Ane
O portão se abriu com um ruído metálico e pesado, como se até o ferro soubesse o peso do momento. O segurança conduziu o carro pela longa entrada ladeada de ciprestes altos e silenciosos. A casa à frente era tão imponente quanto eu imaginava — toda em mármore cinza e branco, com colunas largas e janelas altas demais para permitir qualquer devassidão da rua.
O carro parou. O motorista abriu a porta, mas eu permaneci sentada por alguns segundos. Minhas mãos suavam. Meus pensamentos gritavam. Era estranho estar ali — no lugar onde, em tese, meu sangue também corria pelos corredores, mas onde tudo parecia... alheio. Como se eu estivesse invadindo algo que jamais foi feito para mim.
Desci. O vento frio cortou minha pele, mas não me fez recuar. Caminhei até a porta principal, ladeada por vasos de pedra e flores bem cuidadas, com passos firmes. Toquei a campainha. Uma, duas vezes. Nenhum som do lado de dentro.
Estava prestes a tocar pela terceira vez quando a porta se abriu.
Um homem alto, de terno escuro e expressão discreta, me examinou com olhos treinados. Não precisava perguntar quem eu era. Ele já sabia.
— Senhorita Moretti — disse, com um leve aceno de cabeça. — O senhor está esperando.
"Esperando?"
Não entendi o que doía mais: o fato de ele estar me esperando como se já soubesse que eu viria… ou o fato de nunca ter vindo até mim.
Fui guiada por um longo corredor coberto por tapetes grossos e pinturas emolduradas a ouro. Tudo era silencioso, como se cada cômodo guardasse um segredo. No final do corredor, uma porta dupla se abriu. E ali estava ele.
Meu avô.
Pietro Moretti.
Sentado em uma poltrona de couro escuro, diante de uma lareira acesa, com um copo de whisky em uma das mãos e o rosto marcado pelo tempo e pelo poder. Seus olhos, embora envelhecidos, ainda eram de um azul afiado — e quando se voltaram para mim, senti um arrepio involuntário percorrer minha espinha.
— Ane — ele disse, como se dissesse "bom dia". Como se o nosso primeiro encontro não fosse a colisão de tudo que ficou pendente por vinte e um anos.
— Então o senhor sabe quem eu sou — falei, a voz firme, mesmo que meu coração ameaçasse me trair.
Ele assentiu devagar, como se estivesse calculando cada palavra.
— Sempre soube.
— E por que nunca veio até mim?
O olhar dele vacilou por um segundo. Ele se recostou na poltrona, como se aquele simples questionamento tivesse aberto uma ferida antiga demais para ser ignorada.
— Porque você se parece demais com a sua mãe.
Minha garganta apertou. Ele não dizia como um elogio. Dizia como dor.
— Eu a perdi... e nunca superei. Olhar pra você era como reviver isso. Todos os dias. E eu sabia que se me aproximasse demais, acabaria arrastando você para um mundo do qual ela tentou fugir.
— Isso não me impediu de acabar nele mesmo assim.
— Porque mesmo de longe... eu sempre cuidei. Sempre estive vigiando. Protegendo como podia. E quando seu pai cometeu aquele erro... eu precisei agir.
— Então essa história com o Sebastian... esse casamento... tudo foi ideia sua?
— Foi por p******o — ele disse, sem rodeios. — O casamento com o Sebastian não é sobre sentimento. É sobre poder. Sobre alianças. Você carrega o nome Moretti. E isso, Ane, te coloca na mira de gente muito pior do que meu filho ou Sebastian. Esse casamento é uma armadura. Talvez a única que eu poderia te dar.
— E meu pai? Ele nunca soube da verdade?
— Não. E foi melhor assim. Ele conheceu sua mãe como uma mulher comum. Nunca soube da origem dela... até o dia em que caiu na armadilha do cassino. Quando perdeu. Quando foi forçado a entregar você como garantia. Só então entendeu que havia mais em jogo do que parecia.
— Foi manipulado.
— Sim. Mas mesmo assim... fez uma dívida. E na máfia, Ane, uma dívida é sagrada. Ela precisa ser paga — com dinheiro, com sangue, ou com alianças.
Eu fechei os olhos por um instante. Tudo fazia sentido. Dolorosamente, brutalmente... sentido.
— Eu quero sair desse contrato — disse, enfim. — Quero saber o que posso fazer legalmente. Isso tudo foi uma chantagem desde o início.
Meu avô me observou por longos segundos. Então caminhou até uma gaveta e tirou um envelope grosso, que estendeu para mim.
— Aqui estão os termos originais do acordo. Leia com calma. Mas entenda: isso não se desfaz com um “não quero mais”. O mundo que herdamos exige mais do que palavras. Exige sacrifícios.
— Mesmo assim... eu vou lutar.
Pietro assentiu, um pequeno sorriso quebrando sua seriedade.
— E é por isso que você é uma Moretti.
Saí da mansão com os papéis em mãos, o coração pesado e a alma cheia de perguntas que talvez nunca tivessem respostas simples. Eu queria liberdade. Mas talvez... liberdade fosse o tipo de luxo que nomes como o meu nunca poderiam realmente alcançar.
***
Pedi ao segurança para parar quando avistei o café na esquina. Era pequeno, discreto, e por algum motivo me pareceu o único lugar do mundo onde eu conseguiria respirar.
— Quero entrar sozinha — falei, antes que ele abrisse a porta do carro.
— Senhorita Ane... temos ordens claras.
— Então fiquem perto, mas não perto demais. Me observem de longe. Só isso.
Eles se entreolharam, desconfortáveis, mas assentiram. Um pequeno ato de rebeldia permitido. Um respiro.
Atravessei a rua e entrei.
O cheiro de café forte e canela me envolveu. Pedi um cappuccino, e a atendente nem olhou duas vezes — não me reconheceu, e isso era um alívio.
Sentei no canto mais afastado do lugar, onde a luz m*l tocava a mesa. O envelope com os documentos do meu avô ainda estava entre as minhas mãos, intacto. Parte de mim queria rasgar o lacre ali mesmo, descobrir cada cláusula daquele maldito contrato. Outra parte… só queria um minuto de silêncio. Um segundo de esquecimento.
— Você está mais calma do que eu esperava.
A voz veio da cadeira à minha frente. Ergui os olhos, surpresa — não o vi se aproximar. Alto, elegante, perfeitamente alinhado em um terno escuro, ele sorria como quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Quem é você? — minha voz saiu baixa, mas firme.
— Leonardo Mancini. Meio-irmão de Sebastian.
O nome caiu sobre mim como uma pedra. Meus dedos apertaram o envelope com força.
— O que quer?
— Ajudá-la — disse, apoiando os cotovelos na mesa, como se aquilo fosse apenas uma conversa casual entre conhecidos. — Ou pelo menos... oferecer uma saída.
— Que tipo de saída?
Ele me olhou como quem estuda uma peça rara, antes de dar a resposta.
— Você precisa se casar com um Mancini para que as dívidas do seu pai sejam oficialmente quitadas. Foi o acordo. Não especificaram qual Mancini.
Pisquei, confusa.
— O que está dizendo?
— Estou dizendo — continuou Leonardo, tranquilo — que eu posso me casar com você. E diferente de Sebastian... não quero o seu corpo. Nem o seu coração. Só quero sua liberdade.
— Isso é loucura.
— É estratégia. Na máfia, não existe divórcio. Mas podemos ter um casamento aberto — ele baixou a voz. — Um acordo nosso. Ninguém precisa saber. Você ganha um sobrenome poderoso, cumpre sua parte no contrato... e está livre.
Fiquei em silêncio. O cappuccino esfriando entre as minhas mãos.
— Poderia sair do país, viver sua vida como quiser. Quando algum evento exigisse sua presença... voltaria como minha esposa. Só de fachada. — Fez uma pausa. — E Sebastian perderia o controle sobre você.
Ele me observava com uma calma perigosa. Leonardo Mancini era um homem que não deixava rastros nem dava passos em falso. Cada palavra dele parecia medida, ensaiada.
— Por que você faria isso?
Ele sorriu, sem graça nenhuma.
— Porque é a melhor forma de ferrar o meu irmão. E porque, Ane... você não pertence a ele. Nenhuma mulher deveria pertencer a ninguém.
Meu coração disparou. Aquela proposta era absurda. Imoral. Tentadora.
— Pense nisso — ele disse, se levantando. — Quando estiver pronta, me procure. Mas não demore. Sebastian é paciente... até o dia que deixa de ser.
E então saiu, como uma sombra elegante atravessando a luz do fim da tarde.
Fiquei ali, sozinha. O envelope em uma mão. A xícara na outra. E a proposta mais indecente e libertadora que já recebi batendo como um tambor dentro da minha cabeça.
Casar com Leonardo Mancini… seria traição.
Mas talvez... fosse também a minha única chance de vingança.
E, quem sabe, liberdade.