Capítulo 18

1418 Words
Ane Estava prestes a sair do café quando o celular vibrou em cima da mesa. Um número desconhecido. Uma única mensagem. [Desconhecido]: Precisamos conversar. Urgente. Sobre o casamento. Logo abaixo, um endereço. Não havia assinatura, mas meu coração soube de imediato quem tinha enviado. Sebastian. Guardei o envelope com os documentos do meu avô, respirei fundo e me aproximei dos seguranças que me vigiavam do outro lado da rua. — Esse endereço — mostrei a tela. — A quem pertence? Os dois se entreolharam, trocando um olhar carregado de cautela. — É... uma cobertura do senhor Sebastian. Fica no alto de um edifício bem reservado. Ele quase não vai lá. — Ele me mandou isso. Disse que é urgente. — Suspirei. — Me levem até lá, por favor. No carro, meus pensamentos não se calavam. Por que Sebastian queria falar agora? Por que não podia esperar? E mais: por que o lugar era aquele, tão longe da casa que dividíamos? O trajeto passou rápido demais. Quando o carro parou, meu queixo quase caiu. O prédio parecia um palácio vertical, com colunas escuras, detalhes em dourado discreto e vidros espelhados que refletiam o céu. A entrada era silenciosa, protegida por porteiros uniformizados. Atravessei o saguão de mármore branco, o som dos meus saltos engolido pelo carpete grosso. Entrei sozinha no elevador. Apertei o botão do último andar. A cobertura inteira pertencia a ele. O corredor era silencioso demais. No fim, uma porta preta, moderna, com uma fechadura digital. A luz vermelha piscava. Estava destrancada. Hesitei. Girei a maçaneta. A porta cedeu. Dentro, o luxo me abraçou como uma corrente gelada. A decoração em preto e cinza era impecável, minimalista, fria. O sofá de couro parecia novo. As luzes eram indiretas, e a vista da cidade pelas janelas de vidro era inacreditável. O tipo de lugar onde ninguém vive, só ostenta. — Sebastian? — chamei. Nada. Dei alguns passos, os olhos tentando entender onde ele estava. E então ouvi. Risos. Vindos de cima. Meu corpo enrijeceu. Subi devagar. A escada em espiral levava a um andar superior. A luz filtrava pelas frestas da porta entreaberta no fim do corredor. Os risos se tornaram gemidos. Meu estômago revirou. Toquei a porta com a ponta dos dedos. Empurrei. E vi. Sebastian. Nu. Entre as pernas da mesma mulher que vi no escritório. O corpo dele se movia sobre o dela, como se estivesse em casa. Como se nada mais importasse. O som dos gemidos dela era um chicote no meu peito. Meu mundo parou. O tempo se dobrou e explodiu dentro de mim. A mulher — Lara, eu lembrava — virou o rosto para mim e sorriu, como se tudo aquilo fosse um jogo. — Vai entrar ou só assistir? — provocou. Minha respiração falhou. Meus olhos ardiam. Meu corpo congelou, mas minha mente gritava. Por que eu vim? Pra quê? Sebastian virou o rosto em minha direção. E por um segundo, eu vi algo ali. Culpa? Arrependimento? Ou apenas a consciência de que eu o tinha visto? Não esperei para descobrir. Girei nos calcanhares e saí. Desci as escadas às pressas. Queria distância daquele lugar. Daquela cena. Daquela dor. — Ane! — ouvi a voz dele atrás de mim. Ele veio correndo, ainda nu. O corpo musculoso, marcado, suado. Exposto. Tentei não olhar. Mas olhei. E isso me envergonhou ainda mais. — O que você está fazendo aqui? Como soube desse lugar? — ele perguntou, como se eu fosse a errada. Girei devagar, ainda em choque. — Você me mandou uma mensagem. — Eu não mandei nada. — Claro — murmurei. — Agora vai fingir que também não sabe usar um celular? Ele se aproximou, mas dei um passo para trás. — Você se supera, Sebastian. Cada dia mais baixo. Parabéns. Ele me olhava com aquele olhar indecifrável. Frio, intenso, arrogante. Mas havia algo a mais. Desespero contido. Não sei. — Você não deveria estar aqui — ele disse. — Não mesmo. Mas agora estou. Vi o que precisava ver. E, honestamente, não sei o que é pior… o que você fez, ou o fato de que parte de mim ainda sente alguma coisa por você. O silêncio se instalou entre nós. Só o som da nossa respiração pesada preenchia o espaço. — Ane… — Não — interrompi. — Não diga nada. Não tente se explicar. Não há desculpa. Não há volta. Você me perdeu, Sebastian. E nem percebeu quando isso aconteceu. Saí sem olhar para trás. Mas por dentro, cada passo era uma implosão. O que restava entre nós… estava morto. E dessa vez, fui eu quem fechou a porta. *** Voltei para a casa como quem carrega cacos de si mesma. Não chorei no carro. Não chorei ao entrar. Eu só… respirei. Uma respiração depois da outra. Mecânica. Fria. Automática. Atravessei o hall sem olhar para os lados, ignorando o segurança que tentou me chamar. Subi as escadas com passos duros, como se fugisse de algo que ainda me perseguia. E, de certo modo… era verdade. Parei diante do quarto de Vittoria, bati uma vez e nem esperei resposta. Empurrei a porta com força demais. Ela estava sentada no chão, mexendo no armário, e se virou rápido, assustada. — Ane? Que—meu Deus, o que aconteceu? — levantou-se num pulo ao me ver pálida, com os olhos vazios, os lábios entreabertos como se faltasse ar. — Preciso do contato do Leonardo — soltei de uma vez, caminhando até a cama como se meu corpo estivesse em piloto automático. Ela me seguiu com o cenho franzido. — O quê? Como assim? — cruzou os braços, confusa. — Como você sabe do meu irmão? Sentei na beira da cama e encarei o chão por um segundo. A garganta ainda arranhava. — É uma longa história — murmurei. — Mas ele é o único que pode me ajudar agora. — Ane... — ela se aproximou, sentando ao meu lado. — Você tá tremendo. O que aconteceu? Engoli seco. Demorei alguns segundos antes de dizer em voz alta, como se ao pronunciar aquilo, tudo se tornasse ainda mais real. — Eu fui encontrar o Sebastian. Ele me mandou uma mensagem com um endereço, disse que queria conversar sobre o casamento. Eu acreditei. — Meus dedos se fecharam sobre o tecido da calça. — Quando cheguei lá, a porta da cobertura estava entreaberta. A fechadura digital estava piscando em vermelho, indicando que não tinha sido trancada… e eu entrei. Vittoria arregalou os olhos. — E…? — Eu ouvi risos. Subi as escadas… e encontrei ele. Na cama. Com aquela mesma mulher que vi no escritório. Eles estavam… — respirei fundo, engolindo a dor. — No meio do ato. E ele nem se importou. Me viu. Me encarou. Como se eu não fosse nada. Vittoria praguejou baixinho e levou as mãos à cabeça. — Isso é a cara do Sebastian — ela disse, com um sorriso nervoso. — Mas eu realmente queria estar errada. — E eu queria ter saído correndo antes de ver — respondi, amargo. — Mas não consegui. Ela suspirou profundamente e pegou o celular no criado-mudo, começou a digitar algo com rapidez, mas hesitou antes de me entregar. — Leonardo não é uma pessoa qualquer, Ane. Ele vive num limbo entre o nosso mundo e o de vocês. Parte dentro da máfia, parte fora. Meu pai nunca permitiu que ele se envolvesse completamente, e Leonardo também sempre manteve certa distância. Mas ele é inteligente, estratégico… e perigoso, se quiser ser. Peguei o celular das mãos dela com firmeza. — Eu não tenho medo dele. — Olhei para frente. — Tenho medo de continuar sendo um fantoche. Uma peça no tabuleiro dos Moretti e dos Mancini. Vittoria me observou por um segundo, e então assentiu, como se entendesse algo que ia além das palavras. — Se tem alguém capaz de enfrentar Sebastian no mesmo nível… esse alguém é Leonardo. Digitei a mensagem com dedos trêmulos, o coração ainda pulsando forte no peito: “Leonardo, é Ane. Precisamos conversar.” Enviei. Vittoria se recostou ao meu lado na cama, ficando em silêncio por um tempo. O peso da situação pairava entre nós. — Você vai mesmo fazer isso? — ela perguntou, num tom calmo, mas denso de significado. — Se essa for a única forma de recuperar minha liberdade… então sim — sussurrei. — Estou pronta pra aceitar. Ela não respondeu. Apenas estendeu a mão e segurou a minha. Pela primeira vez em muito tempo, percebi que não estava completamente sozinha.
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