Capítulo 19

1757 Words
Sebastian As horas passavam, mas ela não saía da minha cabeça. Ane. O inferno e o paraíso num só corpo. A cada maldito amanhecer, eu pensava nela — no jeito que mordia os lábios quando estava irritada, no olhar que me desafiava como se quisesse me destruir. Pensava no corpo que já tinha sido meu… e agora parecia cada vez mais distante. Eu estava no escritório, diante de um contrato qualquer que não fazia mais sentido, quando o celular vibrou. [Lara]: “Estou com saudades. Vestindo apenas um espartilho preso na cinta-liga… e aquele salto vermelho que você adora.” Fechei os olhos por um segundo. O coração acelerou. Não por Lara. Mas pela imagem dela… Ane. A pele morena coberta de renda. O cabelo solto. A expressão provocativa. E aquele olhar… sempre desafiador. Era ela. Sempre foi ela. E esse era o meu maldito problema. Levantei, bufando. Se não fosse até Lara, ia enlouquecer. Não porque eu a queria. Mas porque precisava esquecer Ane. Ou fingir que era possível. Fui até a cobertura. Lara me esperava. Do jeito prometido. Aquele tipo de mulher que sabia se vender com o corpo — e eu estava disposto a comprar uma noite de silêncio. Entramos no quarto como dois corpos em combustão. Beijos, toque, gemidos abafados. Mas mesmo com ela ali… …só enxergava a Ane. Só ouvia o nome dela na minha cabeça. Só sentia o vazio. A explosão veio, mas não da forma que eu esperava. A porta rangeu. E ali estava ela. Ane. Parada, imóvel, os olhos arregalados e a respiração falha. Ela não gritou. Não falou nada. Só… saiu. — Ane! Espera! — me levantei, ainda ofegante, ignorando tudo — roupas no chão, Lara na cama, orgulho ferido. Corri pela cobertura, pelado, cego. Quando cheguei ao corredor, a porta do elevador se fechava diante dos meus olhos, levando com ela a única coisa que ainda fazia sentido na minha vida. Voltei furioso. Peguei o celular e liguei direto para o segurança da cobertura. — Quem autorizou a entrada da Ane? — Senhor, ela apareceu de repente… tentamos avisar— — Estão todos demitidos. Agora. — E desliguei antes que tivessem a chance de tentar justificar. Lara ainda estava sentada na cama, rindo como se tudo fosse uma piada barata. — Some daqui — rosnei. Ela começou a se vestir, devagar, provocando. Mas bastou um olhar meu, gélido e c***l, para fazê-la calar. Quando finalmente se foi, tomei um banho rápido, me troquei e peguei minhas chaves e dirigi como um maldito louco até a mansão. Assim que entrei, Vittoria surgiu no corredor. — Sebastian, espera! A Ane voltou e ela tava… — Não agora, Vittoria. — Passei direto, sem olhar pra trás. Ela tentou segurar meu braço, mas me desvencilhei. Subi as escadas até o quarto — nosso quarto. O som do chuveiro já preenchia o ambiente quando entrei. O celular dela vibrava sobre a cama. A tela se acendeu. [Leonardo]: “Ane, não pensei que me procuraria tão rápido. Mas estou disposto a te ajudar.” Leonardo? A p***a do meu irmão? Minha respiração travou por um segundo. O sangue ferveu. Antes que eu pudesse pensar, a porta do banheiro se abriu. Ane saiu com o corpo ainda molhado, os cabelos grudados nos ombros, envolta apenas numa toalha branca. Ela me viu. Parou. Mas não recuou. — O que você tá fazendo aqui? — ela perguntou, firme, a voz baixa, o olhar afiado como uma faca. Mesmo com a toalha agarrada ao corpo, quase escorregando pela coxa, Ane não recuou. Não cedeu. Ela me enfrentava nua — no corpo e na alma. Levantei o celular, ainda com a tela acesa. O nome de Leonardo iluminando tudo como uma provocação. — Quem é ele? — minha voz era um sussurro sombrio. — Desde quando você troca mensagens com o meu irmão? Ela cruzou os braços devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. A toalha cedeu mais um centímetro. E mesmo que o corpo dela tremesse, o olhar não vacilava. — Desde que percebi que você nunca vai deixar de me trair. — respondeu com uma frieza que congelou meu sangue e, ao mesmo tempo, acendeu algo primitivo dentro de mim. Dei um passo à frente. Ela não recuou. — Ele é perigoso, Ane. Você não sabe com o que tá se metendo. — E você não é? — retrucou, sem pestanejar. — Você fode quem quiser, me transforma numa moeda de troca, me prende num contrato sujo... e ainda tem coragem de pedir satisfações? — Eu me arrependo. — cuspi, entre dentes cerrados. — Mas isso que você tá fazendo… é brincar com fogo. — E o que você acha que tem feito desde o início? Ela passou por mim, o perfume dela me atingindo como uma lembrança venenosa. O mesmo cheiro da noite em que a tive pela primeira vez. Do corpo dela, arqueando sob o meu. Da respiração presa entre gemidos e lágrimas. Fui atrás. — Vai mesmo se envolver com o Leonardo? — minha voz saiu como um rosnado, rouca, carregada de raiva e desejo. — Acha que ele vai te proteger? Ela parou. Girou lentamente sobre os calcanhares. Os olhos escurecidos, as pupilas dilatadas, o queixo erguido. — Ele me deu uma coisa que você nunca deu, Sebastian. — O tom dela era um tiro. — Uma escolha. As palavras caíram entre nós como uma sentença. Ela respirou fundo, como se jogasse a última pá de terra sobre tudo que um dia existiu. — Eu vou voltar pra casa do meu pai. Ficar aqui não faz mais sentido. Pelo menos até tudo ser resolvido. — Você não pode — respondi, frio como gelo. — Você pertence a mim. Ela riu. Um riso amargo. Dolorido. — Eu pertenço a um Mancini, lembra? Mas o contrato nunca disse qual. Talvez esteja na hora de decidir por mim mesma. Dei outro passo. O sangue martelava nas têmporas. — Isso é loucura. — É liberdade. — Ela virou de costas e caminhou até o closet, o som dos pés descalços ecoando como um desafio. — Vou pedir uma reunião com meu avô. E com o seu pai. Isso precisa acabar. — Você não faz ideia do que está fazendo — disse entre dentes, o tom mais sombrio agora. — Leonardo não é um capo. Ele não tem poder. Ele não vai conseguir te proteger de mim… ou do mundo que te rodeia. Ela entrou no closet. Fui atrás, sem hesitar. E quando estendi o braço para segurá-la pelo pulso, a toalha escorregou. Silenciosa. Inofensiva. Ela ficou ali. Nua. Tensa. Irritada. Magnífica. O corpo dela tremia. Não de medo. De raiva. De excitação. De tudo o que ela se recusava a sentir, mas que explodia mesmo assim entre nós como um grito mudo. Dei um passo. Outro. Agora tão perto que sentia o calor do corpo dela, o perfume, o coração acelerado. Mas não toquei. Queria que ela sentisse. Que queimasse. — Você quer respostas? — perguntei, a voz baixa, rouca, consumida pelo desejo que ardia como veneno sob a pele. — Você quer saber o que eu sinto? Ela não respondeu. Só respirava rápido. Os s***s subindo e descendo. O corpo pronto para fugir… ou para render-se. — Eu te quero. — confessei. — De um jeito doentio, Ane. De um jeito que me tira o juízo. E talvez seja isso que você odeia em mim… porque sabe que sente igual. Ela tremeu. Não negou. Me inclinei até o rosto dela. Quase tocando. Quase. — Acha que me envolver com Lara foi traição? — sussurrei contra sua boca. — Foi desespero. Porque você me destrói e me vicia. Porque mesmo quando eu te afasto... te quero mais. Ela fechou os olhos. Um segundo só. Foi o suficiente para me deixar mais perto ainda. — Você é minha guerra. — murmurei. — Mas também é minha ruína. — E ainda assim… — ela sussurrou, com os olhos cravados nos meus — …você nunca me escolheu de verdade. A respiração dela batia na minha pele. O corpo nu, à mercê. Mas ela ainda era a arma apontada pra mim. E eu… já estava sangrando por dentro. Ane era o caos. E eu? O homem que merecia ser engolido por ele. Ela ainda estava ali, nua, à minha frente. Tremendo. Não de vergonha — Ane nunca foi disso. Mas de raiva. De frustração. De tudo que acumulava desde o dia em que a amarrei a mim com um contrato. E, mesmo assim, não recuava. Eu ia dizer alguma coisa, talvez tentar explicar o inexplicável. Mas não tive tempo. Ane se moveu. Rápido. Me beijou. Sem aviso. Sem hesitação. Um beijo quente, brutal, cortante. Nada suave. Nada doce. Um beijo de fúria. De revanche. De ódio. As mãos dela agarraram meus cabelos com força. Os lábios pressionando os meus como se quisessem me ferir. E talvez quisessem. Talvez quisessem me punir por tudo. Pela cama de outra mulher. Pela mentira. Pelo contrato. Pelo controle. Ela me beijava como quem queria destruir. E eu? Eu deixei. Porque merecia. Porque precisava daquilo tanto quanto precisava de ar. Minhas mãos foram parar em sua cintura, e então desceram pelas costas, pela curva dos quadris. Ela estava quente, viva, tremendo contra mim. E, ao mesmo tempo, inatingível. — Ane... — tentei dizer entre o beijo, mas ela me empurrou contra a parede do closet com um estalo seco. — Cala a boca. — sussurrou contra a minha boca. — Você queria entender o que eu sinto? Seus olhos estavam selvagens. A respiração descompassada. O corpo ainda colado ao meu. — É isso. Raiva. Desejo. Nojo. Vício. Você me arruinou, Sebastian. E mesmo assim… — ela me encarou como se odiasse o que vinha a seguir — …meu corpo ainda quer o seu. Eu a agarrei pela cintura com força, os dedos marcando sua pele. — Eu te quero inteira. Até quebrada. Até sangrando por dentro. — sussurrei, colando nossos corpos. — Eu te quero até o inferno. E, se for lá que você quiser me levar, Ane, eu vou sorrindo. Ela prendeu o ar. Por um segundo, vacilou. E foi ali, ali, que a tensão explodiu de vez. Ane me puxou de novo pela nuca, e nossos corpos colidiram como faísca e gasolina. Era cru. Sujo. Doloroso. E ainda assim, o momento mais honesto entre nós. Ela me beijava como se pudesse me m***r. E eu a beijava como se morrer por ela fosse a única escolha possível.
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