Na manhã seguinte, acordamos cedo para nos organizarmos. Assim que todos desceram, Seraphina tomou a frente:
— Vamos nos dividir! Lyra, Marcelo’s e eu vamos ao orfanato. Seraphin cuida dos armamentos. Aleck e Zazi ficam com os alimentos.
— Entendido, senhora capitã! — respondemos em coro.
Seraphin já havia começado a forjar as armas, enquanto Aleck e Zazi cuidavam dos cestos de mantimentos na cozinha. Marcelo’s abriu um portal, e partimos.
Assim que chegamos ao orfanato, algo despertou dentro de mim — uma memória que eu nem sabia existir. Mas, ao entrar, fui surpreendida:
— VOCÊ NÃO! Saia daqui, você n******e ficar aqui dentro! — gritou a funcionária, apontando para mim.
— Vai, Lyra. Espera lá fora — pediu Marcelo’s, gentil.
Sentei na escadinha da entrada. Lá dentro, Seraphina tomou a palavra:
— Moça, precisamos do registro de uma menina deixada aqui há 19 anos.
— Como? — a mulher parecia nervosa.
— Isso mesmo. A senhora teria o registro?
A moça assentiu, ainda desconcertada, e foi procurar.
— Tem algo errado aqui... — sussurrou Marcelo’s.
“Acho que entendi. O rei das três aldeias sabia da gravidez de Luciana... Essa mulher está muito nervosa...” — ele pensou, em silêncio.
Minutos depois, a funcionária voltou e os chamou para uma sala de arquivos.
— Aqui estão três registros. Imagino que seja esse o que procuram. Registraram como menino. Depois que Lívia deixou a criança, apagamos os rastros. Falei para ela não entrar porque aqui há servos do Senhor das Três Aldeias. Tomem isto e não voltem mais! — disse, entregando um documento e jogando um pozinho dourado ao redor deles.
Em segundos, já estávamos do lado de fora.
— Gente??? — perguntei, confusa.
— Depois explicamos. Precisamos ir embora agora — disse Marcelo’s, abrindo o portal.
De volta à residência:
— Alguém pode me explicar agora?
— O rei das Três Aldeias queria destruir toda a linhagem de Luciana. Se a irmã dela ficasse com você, também se tornaria um alvo — explicou Seraphina.
— Sinceramente, não sei o que dizer... Está tudo acontecendo tão rápido... — murmurei, cabisbaixa.
— Vai tomar um banho e esfria a cabeça — disse Marcelo’s.
— É melhor mesmo — reforçou Seraphina.
Enquanto isso...
— Posso ajudar? — perguntou Aleck.
— Pode sim! Estamos procurando uma amiga. Lyra, o nome dela!
— Quem são vocês? — perguntou Zazi, desconfiada.
A menina deu um t**a no braço do companheiro:
— Perdoem o Ubirajara. Às vezes ele é assim, sem educação. Eu sou Iara, e ele é Ubirajara.
— O que vocês querem com a Lyra? — Zazi apertou os olhos.
— Somos de uma aldeia pequena. Viemos prestar ajuda — disse Ubirajara.
— Ubirajara... Você é o cara que a Seraphina falou, certo? — lembrou Aleck.
— Isso! Vocês já avisaram a Lyra?
— Estamos com saudade dela! — completou Iara, sorrindo.
— Já comunicamos sim. Em breve voltamos pra casa. Se quiserem, podem vir com a gente — respondeu Aleck.
— Mas antes vamos colher umas frutas — disse Zazi.
— Podemos ajudar? — perguntou Iara.
— Claro! Vão buscar uns legumes por ali. Quando voltarem, partimos — respondeu Zazi, entregando os cestos.
Depois que eles saíram, Aleck comentou:
— Não ia dizer nada, mas esse Ubirajara não me parece tão confiável...
— Ih, para! Você só tá tentando disfarçar que se encantou pela menina!
— Zazi, não é isso...
— Não minta. Mentir é f**o! — respondeu rindo.
— Tá bom, vai... Ela é bonitinha sim — confessou Aleck, envergonhado.
— Eu sabia!!!
Enquanto isso...
— Que foi aquilo, hein? — perguntou Ubirajara.
— O quê?
— Você não tirava os olhos daquele cara.
— Ah, fazer o quê, né? Tem gente que canta bem, luta bem... e tem uns que são só lindos!
Minutos depois, voltaram ao encontro de Zazi e Aleck.
— Desculpem, nem nos apresentamos antes. Eu sou Aleck, essa é Zazi.
— Satisfação em conhecer vocês! — disseram Iara e Ubirajara juntos.
Na residência...
— Sabe, amor... Dá pra sentir na pele o que a Lyra está passando — disse Seraphina, com o olhar distante.
— Seh, mesmo sem conhecê-la tão profundamente, eu sei que ela é forte. E enquanto estivermos com ela, seremos seu suporte.
— Amo tanto vocês...
— Opa! Ama mais eles do que a mim? Fico com ciúmes, viu?
— Claro que sim! — brincou ela.
De repente...
— GENTEEEEE? CHEGAMOS! — gritou Aleck da porta.
Todos foram até a sala e encontraram Ubirajara, Iara, Aleck e Zazi.
— A casa tá cheia hoje! — brincou Marcelo’s.
— Eu sou Iara. Tudo bem?
— E eu, Ubirajara. Nos falamos outro dia, lembra?
— Sim, sim! Eu sou Seraphina e esse é meu namorado Marcelo’s. Estou bem e vocês?
— Viemos ajudar. Em breve vamos para Gomorra, e estamos nos preparando — disse Marcelo’s.
— Vamos guerrear juntos! — completou Ubirajara.
— Desculpa interromper... mas, e a Lyra? — perguntou Iara.
— Está descansando um pouco — respondeu Seraphina.
Depois de dez minutos de conversa, Seraphin chegou:
— Irmão, que bom que chegou! Esses são Ubirajara e Iara, amigos da Lyra.
— Entendi. Prazer, sou Seraphin. Escutem: fomos convidados para uma festa. Eu ia recusar, mas o Derf insistiu. Talvez ele possa ser um aliado, não para lutar, mas para fornecer guerreiros e equipamentos.
— Mas... você lembra da última festa? — questionou Seraphina, apreensiva.
— Pensei nisso. Mas agora ele está casado. Deve estar mais amadurecido.
— Quem é esse Derf? — perguntou Ubirajara.
— História pra outra hora — respondeu Marcelo’s.
Seraphin subiu ao meu quarto:
— Lyra?
— Um minutinho!
Abri a porta.
— Oi, Seraphin! Entra.
— Seus amigos estão aqui.
— Amigos? Que amigos?
— Ubirajara e Iara.
— Ubi... Ubirajara?
— Isso. Vim te chamar pra descer. Vamos?
— Agora não... Vai na frente. Depois eu vou.
Quando ele saiu, fiquei nervosa. Pensei no meu primeiro amor. Será que ele estava bem?
Pouco depois, Zazi subiu e deitou na cama ao meu lado:
— Tá acordada?
— Uhum. Diz à Seraphina que já vou.
— Tá tudo bem? Quer desabafar?
— Acho que você não entenderia...
— Mesmo que eu não entenda, todo o meu carinho e apoio são seus.
— Sabe... eu tinha um sentimento pelo Ubirajara. Mas quando voltei, vi ele beijando outra pessoa...
— Mas será que eles tinham algo?
— Eu vi. Eles estavam se beijando.
— Ah, minha linda... Sinto muito por essa dor. Mas o coração partido também é parte do caminho. Você é incrível, forte, corajosa, linda, gentil e inteligente. Anime-se. Ainda viverá muitas outras paixões.
Sorri e desci.
— Oi, gente! Desculpa a demora — disse com um sorrisinho leve.