Capítulo 2: O Café com Carla

2213 Words
O café onde Carla e eu nos encontrávamos de vez em quando não era exatamente um lugar que eu escolheria. Sempre lotado, com mesas pequenas demais para as conversas profundas que ela insistia em querer ter, e um cardápio repleto de doces e bolos que eu nunca conseguia terminar. Mas Carla adorava o lugar, e às vezes era mais fácil ceder. Hoje, parecia ser um daqueles dias em que a rotina confortável precisava ser perturbada. Cheguei alguns minutos antes do combinado, dando-me tempo de escolher uma mesa perto da janela. Observei a movimentação lá fora: casais passando de mãos dadas, pessoas indo e vindo com sacolas de compras, jovens tão absortos em seus celulares que não notavam nada ao redor. Para mim, a cidade era um palco distante, onde eu não tinha vontade de atuar. Carla chegou, como sempre, com um sorriso largo e uma sacola de compras balançando no braço. Ela era o oposto de mim. Enquanto eu evitava novidades, Carla abraçava tudo o que o mundo oferecia. E, claro, sempre tinha algum drama recente para compartilhar. — Você não vai acreditar! — foi a primeira coisa que disse ao se sentar. Eu já sabia que a frase seria seguida por uma longa história, então apenas sorri e acenei para o garçom, pedindo o habitual café com leite. — O que foi dessa vez? — perguntei, tentando soar interessada. Era parte do ritual: Carla falava, eu ouvia, e o tempo passava. — Eu terminei com o Márcio! — anunciou, como se fosse uma notícia inesperada. Eu pisquei. O Márcio era um dos namorados mais recentes dela, parte de uma coleção que vinha se acumulando nos últimos meses. Havia algo incansável em Carla quando se tratava de relacionamentos, como se ela sempre estivesse em busca da peça certa, mesmo que essas peças nunca se encaixassem. — De novo? — perguntei. — Sim, e dessa vez é pra valer — respondeu, enquanto mexia no menu, seu olhar distante. — Percebi que ele não me entende... não entende minhas ambições, meus planos. — Ela suspirou, balançando a cabeça. Ambições. Planos. Carla sempre tinha muitos, e eu me sentia desgastada só de acompanhá-la. Por outro lado, não conseguia lembrar a última vez que tive um “plano” que não fosse pagar contas ou levar a Feline ao veterinário. Carla então passou a narrar, com riqueza de detalhes, tudo o que havia acontecido entre ela e Márcio. Do primeiro sinal de que algo não estava certo, às brigas inevitáveis e, finalmente, a decisão de colocar um ponto final na relação. Eu ouvi tudo com atenção, como sempre, enquanto ela gesticulava e dramatizava cada momento. Quando terminou sua narrativa com um suspiro dramático, seus olhos se voltaram para mim, curiosos, como se esperasse que minha vida tivesse passado por mudanças igualmente turbulentas. — E você? — ela perguntou, com os olhos brilhando de curiosidade. — Como estão as coisas com você? Ah, a pergunta. Eu sempre hesitava em responder, pois minha resposta era tão desinteressante quanto a própria pergunta. — Ah, tudo na mesma — respondi, sem entusiasmo, encolhendo os ombros e desviando o olhar para a janela. Carla me lançou aquele olhar que já conhecia bem: uma mistura de preocupação e leve frustração. Ela sempre tentava me empurrar para algo novo, alguma mudança, mas nunca surtia efeito. Mesmo assim, ela nunca desistia. — Você precisa de algo diferente — disse, com a convicção de quem acha que tem a solução para todos os meus dilemas. — O que você realmente quer fazer da sua vida? Suspirei, afundando-me na cadeira, tentando encontrar as palavras certas. — Carla, já tentei muita coisa. Agora, estou bem assim. Não estou procurando complicações — falei, evitando seu olhar intenso. Ela ficou em silêncio, me observando, antes de soltar: — Mas e o seu sonho? Você ainda não encontrou! De novo, a história do sonho. Eu já tinha ouvido essa palavra mais vezes do que gostaria. O que estava acontecendo hoje, afinal? Parecia que tudo e todos queriam me lembrar de um grande sonho perdido, como se eu estivesse em dívida com uma versão idealizada de mim mesma. Revirei os olhos, sorrindo de leve. — Quem disse que eu tenho que ter um? Ela riu, um riso leve e otimista que sempre me deixava desconfortável. — Todo mundo tem um sonho, Camila — ela disse, gesticulando com as mãos. — Talvez você só tenha esquecido o seu. Balancei a cabeça, lutando contra a vontade de mergulhar novamente naquela discussão. Estávamos presas no mesmo ciclo. Para Carla, o mundo era um lugar repleto de oportunidades, esperando para ser conquistado. Para mim, era apenas uma sequência interminável de dias iguais. Talvez eu tivesse perdido algo ao longo do caminho, mas já não sabia o que era, e nem tinha certeza se desejava realmente encontrá-lo. Nosso café chegou, e Carla mergulhou em outra história, desta vez sobre uma possível mudança de emprego. Eu escutei, ou, pelo menos, tentei. No entanto, meus pensamentos ainda estavam no buquê em casa e no misterioso cartão que o acompanhava. As palavras “Para você, com todo carinho. De alguém que acredita nos seus sonhos” ecoavam na minha mente desde o momento em que as li. A caligrafia, firme e elegante, carregava uma intenção silenciosa, como se cada palavra fosse escolhida a dedo. Não havia assinatura, até onde pude ver, apenas o enigma que pairava sobre mim, deixando no ar uma inquietação que eu não sabia como decifrar. Enquanto Carla falava, senti uma leve tensão nos ombros; era como se, ao pensar naquelas flores, uma onda de ansiedade começasse a se formar dentro de mim. Havia uma parte de mim que queria ignorar aquilo, deixar o cartão lá até as flores murcharem. Mas, por outro lado, outra parte, mais sutil, quase imperceptível, estava curiosa. E, talvez, essa fosse a parte que me incomodava mais. — Você não acha que é hora de mudar alguma coisa na sua vida? — Carla perguntou de repente, me puxando de volta à conversa. Eu pisquei, desviando os pensamentos do buquê para o rosto dela, mas o incômodo ainda permanecia, como uma sombra. Suspirei, dando de ombros. — Talvez. — Era uma resposta evasiva, quase automática. Mas, mesmo ao pronunciar aquela palavra, senti um pequeno nó no estômago, uma tensão familiar. E se, de fato, houvesse algo que precisasse ser mudado? Algo que eu havia deixado de lado, como o tal “sonho” que Carla sempre mencionava? Ela continuou me encarando, esperando mais de mim. Nesse momento, eu me permiti um breve instante de distração, e, com um gesto instintivo, deixei meu olhar seguir o garçom que passava, buscando uma saída sutil daquela conversa. Então, quase sem pensar, falei: — Ah, falando nisso… — minha voz soou hesitante, quase como se eu estivesse pensando em voz alta. — Recebi umas flores esta manhã. — Fiz um gesto vago com a mão, tentando aparentar indiferença. — Coisa boba. Nem sei de quem são. Carla arregalou os olhos e se inclinou para frente na cadeira, claramente empolgada. — Como assim? Flores? — ela repetiu, com um brilho nos olhos. — E você nem está curiosa? Eu dei de ombros, tentando manter o tom leve. — Não tem importância, Carla. Só achei curioso. — Olhei para o lado, como se o assunto não fosse tão relevante. — Não tem importância? — Ela parecia incrédula. — Flores misteriosas aparecendo na sua porta e você não está nem um pouquinho curiosa? Jura? Soltei uma risada curta, sacudindo a cabeça. — Talvez só um pouco… mas… — pausei, sem saber como continuar, meus olhos caindo no chão. Carla me interrompeu, gesticulando com as mãos, entusiasmada. — Claro que está curiosa! — Ela se inclinou ainda mais, quase pulando da cadeira. — Quem não estaria? E se for importante? Vai me dizer que você não está nem um pouco tentada a investigar? — Eu só não quero criar expectativas, só isso — falei, levando as mãos aos ombros, como se tentasse aliviar a tensão que começava a surgir. Carla sorriu, quase conspiradora. — Ah, então é isso! Você tem medo de se decepcionar, mas vai por mim, Cami, pode ser o começo de algo interessante. Revirei os olhos, sorrindo de leve, mas algo em mim se contorcia. O entusiasmo de Carla era contagiante, mas também exaustivo. — Talvez ainda valha a pena descobrir de onde veio o cartão, você não acha? — Ela sugeriu, com um tom quase casual, mas que carregava a persistência de alguém que não aceita evasivas. Eu ri, balançando a cabeça. — E você realmente acha que eu vou fazer isso? — Por que não? — Ela fez um gesto dramático com as mãos. — O que você tem a perder? Fiquei em silêncio, pensando. No fundo, talvez houvesse algo que valesse a pena descobrir. Mas outra parte de mim estava paralisada pelo medo do desconhecido. — Ok, ok — cedi, com um riso nervoso. — Não vou fazer isso agora, mas… quem sabe um dia. Carla sorriu, satisfeita. — Sério, Cami, não te dá um frio na barriga imaginar o que pode estar por vir? O olhar de Carla tinha um brilho de quem queria me ver reagir, como se esperasse que eu buscasse algo mais para mim. Mas como explicar que, às vezes, seguir o fluxo e viver sem grandes expectativas era mais seguro? Sonhar de novo era arriscar mais uma decepção. — Eu só… não sei se tenho mais energia para isso — murmurei, mais para mim mesma do que para Carla. Ela ficou em silêncio por um momento, a expressão dela se suavizou, como se estivesse ponderando minhas palavras com cuidado. — Cami, não desista do que te faz sonhar, tá? A vida pode ficar tão complicada que a gente acaba esquecendo do que realmente importa. Os sonhos são como combustível, sabe? Eles nos empurram para frente, mesmo quando tudo parece parado. A simples menção ao “sonho” me atingiu como uma lembrança dolorosa, reabrindo uma ferida que eu tentara cicatrizar. Há muito tempo não me permitia pensar nisso; de certa forma, era um alívio não ter que encarar as recordações. Um sonho que parecia ter se perdido em algum canto esquecido da minha mente. Por que, então, reviver essa dor? Na última vez em que me arrisquei a sonhar grande, o que consegui foram frustrações empilhadas como livros não lidos em uma estante. A vida que levava agora era um reflexo disso: estável, sem grandes emoções, mas também sem a excitação de algo novo. Talvez fosse mais fácil assim. Forcei um sorriso, tentando ignorar o m*l-estar que crescia em meu peito. — Eu sei que você tem razão — disse, suspirando. — Mas às vezes me pergunto se vale a pena arriscar de novo. E se eu falhar outra vez? E se esse sonho for apenas uma miragem que só me faz perder tempo? Eu me sinto tão… cansada de tentar. Ela riu suavemente, como se sonhar fosse a coisa mais simples do mundo. Aquilo me perturbava, mas, ao mesmo tempo, uma voz dentro de mim começava a se perguntar: e se eu tivesse deixado algo importante para trás? — Às vezes, só precisamos de um empurrãozinho — Carla disse, com um sorriso gentil. — Não deixe que o tempo apague suas possibilidades. As palavras dela reverberaram em minha mente. Quando nos despedimos, Carla me abraçou com força, como sempre fazia. — Eu só quero que você seja feliz, Camila. Você merece isso. Acenei, agradecida, mas aquelas frases deixaram um peso no meu peito. A cidade ao nosso redor parecia mais barulhenta quando ela foi embora. O buquê voltou à minha mente, desta vez com uma força maior. Quem poderia tê-lo enviado? E por que escolher flores tão delicadas? Mais importante, quem acreditava nos meus sonhos, se eu mesma já tinha desistido deles? Voltei para casa com passos lentos, sentindo o peso de um dilema que eu nem sabia que carregava. Feline me esperava na porta, como sempre, e a sua presença inabalável trouxe um alívio. Enquanto ele subia no sofá e se aninhava, olhei para o buquê na mesa. — Pelo menos você nunca muda — murmurei, acariciando o seu pelo macio. Suspirei profundamente, sentindo o corpo afundar na poltrona, o peso da incerteza apertando meu peito. Por um instante, o silêncio tomou conta da sala. Então, como se algo me chamasse de volta, ergui o olhar para as flores mais uma vez. Os lírios brancos, delicados e silenciosos, pareciam me observar de volta, exalando seu perfume suave que preenchia o ar. A curiosidade, antes sufocada, agora parecia ter ganhado força. Com um movimento lento, me inclinei para frente, apoiando as mãos nos braços da poltrona para levantar. Feline me observava, imóvel, como se esperasse por algo também. Caminhei até a mesa, sentindo o chão frio sob os pés descalços. O bilhete estava lá, quieto e à espera. Aproximando-me, estendi a mão e peguei o cartão. As palavras estavam ali, claras: "Para você, com todo carinho. De alguém que acredita nos seus sonhos." Quem acreditava nos meus sonhos? E, mais importante, como poderiam saber sobre eles se eu mesma já não sabia mais? Fechei os olhos e tentei afastar o pensamento. Não agora, sussurrei para mim mesma. Ainda não.
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