[Narrado por Hugo "Talibã"]
Saí de casa sem olhar para trás. Não consegui. O cheiro doce dela e o ardor do tapa na minha bochecha formavam uma névoa que me sufocava. Eu não podia dar a ela o prazer de me ver derrotado.
O motor da minha moto, uma XRE 300 preta, rugiu debaixo de mim. A vibração alta e o barulho bruto eram o remédio perfeito para o silêncio mortal que deixei para trás. Acelerei descendo as vielas do morro como se estivesse fugindo de um incêndio. E eu estava. Fugindo daquele beijo, daquele tapa e daquela mulher que tinha me desarmado usando a própria dor.
Cheguei na boca principal. O Talibã, o Dono, estava de volta ao seu lugar.
— Aí, Talibã! Salve!
Os crias me saudaram. Respondi com um aceno seco, com a máscara de controle de volta no lugar. Aqui, eu era a lei, a ordem e o poder. Ninguém ousava me desafiar.
Comecei a rotina: frio e direto. Comecei verificando os postos, passei pelos pontos de venda, conferindo se a vigilância estava esperta. Mandei dois novatos subirem para a parte alta, onde o risco de invasão era maior.
— Olho vivo. Não quero saber de buraco no cerco. Se piscar, leva bala — minha voz saiu grave, sem dar espaço para erro.
Fui para o QG, foquei no computador e nos cadernos de contabilidade. Os números eram meus amigos; concretos, sem emoção. Os lucros da semana estavam batendo o teto.
Enquanto revisava os balanços, a imagem da Maria Liz, os livros e o tapa voltavam. Minha bochecha ainda latejava. A p***a do beijo... O gosto salgado das lágrimas e o calor da fúria dela ainda estavam grudados na minha boca. Fechei os olhos por um segundo. Não podia vacilar, não aqui.
— Aí, Patrão.
Era o PH, o terceiro no comando.
— Problema de estoque. A carga da Colômbia atrasou e o porto está sujo. Precisamos encomendar uma leva urgente de outra rota antes que o estoque acabe.
Me concentrei no problema. Era o que eu precisava.
— Liga para o Pesadelo no Rio, diz que eu quero quinze quilos da pura até amanhã cedo. Paga o dobro se precisar, mas não quero buraco no caixa por falta de produto. Manda o Caveira e o Fera buscarem a grana agora.
O trabalho me deu chão. Me dava um propósito que o desejo pela Maria Liz não dava. Aqui, eu era respeitado e temido; em casa, eu era o carcereiro que levou um tapa na cara.
O sol começou a cair. O frio no estômago não era fome, era a ansiedade de voltar para aquela casa silenciosa. Eu precisava de algo para desligar. Algo descartável.
Passei o rádio para o Zé:
— Manda a Suzana subir agora.
A Suzana era uma mulher que eu pegava de vez em quando. Alívio rápido, sem perguntas. Ela vinha quando eu chamava e fazia o que eu mandava. Não me olhava com ódio, nem me desafiava com o silêncio. Ela era o antídoto temporário para a Maria Liz.
Saí do QG e acelerei para a minha goma particular, onde marquei de encontrar ela. Estacionei a moto e entrei. O cheiro de perfume barato e forte invadiu meu nariz. Suzana já estava pelada me esperando na cama. Ali não tinha luta, nem ódio. Apenas a submissão que meu corpo pedia.
— Vem, gato, fazer amor gostosinho — ela disse, engatinhando na minha direção.
Ela puxou minha bermuda e minha cueca para baixo. Agarrei o cabelo dela com uma força que não era por ela, mas pela frustração que a Maria Liz plantou em mim. Forcei ela a me chupar, e enquanto ela fazia o serviço, tudo o que eu conseguia sentir era o gosto do tapa, a fúria da Liz e a dor dela.
Fechei os olhos e, por um segundo, forcei a minha mente a fingir que era a Liz ali. Imaginei a Liz me olhando daquele jeito, entregue. Agarrei os cabelos da Suzana com mais força e ditei o ritmo, com raiva. A mulher gemia de t***o, achando que era com ela.
Quando terminamos, ela se vestiu rápido, pegou o dinheiro na mesinha sem falar nada e saiu. E eu fiquei ali. Mesmo tendo gozado, não teve alívio. Só um vazio ainda maior.