Dalilah ficou sem palavras e bem emotiva. Era como aqueles filmes antigos em que os maridos davam às mulheres o poder de chefiar a casa. Nunca achou que Nikolas fosse tão clássico. Riu consigo mesma com esse pensamento.
— Enfim, Dalilah, tenho que voltar ao meu trabalho. Logo o sol se põe e a banda está aqui de novo. Eu não gosto de vê-los bagunçando o que eu arrumei. Acho que é compreensível, não é? — A mulher disse risonha e gentil.
Dalilah assentiu, e a mulher entrou na casa de novo.
(...)
Dalilah estava com o caderno e um livro do Drácula aberto na mesinha de centro da sala, que era de vidro com desenhos psicodélicos, e com um lápis preto na mão, escrevendo as respostas das perguntas cujas soluções lia e elaborava com suas palavras na cabeça.
Sentiu a presença opressora na sala assim que o sol deu seu último adeus, enquanto fazia suas anotações. Logo se tremeu num susto ao ver Raven sentado no sofá.
A menina, se não estivesse sentada, teria caído para trás. Como ele surgiu do nada?
— Diabos, querido. Não aparece assim, não. Quase morri do coração. — Reclamou Dalilah.
Niko riu disso. Ele não tinha muitas coisas que lhe causavam humor, mas a atitude dela foi muito engraçada.
— Desculpa, meu bem. Em que está trabalhando, linda? — sondou ele, como se não tivesse brotado de lugar nenhum e quase matado Dalilah do coração.
— Um relatório sobre o livro Drácula, querido. — Respondeu ela, fechando o caderno.
— Teve quais aulas hoje, meu amor? — sondou ele, todo curioso.
Dalilah achou graça da curiosidade fofa dele.
— Hm… deixa eu ver. Três seguidas de teoria literária, duas de literatura e três de gramática.
— Você gostou?
— Não, mas não queria ser a segunda voz burra da sua banda. — brincou ela.
— Alguém deu em cima de você? — A voz dele ganhou um tom sombrio.
A jovem estremeceu. Resolveu não mentir.
— Hm… bem, um garoto apostou com os amigos em quanto tempo a caloura caipira, vislumbrada com a cidade grande, cederia a ele… então eu disse, na primeira tentativa dele, que tinha um namorado perigoso que mata pessoas. Só deixei a parte do sangue de fora. — brincou Dalilah. — Eu já conheço bem o tipo.
— Fez bem. Você estuda. Deve fazer amigos. Mas, se algum deles tentar se aproximar como se você fosse um pedaço de carne, diga que tem um namorado. Se você quiser, algumas vezes abrimos a relação, mas tem que ser de comum acordo entre nós. E você sempre volta para mim.
Raven deslizou do sofá para o chão, sentando-se com ela, e acariciou o rosto magnânimo dela.
— Ser bonito é r**m, não é, minha linda flor? — disse Nikolas de repente, lendo o fardo dela. Ele colocou uma mecha do cabelo longo dela atrás da orelha da menina. — Pode não acreditar… mas eu também era muito lindo quando era humano.
Dalilah perguntou a si mesma, com essa afirmação nostálgica dele, se ele não tinha espelho em casa. Ele era lindíssimo.
— Eu acredito. — respondeu ela, entrando na atuação dele de ser um vampiro, mas sem elogiá-lo. Se ele percebesse o quão lindo era e buscasse alguém melhor do que ela?
— Essa beleza… foi isso que fez aquela v***a se interessar por mim e me amaldiçoar para conservar minha aparência digna de quadros. Era o que ela dizia quando me seduziu: que minha beleza valia a pena ser pintada e eternizada. Aquela Diana, ao contrário da nossa querida guitarrista, era uma exímia pintora. Você, depois de Caleb, deve odiar a atenção que eles te dão, sem nunca tentar te conhecer de verdade além desse rosto e dessa pele. Essa alma linda que você carrega. Não minto que foi sua aparência que me arrebatou, mas foi por um motivo diferente do que se pode pensar, Dalilah. Te quis porque você me lembra muito alguém do meu passado. Mas, no instante em que percebi suas nuances daquela pessoa e escutei a angústia na sua voz cantando Luar Sangrento, eu gostei muito mais de você do que já gostei dela.
Dalilah ofegou, inquieta. Pegou a mão gelada de Nikolas e a beijou com idolatria, aquecendo-a.
Nikolas tremeu inteiro pelo carinho da sua menina. Observou-a tirar as pernas debaixo da mesinha, engatinhar e sentar no colo dele, passando as pernas ao redor da cintura dele, os braços ao redor do pescoço dele e o beijando com selinhos fofos. Ele riu. Começou leve, depois apenas beijos quentes no pescoço, a língua dela deslizando por sua pele, e Nikolas sentiu os dedos dela em seus m*****s. O gelo da morte cedeu ao calor dos vivos.
— Nikolas…
— Hm… — respondeu, rendido ao abraço cheio de calor dela.
— A banda deve estar chegando, não é? — Ela tirou a mão dos m*****s dele, parecendo lamentar.
Niko riu ao notar que ela era tarada por p****s, fosse de mulher ou de homem. Manteve-se no chão, com a moça no colo. Acariciou o cabelo dela e o puxou, roçando a boca na dela.
— Estamos só abraçados. Não estamos fazendo nada demais, querida. — constatou Raven. Ele notou a camisa preta de caveira da moça. — Essa é a minha camisa?
Dalilah começou a se justificar:
— Não queria ir de vestido hoje. Só tinha uma calça jeans. Aí roubei uma camisa sua. Espero que não se impor…
— Não me importo. Pode pegar quantas quiser. — falou gentil, com a boca contra a dela. — Você fica uma delícia usando minha camisa.
Dalilah repousou o rosto no peito dele, com as bochechas pegando fogo.
(...)
Religiosamente, depois de jantarem pizza e refrigerante, eles ensaiavam as doze músicas do álbum Sangue dos Inocentes com uma devoção quase doentia.
1 – Eterna Tormenta
2 – Luar Sangrento
3 – Sangue dos Vivos
4 – O d***o de Cada Dia
5 – Ruínas
6 – Vampiro
7 – O Sangue é Vida
8 – Morto entre os Vivos
9 – Noite Eterna da Alma
10 – Deus da Morte
11 – Meu Nome é Nostalgia
12 – Ecos do Tempo
Duas vezes cada música. Como tinham doze músicas, era um total de 24 numa só noite. Mas, naquela noite, foram apenas duas músicas e quatro vezes, quando Niko fez um movimento de fechar a mão, como um maestro encerrando o ensaio.
— Bem, acabamos por aqui. — determinou Niko, algo que todo mundo estranhou. — Tenho algo a discutir com vocês. Vai ser rápido.
Dalilah estava bem menos cansada do que ficou ontem quando terminaram. Então, Nikolas se sentou no sofá vermelho da elegante sala de estar do estúdio, que ficava a cinco metros da mansão principal, puxou-a para o colo dele e fez carinho no cabelo dela na frente de todo mundo.
Dalilah sentiu o olhar fuzilante de Ian neles. Ela se aconchegou mais em Nikolas, passando o braço pelo pescoço dele para reivindicá-lo na frente do rapaz.
Ian desviou o rosto.
Niko começou a falar, abraçando Dalilah mais forte ao notar o quão carinhosa ela era:
— Dalilah retomou os estudos dela no curso de literatura. Estou pensando em reduzirmos o número de músicas ensaiadas para duas por noite, como hoje. Ela também vai fazer aula de dança, canto, instrumento e outras coisas para melhorar a banda, como todos vocês fizeram. Não podemos continuar a mesma rotina de antes, porque Dalilah tem que estudar e tem que dormir direito.