Capítulo 16

967 Words
Ane Acordei com uma sensação estranha, como se o mundo estivesse em suspenso. Os travesseiros estavam bagunçados, o corpo ainda pesado da noite m*l dormida — ou m*l vivida. Abri os olhos devagar… e dei de cara com Vittoria, sentada na poltrona da sala, me encarando com uma sobrancelha arqueada e um copo de café nas mãos. — Vai me dizer que dormiu aqui por vontade própria? — perguntou, com aquele tom debochado que só ela conseguia usar sem soar c***l. — Não exatamente — murmurei, me sentando devagar. — Aconteceu uma coisa ontem à noite... Ela deu um gole no café e esperou. Vittoria nunca forçava. Mas sempre sabia quando o assunto era sério. — Ele me seguiu até a sorveteria — comecei, respirando fundo. — Me tirou de lá como se eu fosse uma criança. Um dos jogadores do time me chamou pra sair, e Sebastian simplesmente... apareceu. Os olhos de Vittoria brilharam com um misto de ironia e tédio. — Isso é a cara do meu irmão. Territorial. Dramático. E sempre um pouco assustador. — Não foi só isso — continuei, sentindo o coração acelerar. — Quando voltamos, discutimos. Eu mostrei pra ele as provas sobre o meu sobrenome... sobre tudo. Contei que sabia que nunca fui bastarda. — E ele...? — Admitiu. Disse que meu avô sabia de tudo. Que foi ele quem sugeriu esse acordo. Vittoria fechou os olhos por um instante. Depois soltou um suspiro cansado. — Mafia. Nada mais me surpreende. — Eu preciso falar com meu avô — afirmei. — Descobrir se há alguma chance de anular esse contrato. Se ele nasceu de uma chantagem, talvez tenha alguma brecha legal. Vittoria pousou o copo na mesa de canto e cruzou as pernas, pensativa. — Pode tentar — disse, sem muita esperança na voz. — Mas, Ane… quando se trata de alianças na máfia, especialmente entre famílias como as nossas, o que vale não é a assinatura. É o sangue. — Mas ainda não estou casada com ele. Isso significa que ainda há tempo. — Sim. E não. — Ela me olhou com sinceridade. — Vocês só não se casaram ainda porque meu pai e o Sebastian ainda não encontraram a aliança perfeita. Estão esperando o parceiro ideal... alguém que fortaleça os dois lados. Quando isso acontecer... a cerimônia vem no mesmo dia. A ideia me fez engolir seco. — E você? — perguntei. — Vai se casar assim também? Vittoria deu um sorriso curto, um pouco triste. — Já tenho 21, Ane. E todo mundo aqui sabe que o relógio está batendo mais forte pra mim. Rezo toda noite pra que, pelo menos, o homem que escolherem... seja bom comigo. Houve um silêncio entre nós. Não de desconforto, mas de duas mulheres que sabiam que estavam presas a mundos criados por homens com poder demais e sentimentos de menos. — Eu não vou aceitar isso — sussurrei. — Nem pra mim. Nem pra você. Ela me olhou com um certo brilho nos olhos. Um misto de ternura e incredulidade. — Só cuidado, Ane. Nesse jogo... querer liberdade pode te custar caro demais. Me levantei devagar, sentindo o peso da verdade nos ombros. Mas também... sentindo que, dessa vez, eu não recuaria. *** Naquela manhã, eu simplesmente não consegui vestir a roupa da faculdade. Não revisei matéria, não procurei pela mochila, nem me lembrei da prova que deveria fazer. Nada disso parecia importar diante do peso que eu carregava no peito. Eu precisava de outra coisa. Respostas. Chamei um dos seguranças logo após o café da manhã e entreguei um papel com o endereço escrito à mão. — Pode me levar até aqui? — perguntei, a voz mais firme do que eu esperava. Ele hesitou por um segundo, mas assentiu. — Claro, senhorita Ane. Durante o trajeto, o silêncio dentro do carro só fazia crescer a confusão na minha cabeça. As ruas desfilavam do lado de fora, com pessoas apressadas, cafés abrindo as portas, crianças indo para a escola. Mas eu só conseguia pensar em uma coisa: por que meu avô nunca veio até mim? Ele sabia da minha existência. Disso eu não duvidava mais. Sabia quem eu era, o que eu carregava no sangue e mesmo assim... se manteve longe. Talvez achasse que tudo já estava resolvido quando permitiu o acordo com os Mancini. Talvez acreditasse que me colocar naquela casa bastava. Mas eu não era um pedaço de papel assinado. Eu não era uma jogada de xadrez. Eu era neta de alguém. E queria entender o que isso significava. Quando o carro virou em uma rua mais larga e silenciosa, percebi que estávamos chegando. As casas ali eram grandes demais, imóveis silenciosos com cercas impecáveis e jardins que pareciam desenhados à mão. Era outro mundo. Um mundo onde o poder era sussurrado em vez de gritado. Onde alianças não eram feitas com promessas, mas com sobrenomes. Então o portão apareceu diante de mim. Ferro preto, imponente, com o brasão dourado gravado no centro. Um “M” ornamentado, cercado por folhas e linhas entrelaçadas. Moretti. Meu nome. Na pedra. No portão. Na fachada de uma mansão cercada por segredos. Senti o estômago revirar. Meu nome estava ali, visível a qualquer um que passasse. Mas o que isso realmente significava? Eu pertencia àquilo tudo? Ou era só mais uma peça colocada onde mais convinha? O carro parou com suavidade diante da entrada. Minha respiração prendeu por um instante. Aquele era o momento. Mesmo sem saber o que me esperava do outro lado, uma coisa eu tinha certeza: eu não podia mais fingir que aceitava aquele silêncio. Ele era o único que podia me dar as respostas certas. Ou, pelo menos, as verdades cruas que ninguém mais parecia disposto a dizer. E era isso que eu tinha ido buscar.
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