Sebastian
As palavras dela ainda estavam cravadas em mim como uma cicatriz em carne viva:
“Você me arruinou, Sebastian. E mesmo assim, meu corpo ainda quer o seu.”
Ela me beijava com fúria. Uma fome amarga, nascida do ódio, da mágoa, da frustração. Seus lábios colavam nos meus como lâminas. Seu toque era uma punição que eu aceitava de bom grado.
Ane não era carinho. Era tempestade.
Seus dedos puxavam meu cabelo, me mordia, me arranhava. O corpo dela batia contra o meu com força e desespero. Uma dança de raiva e desejo. E eu deixava. Porque merecia. Porque queria.
Arrastei-a de volta para o quarto, nossos corpos colidindo como faíscas prestes a incendiar tudo. Ela me empurrava e depois me puxava. Era uma guerra sem vencedores. E talvez fosse esse o problema: nenhum de nós queria vencer. Só destruir.
Ane caiu sobre a cama e me puxou junto. Nossos corpos quentes, respirações descompassadas. Olhei nos olhos dela — e vi o caos.
— Ane… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. Um sussurro entre o desejo e o medo de quebrá-la ainda mais.
Ela mordeu o lábio. Respirou fundo. E então sussurrou:
— É a minha primeira vez.
O mundo parou.
Um silêncio pesado caiu entre nós. Do tipo que machuca. Que cala o corpo inteiro.
Ela estava ali, nua, entregue, com os olhos em brasa… e era virgem.
Senti algo dentro de mim se romper. Porque por um instante, imaginei a primeira vez dela sendo tudo o que merecia: amor, calma, carinho. E não... isso.
Não eu.
— d***a… — fechei os olhos, o peso do arrependimento batendo no estômago como um soco. Mas ela me puxou de volta.
— Não ouse sentir pena de mim — sussurrou. — Só... me toca. Faz valer a dor de tudo isso.
Meu coração gritava. Mas meu corpo já não respondia à lógica. E ainda assim... hesitei.
Meus dedos deslizaram pela sua pele com reverência. Como se, em vez de tocá-la, eu estivesse pedindo perdão em silêncio. Minha boca percorreu seu pescoço, sua clavícula, seu ombro. Ela tremia, arfava, gemia baixinho. Me enlouquecia.
— Você é minha, Ane — murmurei contra sua pele. — Não importa o que aconteça. Não importa quem entre no caminho.
Ela se arqueou sob mim, olhos fechados, os lábios entreabertos.
— Então me faz sua de uma vez — disse, ofegante.
Mas naquele instante, quando nossas peles estavam prestes a se fundir, Ane abriu os olhos.
E algo dentro dela quebrou.
Ela me empurrou com força. Não com medo. Mas com a mesma raiva que nos consumia desde o início.
— Não. — Sua voz veio baixa, mas firme. — Não assim.
Me afastei, desnorteado.
— Ane…
— Eu não vou deixar que você seja mais um erro que eu cometi por raiva. — Ela se sentou, puxando o lençol sobre o corpo. O peito subia e descia. Os olhos, cheios d’água. — Eu ainda quero você. Maldito seja. Mas não assim. Não desse jeito.
Meus punhos se cerraram. A pulsação explodia nas têmporas. Meu corpo gritava por ela.
— Então por que veio até aqui?
— Porque eu precisava lembrar que ainda posso decidir. — Olhou para mim como se estivesse se despedindo de algo que amava e odiava ao mesmo tempo. — Que ainda posso dizer não, mesmo quando tudo dentro de mim diz sim.
Levantei da cama, nu, confuso, furioso — e completamente fascinado.
Ela tinha me deixado à beira do abismo.
E recuado no último segundo.
Deixando em mim o gosto do que quase foi.
E o inferno de saber que eu ainda não a tinha... mas queria como nunca.
Ane
O silêncio no quarto era tão denso que quase se podia tocar.
Sebastian continuava parado, a respiração pesada, os olhos fixos em mim como se tentasse entender o que diabos acabara de acontecer. O ar entre nós ainda estava carregado — de desejo, de raiva, de tudo que quase foi.
Mas não seria.
Sem dizer uma única palavra, virei as costas.
Caminhei até o closet com passos firmes, mesmo sentindo os joelhos ameaçarem falhar a cada passo. Ouvi quando ele deu um passo atrás de mim, como se fosse falar algo, como se fosse me impedir. Mas não falei. Não parei.
Entrei no closet e comecei a me vestir com a mesma frieza que ele usava quando fingia que não sentia nada.
Vesti a calcinha, depois a calça jeans, uma camiseta larga por cima. Prendi o cabelo num coque rápido. Tudo isso enquanto sentia os olhos dele queimando minhas costas.
Ele não dizia nada. Só me observava. Talvez confuso. Talvez frustrado. Talvez — e isso me deu um gosto amargo — finalmente percebendo que estava perdendo o controle.
Quando saí do closet, já completamente vestida, caminhei direto até o banheiro.
— Ane... — ele começou, a voz baixa, carregada de tensão.
Mas eu o cortei com um único olhar. Um olhar afiado como faca, cheio de tudo que eu não conseguia dizer.
Sem dizer uma palavra, fechei a porta do banheiro com um estalo seco. E tranquei.
Do outro lado, silêncio.
Eu encostei na madeira fria e deixei a cabeça cair para trás. A respiração saía em ar quente, irregular. O coração ainda batia como se estivesse fugindo de uma guerra.
Porque era isso que Sebastian era. Um campo minado.
E eu estava cansada de andar descalça sobre ele.
Demorei mais tempo do que devia no banheiro. Não chorei. Não gritei. Apenas fiquei ali, de pé, encarando meu reflexo no espelho.
Eu não era mais a mesma garota que chegou naquela casa pela primeira vez, com medo, confusa, tentando entender o próprio lugar naquela trama de máfia, contratos e mentiras.
Eu era Ane Moretti.
E estava cansada de ser tratada como moeda de troca.
Quando saí do banheiro, Sebastian não estava mais no quarto. Talvez estivesse tentando processar a bagunça que ele mesmo causou. Talvez estivesse quebrando alguma parede, como fazia sempre que algo fugia do controle. Eu não me importava. Não mais.
Peguei meu celular na mesinha e respirei fundo.
No fundo da galeria de mensagens, o nome que me incomodava e, ao mesmo tempo, era minha única chance.
Toquei na conversa. A mensagem dele ainda estava lá:
[Leonardo]: Ane, não pensei que me procuraria tão rápido. Mas estou disposto a te ajudar.
Digitei com os dedos firmes, o coração acelerado:
— Precisamos conversar. Hoje.
A resposta veio quase instantânea:
— Manda o endereço. Estou a caminho.
Guardei o celular, peguei minha bolsa e saí do quarto sem olhar para trás.
Vittoria estava no corredor, como se soubesse que eu sairia.
— Vai atrás dele? — ela perguntou, olhando nos meus olhos. Havia preocupação ali. Mas também uma ponta de admiração.
Assenti.
— Não tenho outra escolha. Ou enfrento isso de cabeça erguida… ou passo a vida sendo manipulada.
Ela respirou fundo, depois tirou algo do bolso do moletom: um cartão com um número escrito à mão.
— Isso é dele. Particular. Se precisar fugir… se precisar pedir ajuda sem que ninguém mais saiba, usa isso.
Peguei o cartão sem hesitar. Vittoria me deu um meio sorriso.
— Cuidado com o Leo. Ele é o único que consegue jogar com o Sebastian de igual pra igual… mas o preço, Ane, às vezes vem alto.
— Eu aprendi que tudo nessa família vem com preço.
Desci as escadas sem pensar duas vezes. Um dos seguranças abriu a porta antes que eu pedisse. O carro estava lá, à minha espera. Entrei, sentei no banco de trás e mandei a localização para Leonardo.
Era isso.
Nada de lágrimas. Nada de hesitação.
***
O carro deslizou pelas ruas de Roma, mas dentro de mim, o caos rugia. Cada lembrança da manhã queimava — o toque de Sebastian, a raiva, a entrega quase completa. E minha recusa final.
Porque agora não era mais sobre sentimento. Era sobre controle.
Leonardo já me esperava quando o carro parou. Ele estava encostado num Maserati preto, camisa social escura dobrada nos antebraços, óculos escuros e aquele ar de quem comanda qualquer ambiente sem esforço.
Assim que desci, ele tirou os óculos e me encarou com um meio sorriso.
— Bonita até quando está decidida a destruir alguém. — disse, como se me conhecesse há anos.
— Eu vim por um motivo, Leonardo.
— Eu sei. — Ele fez um gesto com a cabeça, me guiando até uma cafeteria discreta, longe do centro. — E já imaginei qual seja.
Sentamos num canto reservado, quase vazio. A atendente nem se aproximou. Ele devia ter pago por privacidade.
— Então? — ele perguntou, entrelaçando os dedos sobre a mesa. — Finalmente pronta pra jogar?
— Eu quero saber se o que você disse é real. Que existe uma forma de me casar com um Mancini… sem perder minha liberdade.
Leonardo sorriu, mas não foi um sorriso gentil. Foi o sorriso de quem sabe exatamente o peso das próprias palavras.
— Realíssimo. Eu sou um Mancini. Meu pai me reconheceu legalmente. Sebastian é o capo… mas eu sou parte do nome, e isso é tudo que o contrato exige.
— E o resto? Você falou de um casamento aberto…
— Ninguém precisa saber que não estamos vivendo juntos. — Ele deu de ombros. — Casamos no papel, aparecemos juntos nos eventos certos, e fora isso, você faz sua vida. Em outro país, se quiser.
— E Sebastian?
— Ele vai surtar. — Leonardo riu baixo. — Mas não pode desfazer um casamento válido com outro Mancini. E isso, minha cara… é o que vai arrancar o controle das mãos dele.
Respirei fundo.
Era loucura. Um plano arriscado.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que tinha uma escolha nas mãos.
— E o que você ganha com isso? — perguntei, olhando diretamente nos olhos dele.
— Um trunfo. Um nome ao meu lado que causa instabilidade na dinastia do meu irmão. — Ele tomou um gole do café que nem vi chegar. — E uma companhia interessante, claro.
Me inclinei para frente.
— E se eu aceitar… não vai haver volta, Leonardo.
Ele também se inclinou, mais próximo. O olhar dele queimava com intensidade e cálculo.
— Eu não estou oferecendo flores, Ane. Estou oferecendo guerra.
Ficamos nos encarando por um instante. A garçonete chegou com minha xícara. Eu nem lembrava de ter pedido.
— Me dá dois dias. — murmurei, firme. — Preciso pensar.
Leonardo assentiu, se recostando na cadeira.
— Dois dias, então. Mas cuidado, Ane… o caminho que você tá escolhendo não tem volta.
Saí da cafeteria com o coração acelerado.
Não era mais sobre se vingar. Era sobre sobreviver em meio aos tubarões. E agora, eu tinha a chance de me tornar um deles.