Capítulo 17

1457 Words
Ane O portão se abriu com um ruído metálico e pesado, como se até o ferro soubesse o peso do momento. O segurança conduziu o carro pela longa entrada ladeada de ciprestes altos e silenciosos. A casa à frente era tão imponente quanto eu imaginava — toda em mármore cinza e branco, com colunas largas e janelas altas demais para permitir qualquer devassidão da rua. O carro parou. O motorista abriu a porta, mas eu permaneci sentada por alguns segundos. Minhas mãos suavam. Meus pensamentos gritavam. Era estranho estar ali — no lugar onde, em tese, meu sangue também corria pelos corredores, mas onde tudo parecia... alheio. Como se eu estivesse invadindo algo que jamais foi feito para mim. Desci. O vento frio cortou minha pele, mas não me fez recuar. Caminhei até a porta principal, ladeada por vasos de pedra e flores bem cuidadas, com passos firmes. Toquei a campainha. Uma, duas vezes. Nenhum som do lado de dentro. Estava prestes a tocar pela terceira vez quando a porta se abriu. Um homem alto, de terno escuro e expressão discreta, me examinou com olhos treinados. Não precisava perguntar quem eu era. Ele já sabia. — Senhorita Moretti — disse, com um leve aceno de cabeça. — O senhor está esperando. "Esperando?" Não entendi o que doía mais: o fato de ele estar me esperando como se já soubesse que eu viria… ou o fato de nunca ter vindo até mim. Fui guiada por um longo corredor coberto por tapetes grossos e pinturas emolduradas a ouro. Tudo era silencioso, como se cada cômodo guardasse um segredo. No final do corredor, uma porta dupla se abriu. E ali estava ele. Meu avô. Pietro Moretti. Sentado em uma poltrona de couro escuro, diante de uma lareira acesa, com um copo de whisky em uma das mãos e o rosto marcado pelo tempo e pelo poder. Seus olhos, embora envelhecidos, ainda eram de um azul afiado — e quando se voltaram para mim, senti um arrepio involuntário percorrer minha espinha. — Ane — ele disse, como se dissesse "bom dia". Como se o nosso primeiro encontro não fosse a colisão de tudo que ficou pendente por vinte e um anos. — Então o senhor sabe quem eu sou — falei, a voz firme, mesmo que meu coração ameaçasse me trair. Ele assentiu devagar, como se estivesse calculando cada palavra. — Sempre soube. — E por que nunca veio até mim? O olhar dele vacilou por um segundo. Ele se recostou na poltrona, como se aquele simples questionamento tivesse aberto uma ferida antiga demais para ser ignorada. — Porque você se parece demais com a sua mãe. Minha garganta apertou. Ele não dizia como um elogio. Dizia como dor. — Eu a perdi... e nunca superei. Olhar pra você era como reviver isso. Todos os dias. E eu sabia que se me aproximasse demais, acabaria arrastando você para um mundo do qual ela tentou fugir. — Isso não me impediu de acabar nele mesmo assim. — Porque mesmo de longe... eu sempre cuidei. Sempre estive vigiando. Protegendo como podia. E quando seu pai cometeu aquele erro... eu precisei agir. — Então essa história com o Sebastian... esse casamento... tudo foi ideia sua? — Foi por p******o — ele disse, sem rodeios. — O casamento com o Sebastian não é sobre sentimento. É sobre poder. Sobre alianças. Você carrega o nome Moretti. E isso, Ane, te coloca na mira de gente muito pior do que meu filho ou Sebastian. Esse casamento é uma armadura. Talvez a única que eu poderia te dar. — E meu pai? Ele nunca soube da verdade? — Não. E foi melhor assim. Ele conheceu sua mãe como uma mulher comum. Nunca soube da origem dela... até o dia em que caiu na armadilha do cassino. Quando perdeu. Quando foi forçado a entregar você como garantia. Só então entendeu que havia mais em jogo do que parecia. — Foi manipulado. — Sim. Mas mesmo assim... fez uma dívida. E na máfia, Ane, uma dívida é sagrada. Ela precisa ser paga — com dinheiro, com sangue, ou com alianças. Eu fechei os olhos por um instante. Tudo fazia sentido. Dolorosamente, brutalmente... sentido. — Eu quero sair desse contrato — disse, enfim. — Quero saber o que posso fazer legalmente. Isso tudo foi uma chantagem desde o início. Meu avô me observou por longos segundos. Então caminhou até uma gaveta e tirou um envelope grosso, que estendeu para mim. — Aqui estão os termos originais do acordo. Leia com calma. Mas entenda: isso não se desfaz com um “não quero mais”. O mundo que herdamos exige mais do que palavras. Exige sacrifícios. — Mesmo assim... eu vou lutar. Pietro assentiu, um pequeno sorriso quebrando sua seriedade. — E é por isso que você é uma Moretti. Saí da mansão com os papéis em mãos, o coração pesado e a alma cheia de perguntas que talvez nunca tivessem respostas simples. Eu queria liberdade. Mas talvez... liberdade fosse o tipo de luxo que nomes como o meu nunca poderiam realmente alcançar. *** Pedi ao segurança para parar quando avistei o café na esquina. Era pequeno, discreto, e por algum motivo me pareceu o único lugar do mundo onde eu conseguiria respirar. — Quero entrar sozinha — falei, antes que ele abrisse a porta do carro. — Senhorita Ane... temos ordens claras. — Então fiquem perto, mas não perto demais. Me observem de longe. Só isso. Eles se entreolharam, desconfortáveis, mas assentiram. Um pequeno ato de rebeldia permitido. Um respiro. Atravessei a rua e entrei. O cheiro de café forte e canela me envolveu. Pedi um cappuccino, e a atendente nem olhou duas vezes — não me reconheceu, e isso era um alívio. Sentei no canto mais afastado do lugar, onde a luz m*l tocava a mesa. O envelope com os documentos do meu avô ainda estava entre as minhas mãos, intacto. Parte de mim queria rasgar o lacre ali mesmo, descobrir cada cláusula daquele maldito contrato. Outra parte… só queria um minuto de silêncio. Um segundo de esquecimento. — Você está mais calma do que eu esperava. A voz veio da cadeira à minha frente. Ergui os olhos, surpresa — não o vi se aproximar. Alto, elegante, perfeitamente alinhado em um terno escuro, ele sorria como quem sabia exatamente o que estava fazendo. — Quem é você? — minha voz saiu baixa, mas firme. — Leonardo Mancini. Meio-irmão de Sebastian. O nome caiu sobre mim como uma pedra. Meus dedos apertaram o envelope com força. — O que quer? — Ajudá-la — disse, apoiando os cotovelos na mesa, como se aquilo fosse apenas uma conversa casual entre conhecidos. — Ou pelo menos... oferecer uma saída. — Que tipo de saída? Ele me olhou como quem estuda uma peça rara, antes de dar a resposta. — Você precisa se casar com um Mancini para que as dívidas do seu pai sejam oficialmente quitadas. Foi o acordo. Não especificaram qual Mancini. Pisquei, confusa. — O que está dizendo? — Estou dizendo — continuou Leonardo, tranquilo — que eu posso me casar com você. E diferente de Sebastian... não quero o seu corpo. Nem o seu coração. Só quero sua liberdade. — Isso é loucura. — É estratégia. Na máfia, não existe divórcio. Mas podemos ter um casamento aberto — ele baixou a voz. — Um acordo nosso. Ninguém precisa saber. Você ganha um sobrenome poderoso, cumpre sua parte no contrato... e está livre. Fiquei em silêncio. O cappuccino esfriando entre as minhas mãos. — Poderia sair do país, viver sua vida como quiser. Quando algum evento exigisse sua presença... voltaria como minha esposa. Só de fachada. — Fez uma pausa. — E Sebastian perderia o controle sobre você. Ele me observava com uma calma perigosa. Leonardo Mancini era um homem que não deixava rastros nem dava passos em falso. Cada palavra dele parecia medida, ensaiada. — Por que você faria isso? Ele sorriu, sem graça nenhuma. — Porque é a melhor forma de ferrar o meu irmão. E porque, Ane... você não pertence a ele. Nenhuma mulher deveria pertencer a ninguém. Meu coração disparou. Aquela proposta era absurda. Imoral. Tentadora. — Pense nisso — ele disse, se levantando. — Quando estiver pronta, me procure. Mas não demore. Sebastian é paciente... até o dia que deixa de ser. E então saiu, como uma sombra elegante atravessando a luz do fim da tarde. Fiquei ali, sozinha. O envelope em uma mão. A xícara na outra. E a proposta mais indecente e libertadora que já recebi batendo como um tambor dentro da minha cabeça. Casar com Leonardo Mancini… seria traição. Mas talvez... fosse também a minha única chance de vingança. E, quem sabe, liberdade.
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