa.
– Primeiro, vamos para um lugar mais reservado – disse Seraphin, olhando ao redor.
– Faz um tempo que comecei a desconfiar de certas coisas... Não conheço um feitiço que impeça alguém de escutar do lado de fora do quarto. Vamos?
Subimos para o quarto de Seraphin, e lá Seraphina começou a contar o que havia acontecido.
– Ubirajara...? – murmurei, surpresa.
– Acho que todos já estavam sabendo, menos a gente – disse Seraphin, cruzando os braços.
– Agora me conta: por que a Zazi está aqui?
Zazi então começou a explicar:
– Vai acontecer uma guerra.
– Uma guerra? QUE INCRÍVEL! – disse Seraphina, animada demais.
– Não sei como você consegue ficar animada. Essa guerra pode ser uma passagem sem volta... – murmurei.
– Mas... e o traidor? Como vamos descobrir quem é? – perguntei, aflita.
– Deixa comigo – disse Zazi. – Conheço uma magia antiga que usávamos para identificar traidores. Ela é quase indetectável. O feitiço fica na comida... mais especificamente, numa sopa.
– E o que acontece com quem é pego? – perguntou Seraphin.
– A língua incha completamente e fica coberta de feridas – respondeu Zazi.
Nesse momento, Marcelo’s entrou no quarto.
– Marcelo’s? – Seraphin e Seraphina disseram juntos.
– Achei que ia demorar mais! – respondeu ele, rindo.
– Mas não vão perceber que é magia? – questionou Seraphin.
– É aí que você se engana. A sopa vai estar quente. Qualquer reação pode ser atribuída à temperatura – explicaram Marcelo’s e Zazi juntos.
– Ah, tá bom, né... Eu conheço todos esses feitiços e encantamentos! – disse Marcelo’s, se gabando.
– Ui, desculpa aí, senhor sabe-tudo! – rebateu Seraphin.
– Meninos, já deu! – interrompeu Seraphina, em tom mais sério. – Enfim, se vamos guerrear, precisamos de fundamentos. Alguém teve algum sonho ou visão?
Então contei sobre meu sonho.
– Desde que me entendo por gente, “1111 depois da floresta” é um orfanato – comentou Seraphina.
– Tá insinuando que eu fui adotada? Se bem que meu pai nunca foi carinhoso... Mas isso não prova nada.
– Lyra, você tem quantos anos mesmo? – perguntou Zazi.
– Vou fazer 19. Por quê?
Zazi respirou fundo antes de contar:
– Há quase 19 anos, houve um m******e em Gomorra. Era uma aldeia que aceitava todo tipo de povo. Um rei das três aldeias queria se casar com uma das filhas da rainha de Gomorra: Luciana ou Eleonor. Ele escolheu Luciana, mas ela estava grávida. O pai de Luciana recusou o casamento. O rei, furioso, atacou. Quase todos morreram. Apenas o bebê e a irmã de Luciana sobreviveram.
– E o que aconteceu com Luciana...?
– Ela deu a vida para salvar o filho. Deixou claro: se fosse menino, se chamaria Lucio’s. Se fosse menina, Lyra.
– Não... não é possível... – murmurei, atordoada.
– Lyra, Luciana pode ser sua mãe – afirmou Zazi.
– ENTÃO ME EXPLICA! COMO? – gritei, nervosa.
– A irmã dela sabia que viriam atrás. Para te proteger, te deixou em um orfanato com o nome mudado. Mais tarde, voltou, te buscou e se casou. Quando você esfaqueou seu “pai”, isso despertou seus poderes. Você tem o poder de todos os clãs. É herdeira de Gomorra. E precisa lutar pelo seu povo e por sua origem!
– SIM, CLARO! VOU LUTAR POR UM POVO QUE EU NUNCA VI NA VIDA! – disse saindo correndo, chorando.
Subi para o topo da casa e fiquei lá, em silêncio. Após alguns minutos, Seraphina se aproximou:
– Finalmente te achei. Te procurei pela casa toda... Você nos deu um susto, sabia? – disse, sentando ao meu lado.
– Me desculpa... Foi muita informação de uma vez.
– Eu sei. Mas quero que saiba que estamos com você. Sempre. Você faz parte da nossa família! – disse, me abraçando.
– Seh, você é a melhor pessoa que eu já conheci. Obrigada por tudo. Eu amo você.
– Eu também amo muito você. Agora vamos, tá? – disse me puxando pelas mãos.
– O que eu vou fazer agora...?
– O que nós vamos fazer, né? Amanhã vamos ao orfanato procurar os registros de 19 anos atrás. Se encontrarmos sua ficha, saberemos que Zazi está certa. Depois falaremos com Ubirajara e com a curandeira. E por fim... vamos a Gomorra. Prontinho! – disse, sorrindo.
– Você falando “prontinho” faz parecer que tudo vai ser fácil...
– Eu sei que não vai. Mas temos uns aos outros.
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Ao descer, encontramos Seraphin sentado na cama. Zazi e Marcelo’s estavam perto do caldeirão, recitando:
– Pessoa que trai não merece ter língua... falei pra não mexer e agora vocês vão ver como é que paga com a língua! Se nunca viu, vai ver caldeirão sem fundo ferver!
Uma fumaça preta subiu do caldeirão.
– Parece até magia n***a – disse Seraphin.
– Magia n***a é aquela feita para o m*l – corrigiram Zazi e Marcelo’s juntos.
– Mas como vamos fazer todos comerem isso? – perguntei.
– Chamem Aleck e Letícia para o jantar. Simples. Quando vocês estiverem lá embaixo, tudo já estará pronto – disse Marcelo’s.
Subi para chamá-los. Esqueci de bater na porta e, ao abrir, vi os dois se beijando.
– Ehhh, desculpa! Volto outra hora...
– Não, Lyra! Relaxa, pode falar – disse Aleck.
– É só o jantar... está servido – murmurei e saí na frente, meio constrangida.
Cinco minutos depois, eles chegaram. Sentamos à mesa. O clima era tenso e silencioso. Até que:
– AAAHHHHH, MINHA LÍNGUA!!! – gritou Letícia.
– Que aconteceu, amor? Calma... – disse Aleck, preocupado.
– CALMA O QUÊ, ALECK? MINHA LÍNGUA TÁ INCHANDO!
– Passa mel, dizem que melhora – comentou Seraphina com um tom debochado.
Letícia subiu furiosa. Aproveitamos para contar tudo a Aleck.
– Não acredito... Me desculpem, de verdade.
– A culpa não é só sua. Fica tranquilo – tentei confortá-lo.
– E agora? O que faremos com ela? – perguntou Seraphin.
– Acho que podemos deixar isso com o Aleck – sugeriu Seraphina.
– Tem algo em mente, Aleck? – questionou Marcelo’s.
– Ah... E tem mais: no dia do almoço, ela tentou me beijar. Não falei antes por causa da volta da Lyra... Me desculpem – revelou Seraphin.
– Vou resolver isso agora.
Aleck subiu. Encontrou a maleta de Letícia aberta sobre a cama. Dentro, havia poções e artefatos.
– NÃO MEXE NISSO! – gritou Letícia, ao entrar.
– Por quê?
– Minha mãe me deu antes de partir... Perdão, se me equivoquei...
– Fiquei sabendo que você tentou beijar o Seraphin. Não quero explicações. Só quero que saia da minha vida.
– Mas...
– Mas nada. Para de ser cínica, Letícia. Primeiro o ex-noivo, agora isso. Amanhã, quando eu acordar, não quero te ver aqui.
– Você vai se arrepender! Está jogando fora alguém único. Nunca vai encontrar outra como eu!
– E nem quero. Você até é uma boa pessoa... lá no fundo.
Letícia pegou sua maleta e desceu sem dizer uma palavra, passando por todos.
– Você tá bem? – perguntei a Aleck.
– Tô sim. Me sinto até mais leve...
– É bom irmos dormir – disse Zazi.
Cada um subiu. Antes de dormir, fiz um pequeno corte na palma da minha mão esquerda e desenhei símbolos mágicos de p******o nas janelas e portas. Por fim, me deitei, com a mente girando entre guerras, traições... e a verdade sobre mim.