Chegando à porta da nossa moradia, encontramos Seraphin e Flora esperando.
— Por que demoraram tanto? — perguntou Flora, desconfiada.
— Demoramos porque colhemos algumas verduras e legumes! — respondeu Seraphina, com um sorriso.
Todos nós entramos e seguimos para nossos aposentos. Mas, enquanto eles pareciam relaxados, eu estava extremamente tensa com o que Bicusso havia me dito. Entrei na banheira e fiquei ali por horas, refletindo.
Quando finalmente saí do banho, vi em cima da cama um vestido preto com detalhes em “glitter” dourado. Era simplesmente maravilhoso. Mas havia um problema: o fecho nas costas. Eu tentei de todas as formas fechá-lo sozinha, me encolhendo, virando, puxando... sem sucesso.
Foi quando alguém bateu na porta:
— Lyra? Está por aí?
Abri a porta e, para minha surpresa, era Aleck. Ele ficou vermelho ao me ver.
— V-você está linda... — disse ele, envergonhado.
— Obrigada... mas, será que poderia me ajudar com o fecho?
— C-claro! — respondeu, nervoso.
Ele se aproximou com cuidado, afastou meu cabelo para não prender no fecho e o fechou com delicadeza.
— Prontinho, pequena.
Ao virar, nossos rostos ficaram bem próximos. Ficamos ali, nos encarando em silêncio... até que Seraphina apareceu animada e parou de repente ao nos ver.
— Eerrr... estou atrapalhando alguma coisa?
— Nãããão! Jamais! Vamos? — dissemos, ao mesmo tempo, como se nada tivesse acontecido.
Descemos para o jantar. Seraphin me lançou um olhar estranho e comentou:
— Então o vestido que deixei serviu bem, né?
Fiquei sem graça e apenas ri. O clima ficou estranho durante todo o jantar. Poucas conversas, olhares discretos... e depois fomos todos dormir.
Mais tarde, ao me recolher, algo me incomodava. Era como se uma presença estivesse ali comigo. Mas, aos olhos nus, não havia ninguém. Tentei ignorar e dormir.
Acordei horas depois com uma voz sussurrando:
— Acorda, Lyra... você é a escolhida. Acorda, Lyra... Lyra...
Assustada, murmurei:
— Escolhida? Será que...
— Me escute, Lyra. Não tenho muito tempo. Você precisa descobrir suas origens... desenterrar o seu passado. Aprenda a se defender. Aprenda a usar seus poderes. Não confie demais em quem está ao seu redor. Na vida, temos mais inimigos do que amigos. Bicusso irá ajudá-la a evoluir. Diga a Seraphina e Seraphin que eu os am...
Antes que pudesse terminar, a figura simplesmente se desfez em ** e desapareceu.
Fiquei paralisada. Não sabia com quem conversar. A única pessoa que me veio à mente foi Aleck.
Fui até seu quarto, bati levemente:
— Aleck? Está acordado?
— Entra.
Entrei, sem dizer nada, e apenas o abracei forte.
— L-Lyra... você tá bem?
Não respondi. Só continuei abraçando. Quando finalmente soltei, ele me puxou para sentar ao seu lado.
— Me conta. O que tá te incomodando?
Então, contei tudo o que havia acontecido. Ele me ouviu em silêncio e, por fim, riu suavemente.
— Uau, Lyra... eu sabia que você não era apenas humana. Isso é incrível! Amanhã posso te ensinar a se defender, se quiser.
— Sério? Você faria isso por mim?
— Claro! Seria um alívio saber que você consegue se proteger sozinha... assim eu me preocuparia menos com você.
— Obrigada! Mas acho que é melhor você descansar. Boa noite!
Ao me levantar, ele segurou meu braço e disse:
— Só mais um abraço... de despedida?
Ele me puxou de volta e me abraçou com carinho. Depois disso, fui para o meu quarto e, assim que me deitei, apaguei completamente.
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Na manhã seguinte, coloquei um vestido branco, me arrumei e fui a primeira a chegar à sala de estar. Logo apareceram Flora e Seraphin, depois Seraphina, e por fim, Aleck.
Quando todos estavam sentados, anunciei:
— Irei começar a treinar técnicas de combate. Quero aprender um pouco com cada um de vocês.
— Boa, Ly! Estamos aqui pro que precisar! — disseram Seraphina e Aleck, animados.
— Humm... intrigante. Mas não acho que isso seja coisa para mulher. — disse Seraphin, com olhar de superioridade.
— Ah, sério? Melhor desistir agora. — zombou Flora.
Me levantei e respondi firme:
— Olha, escutem: essa é uma questão minha. Não quero que se metam nas minhas escolhas, pois elas não serão feitas por vocês, ok?
Seraphina e Aleck começaram a aplaudir.
Depois disso, tomamos café e saímos.
Ainda pensativa, pedi ajuda a Aleck para contar a Seraphina sobre o que aconteceu à noite. Quando contamos, os olhos dela se encheram de lágrimas. Ela nos abraçou e disse:
— Vocês sabem que são muito especiais pra mim, né? Eu amo vocês dois.
Retribuímos o abraço, mas o momento foi interrompido por um berro de Bicusso.
— Lyra! Você consegue ouvir isso? Consegue entender o que ele diz?! — perguntou Seraphina, surpresa.
— É... também não sabia disso até alguns dias atrás. Loucura, né?
Ela ficou tão empolgada quanto eu.
— Uhuul! Será que você é de uma linhagem muito importante?
Seguimos até o Bicusso, que, no fim, só estava com sede.
Depois de dar água a ele, contei tudo que havia acontecido. Ele apenas disse:
— Humm... Lyra, pode treinar ali, em frente ao lago, com Aleck, por enquanto.
Fomos para lá. Aleck fez duas espadas surgirem do chão, me deu uma e começou a me ensinar vários golpes e contra-ataques.
Três horas depois, eu já estava dominando bem os movimentos. Então ele criou um boneco de terra para me atacar. No começo, me saí bem, mas acabei sendo atingida por um pequeno corte no braço. Me desequilibrei e caí no lago.
Quando me levantei, percebi algo estranho: o corte havia cicatrizado.
Arregalei os olhos.
— Como isso é possível? Regeneração?
— Hã? — disse Aleck.
— Lyra... as águas te curaram. Você tem o poder da cura! — revelou Seraphina.
Ao ouvir aquilo, desmaiei.
Seraphina me sacudia, desesperada:
— Acorda, por favor, Lyra! Eu não posso te perder também...
Ela e Aleck choravam. Correram comigo até a moradia. Aleck me colocou em seus aposentos, o mais fresco de todos. Eles ficaram ao meu lado o tempo todo.
Enquanto isso, eu permanecia em um sono profundo... como se estivesse presa em um sonho sem fim.