Naquela manhã, acordei com Feline se espreguiçando aos meus pés, seu corpo peludo aquecendo como um pequeno travesseiro de calor. O sol, tímido, começava a filtrar sua luz suave pelas cortinas, e eu me permiti alguns preciosos minutos de tranquilidade antes de enfrentar o mundo lá fora. Era um pequeno ritual que me envolvia como um abraço acolhedor, aliviando a solidão que frequentemente se aninhava em meu peito.
Levantei-me lentamente, ainda envolta pela preguiça matinal. Caminhei até a cozinha, onde preparar o café já era uma dança rotineira. Assim que meus olhos pousaram na mesa, um detalhe prendeu minha atenção: as flores, intocadas desde ontem, pareciam guardar um segredo, como se esperassem que eu finalmente o desvendasse. Ao lado do vaso, um bilhete dobrado repousava, banhado pela luz suave da manhã.
Foi então que a lembrança me atingiu: uma tarde de verão, um buquê com um bilhete prometendo um amor inabalável. Naquela época, as flores simbolizavam sentimentos puros, mas agora eram lembretes silenciosos de promessas desfeitas. O que antes carregava esperança, agora parecia encapsular o peso das expectativas e desilusões. Olhei novamente para as flores, como se elas sussurrassem que o amor, em sua delicadeza, se escondia sob camadas de lembranças que eu preferia esquecer.
O dia estava claro, e a ideia de um pão fresquinho da padaria do mercadinho do bairro parecia uma boa desculpa para sair de casa. Vesti uma camiseta confortável e calças soltas, calcei meus tênis desgastados, prontos para enfrentar as pequenas exigências do dia. Peguei minha bolsa e, sem pensar muito, saí porta afora, sentindo o frescor matinal me despertar mais do que o próprio café poderia.
Ao entrar no mercadinho, fui recebida pelo aroma inconfundível de pão recém-assado, um conforto familiar em meio à rotina monótona. Ah, a padaria! Um local onde as interações humanas ainda tinham seu espaço, longe das telas frias do meu computador.
O padeiro, um homem de cabelos grisalhos e sorriso acolhedor, me cumprimentou com a mesma simpatia de sempre.
— Oi, Camila! O que vai levar hoje? — perguntou ele, enquanto organizava os pães com a dedicação de um artista moldando sua obra.
— Um pão integral, por favor, seu João — respondi, retribuindo o sorriso sem muito entusiasmo. — E você, como andam as coisas?
— Ah, você sabe como é, sempre corrido, mas não posso reclamar. Tem algo melhor que o cheiro de pão fresco pela manhã?
A conversa seguiu tranquila, um lembrete sutil de que a vida continuava, mesmo quando os pensamentos teimavam em se perder. Ao passar pela seção de flores, hesitei. As cores vibrantes e os perfumes doces pareciam chamar minha atenção, ainda que eu soubesse o risco de despertar memórias que eu preferia manter adormecidas. Mesmo assim, permaneci ali por alguns instantes.
Com o pão na mão, decidi fazer uma parada rápida na seção de frutas. Um toque de frescor a mais parecia uma boa ideia. Quando saí, uma brisa suave me envolveu, e respirei fundo, tentando absorver o momento. O céu límpido e a luz suave iluminavam o caminho à minha frente, trazendo uma sensação renovadora ao dia.
Ao voltar para casa, coloquei os itens no balcão e encontrei Feline me esperando. Por um instante, a normalidade do cotidiano parecia suficiente. Mas o bilhete me puxou de volta à realidade. Antes de abrir o laptop, peguei o papel novamente. A caligrafia, firme e fluida, revelava que quem o escreveu tinha o hábito de deixar mensagens discretas.
Uma parte de mim cogitou a possibilidade de ser uma brincadeira, talvez um plano de Carla para me tirar do marasmo. Contudo, a lógica insistia que isso não fazia sentido; ela eventualmente, deixaria escapar um detalhe assim.
“Que coisa mais ridícula.” Olhei o bilhete mais uma vez, como se esperasse descobrir uma mensagem oculta entre as palavras óbvias. A letra “C” no canto do cartão fez meu coração disparar. Como não percebi essa assinatura antes?
Seria alguém do passado? Um ex-colega de trabalho? Um amigo de infância? Uma pessoa que eu havia conhecido em algum lugar e esquecido? Um admirador secreto? As possibilidades giravam na minha mente. “Admirador secreto? A última vez que vi isso foi em um filme barato dos anos 90.” E ainda assim, lá estava ele, irritantemente real.
Passei o resto da manhã tentando ocupar minha mente com tarefas banais. Limpei o apartamento, alimentei Feline, respondi a e-mails que há dias me esperavam. Tudo com a intenção de afastar a assinatura dos meus pensamentos, que continuava rodando em círculos. “E se fosse mesmo um admirador secreto?” Uma risada nervosa escapou antes que eu pudesse contê-la. Que fantasia ridícula. Em que mundo eu vivia?
“Expectativas nunca dão em nada além de frustração.” Isso eu sabia bem. O problema era que, por mais que eu repetisse essa máxima, ela não se firmava de verdade na minha cabeça.
Aquela assinatura não apenas trazia mistério, mas também mexia com algo mais profundo. Já me acostumara com a ideia de que a vida talvez não reservasse mais grandes surpresas para mim — e, verdade seja dita, isso não me parecia tão r**m assim.
Na cozinha, preparei meu almoço no modo automático, fazendo meu prato favorito. Sem perceber, o bilhete estava novamente nas minhas mãos. “Quem ainda faz isso?”, pensei. Havia algo tão antiquado nesse gesto, mas, por mais que tentasse, não conseguia tirar isso da minha cabeça.
No final da tarde, o telefone tocou. Era Carla. Maldita hora em que mencionei o buquê! Eu já sabia que ela não deixaria passar a chance de me instigar a ir mais fundo. A curiosidade dela estava à flor da pele, e não podia evitar que o assunto viesse à tona.
— E então, já descobriu quem é o misterioso romântico? — ela foi direto ao ponto, como sempre.
— Ainda não — murmurei, fazendo o melhor que podia para soar desinteressada.
— O que você está fazendo de tão importante? — perguntou ela, já prevendo que a resposta seria algo entre “nada” e “tentando ignorar minha vida”.
— Ah, apenas me enfiando em mistérios dignos de filme de quinta categoria – eu disse, com um tom de falsa leveza.
— Por favor, me diga que você vai investigar! Isso pode ser o começo de um enredo de novela, Camila!
Suspirei, ainda encarando o bilhete. “C.” Aquela inicial minúscula estava começando a me irritar mais do que deveria.
— Pensei que essas coisas de admirador secreto fossem só coisa de filme r**m – eu disse, com um cínico sorriso nos lábios.
Carla soltou uma risada alta do outro lado da linha.
— Mas a vida real é cheia de surpresas, minha amiga! E você? O que vai fazer?
— O bilhete só diz “C”, e a única “C” que eu conheço além de mim é você.
— C de Camila, talvez? Um lembrete subliminar de amor-próprio, vai saber? – ela riu, claramente se divertindo mais do que eu.
Eu ri, mas o som saiu forçado, quase como um reflexo. A ideia de aguardar algo que poderia ser bom parecia absurdamente otimista.
— Talvez. Ou pode ser só um engano. O mundo está cheio deles, certo?
Por dentro, a dúvida se formava. “E se não for um erro? E se for exatamente o que eu precisava para romper com essa rotina sufocante?” A ideia, ao mesmo tempo que me intrigava, também me deixava desconfortável.
— Para de ser tão cínica, Camila! Já pensou que pode ser de alguém que realmente te admira? Isso ainda acontece, acredite ou não!
— Admirador? Nessa altura da vida? Não me faça rir, Carla.
Eu ri, tentando ignorar essa possibilidade improvável. Mas, de forma inegável, uma centelha de curiosidade começou a se acender.
O dia passou devagar, mas à noite, quando me sentei na poltrona com Feline no colo, senti que algo havia mudado. Havia uma pequena faísca de curiosidade em mim, como se aquele bilhete tivesse plantado uma semente que eu não conseguia mais ignorar. E se essa fosse a chance de reviver sonhos esquecidos? E se eu estivesse me acomodando demais?
Fiquei pensando em quem poderia ser “C”. Algum amigo antigo? Alguém que eu tinha perdido contato? Um desconhecido? O mais importante: será que eu estava pronta para descobrir?
Olhei para o gato, que agora estava confortável e quase dormindo. Ele era a coisa mais constante na minha vida nos últimos anos. Enquanto acariciava seus pêlos, uma sensação de tranquilidade se instalou, mas logo foi interrompida por um pensamento inesperado: E se eu realmente estivesse me acomodando demais? Será que Carla estava certa sobre eu precisar de algo novo?
A ideia me fez lembrar de um tempo em que eu não tinha medo de arriscar, de quando minha vida era cheia de promessas e novidades. Mas isso parecia tão distante agora. O eco de risadas e promessas feitas em dias ensolarados me fez franzir o cenho.
Antes que eu pudesse me aprofundar nessas questões, o telefone tocou. O som agudo e repentino fez com que eu me sobressaltasse, quase como se fosse um ruído estranho ao ambiente. Quem liga para um número residencial nos dias de hoje? Pensei, olhando para o aparelho, que mais parecia uma peça de museu em pleno século 21. Quem quer que fosse, parecia fora de época, talvez até fora de lugar.
Hesitei por um momento, mas estendi a mão e atendi.
— Alô?
— Camila?
A voz do outro lado da linha congelou tudo. Meu coração deu um salto involuntário. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
— Quem está falando? — perguntei, sentindo uma estranha mistura de excitação e medo.
— É o C.
E então, o mistério que eu tanto queria ignorar me puxou de volta, como uma corrente que me puxava para um lugar de onde eu não sabia se queria voltar.