Alguém me escuta enquanto eu sufoco sozinho na minha tristeza? Sou tragado por oceanos de noites infinitas e sou uma reles sombra do homem que fui. Todos os humanos te escutam e idolatram como um anjo que caiu porque Deus era malvado, Nikolas. Será que alguém escutaria a mim também?
Dante se perguntou isso com rancor enquanto escutava a voz de Nikolas ecoar nas rádios em músicas de rock, com um amargo sorriso nos lábios. Como esquecer o maldito se tinha a voz e o rosto dele estampados em vários lugares?
Detroit. Era lá que ele estava. E, apesar de Dante não saber por quê… ele estava o seguindo.
Dante, um belo espécime de cabelo preto longo até o meio das costas, olhos azuis, rosto elegante e imberbe. Trajado numa calça jeans, jaqueta de couro, camisa preta e coturnos. Pele pálida, estrutura óssea poderosa, músculos bonitos e mais evidentes que os de Raven. E intimidava muita gente com seus 1,95 de altura.
O vampiro estava sentado numa cafeteria, observando a televisão e a nova coletiva de imprensa da banda de Nikolas. Foi em rede nacional onde o seu maldito criador apresentou a nova vocalista do Sangria, vulgo namorada, para o mundo.
— Devo matar sua namoradinha, Niko? Isso para ficarmos quites de quando matou minha esposa e filha? As pessoas cujos rostos, depois dessas ondas infinitas de noites chamadas anos, nem lembro mais? Só me recordo da sensação de quando você partiu meu coração ao matá-las. — Soltou Dante a ninguém em especial e para a televisão, onde passava o rosto de Niko repleto de maquiagem para disfarçar a luminescência do vampiro e a antinaturalidade da pele que parece esculpida de ossos e gesso.
Uma voz cortou Dante de sua cólera sinistra.
— Senhor, vai pedir alguma coisa?
Dante analisou a bonita garçonete que o servia.
Sim, seu maldito sangue, abusadora de crianças.
— Isso depende… sairia comigo depois do seu expediente? — perguntou sedutor.
A mulher corou quando um homem bonito daqueles a achou bonita.
Ela apenas assentiu com a cabeça.
— Saio às 22:00, senhor.
— Vou esperar. Quero um café e um pedaço de torta de frutas vermelhas por enquanto.
(...)
Dante a matou sem misericórdia. A mulher que, pelo que leu na mente dela, abandonou os próprios filhos sozinhos na sarjeta e fugiu com um macho.
Seu rancor contra Nikolas, se fazendo de bom moço e vampiro camarada da humanidade, o estressava tanto e o tornava mais monstruoso.
Dante pisou no pescoço da moça morta. Ela estava usando um vestido laranja, avental, um crachá com o nome Denise e agora estava com olhos bonitos, opacos e sem vida. Acabou com o pisão, esmagando a traqueia dela com profundo ódio e depois pegando o cadáver e o jogando no latão de lixo junto aos restos de comida, chorume, ratos e baratas. Sabia que era errado chutar cachorro morto, mas estava simplesmente furioso.
Saiu do escuro do beco para as luzes dos postes, deixando-o visível além de uma sombra, mas expondo o eco do que foi um homem.
— Estou dizendo, Mia. A nova vocalista do Sangria estuda na minha faculdade. A nova namorada do Raven.
— É mesmo? — falou a outra garota, empolgadíssima.
Dante, limpando a boca suja de sangue, observou as duas meninas. O cadáver da garçonete apodrecendo dentro de uma caçamba de lixo.
— Vocês disseram que a vocalista do Sangria estuda na faculdade de vocês… onde vocês estudam? — exigiu ele, parando na frente delas, sinistro.
— Ah, na Universidade pública de Detroit. A Dalilah Blackwood é do meu ano. Ela é caloura lá. Está retomando o curso de literatura que trancou na cidade dela. — contou a garota, se gabando.
A outra menina, de braços cruzados com ela, estremecia de medo dele.
Mia, a jovem imprudente, observou o bonito e alto homem na frente dela.
— Ei, me dá seu telefone… — pediu a garota.
Dante analisou a jovem, incrédulo pela audácia.
— Vá estudar, pirralha. Sou velho demais para você, garota.
Ele caminhou em frente sem olhar para trás.
(...)
Nikolas analisou Dalilah ao lado dele, se tremendo dentro de uma Ferrari preta quando chegaram de novo aos portões da mansão, que se abriram para recebê-los.
— Não foi tão r**m assim. Foi? — sondou Niko, se divertindo porque ela era fofa e tímida.
Dalilah o analisou frustrada.
— Eles caíram em cima de mim quando você disse que sou sua namorada. Nem se importaram com a nova vocalista da banda… só ouviram a parte do “namorada”…
Niko sorriu e beijou o rosto dela.
— Esse é o preço da fama. — Acalentou Niko.
Ele estava beijando o rosto dela e sorrindo quando estacionou o carro. Até que viu o homem parado à beira da piscina, em meio à escuridão, já que as luzes da casa e da piscina estavam apagadas. Niko desligou os faróis do carro em alerta.
Dalilah o viu também. O belo homem que parecia uma aparição fantasmagórica.
— Fica no carro. — gritou Niko para ela, antes que ela abrisse a porta.
Num piscar de olhos, Niko já estava perto de Dante, que o localizou graças à ligação que um vampiro sente com seu criador e que antes ele ignorava. Dante analisou a jovem namorada de seu criador no carro com um sorriso m*****o.
— Eu devo matar sua namorada como fez com meu Liam, depois com minha esposa e filha… Isso você não coloca nas suas músicas, não é? — revidou Dante rancoroso. — Maldito, se quer se redimir… então conte tudo de monstruoso que fez.
— Dante… isso foi há muito…
Dante analisou Nikolas, tocou o ombro dele, querendo tirá-lo da frente, e sorriu mostrando as presas.
— Para você foi. — respondeu Dante, amargo e incapaz de admitir que nem lembrava mais os rostos delas. — Maldito. Eu vou matar a v***a que você apresentou para o mundo e aí nós ficamos quites.
— Não me meteria com ela se fosse você… — avisou Niko.
— É? E por qual razão? O quê? Vai me matar? Detalhe: eu já tô morto, i****a. E a única coisa que pode matar nós dois te mataria também se ficasse exposto a ela para se certificar de que morri mesmo. — revidou Dante, sorrindo irônico.
— Querido, não se meta com ela. — implorou Niko carinhoso. Dante estremeceu, agitado.
— Estou mais forte que você. Você se tornou patético, Nikolas. Você não mata mais…
— Bruxa. — avisou Nikolas baixinho.
— O quê? — respondeu Dante, achando ter escutado errado.
— Ela é uma bruxa. — repetiu Nikolas no ouvido de Dante, como um amante. Dante, mesmo contra toda possibilidade, sentiu calor quando seus olhos azuis encontraram os escuros de Niko. — Você vai se machucar se se meter com ela. Ela é protegida, não só por mim. Se tiver a intenção de machucá-la, antes que se aproxime dela, não eu, mas os ancestrais dela punem você. Está forte fisicamente, mas sua mente ainda é fraca e não tem força contra um ataque psíquico, e elas te retaliariam. Um vampiro enlouquecido por bruxas é terrível. Os outros iriam te caçar e matar. Como queriam fazer comigo quando me revelei ao mundo, mas Diana, por algum senso de maternidade, me protegeu dizendo que nenhum mortal acredita que sou vampiro, antes de hibernar de novo.
Dante analisou Nikolas, incrédulo.
— Mentiroso. Está blefando para eu não matá-la agora que estou mais forte que você…
— Não faça nada de perigoso se envolvendo com bruxas. Eu não já te ensinei isso? — retrucou Niko ao primeiro vampiro que criou. — Ela parece comum porque não sabe o que é… mas se despertar, ela ganha de você no duelo psíquico. Não compre uma briga que não pode ganhar. É claro que, se você atacá-la, por mais que eu te ame, não vou deixar encostar num fio de cabelo dela. — afirmou Niko.
Dante recuou, começando a acreditar nele, porque viu que a aura ao redor da jovem era um constante violeta e não variava entre azul, verde, vermelho ou amarelo como a dos humanos. Analisou Raven.
— Por que me avisou? Está se gabando dela ser uma bruxa e te esquentar? Quer só que eu fique longe dela? Por que você não deixou que eu me ferrasse sozinho? — insistiu Dante.
Niko negou com a cabeça, tocando Dante no rosto e acariciando o rosto lindo dele.
— Não quero que se machuque mais por minha causa. Sei que nunca soube demonstrar da forma certa, mas eu te amo tão profundamente, Dante.
Dante ficou estático, lembrando-se dos velhos tempos, mas tirou a mão de Nikolas do seu rosto, enojado.
— Você tem um jeito estranho de demonstrar isso. Me destruindo e reconstruindo ao seu bel-prazer. Tenho pena da garota. Ela não sabe onde se enfiou ao chamar a sua atenção.