Ane
O silêncio entre nós pesava mais do que qualquer ameaça. O ar parecia carregado de algo denso — raiva, desejo, frustração. Eu me sentia cercada, caçada, sufocada por um homem que não sabia amar, mas sabia muito bem como prender.
Ele estava tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dele colado ao meu. As palavras ainda ecoavam entre nós como uma sentença:
“Vai ter que passar por mim.”
Respirei fundo, tentando manter o controle, mesmo com as pernas fracas e o coração descompassado. Ele sabia o efeito que causava. E adorava cada segundo disso.
Mas antes que eu pudesse reagir, ele deu mais um passo. Encostou o rosto no meu, sem me beijar. Apenas nos queimando no silêncio daquilo que não dizíamos.
— O quarto de hóspedes será trancado a partir de hoje — ele disse, a voz baixa, rouca, cortante. — Ou você volta pro nosso quarto... ou dorme na sala.
Meu estômago revirou.
— Você não pode me obrigar — sussurrei, com a voz falha.
— Claro que posso — ele respondeu, impassível. — Essa casa tem regras. E você vai aprender a segui-las.
Fiquei sem palavras por um segundo. A raiva me invadiu como uma corrente elétrica.
— Isso é sequestro, Sebastian.
— Não. — Ele inclinou a cabeça, os olhos presos nos meus. — Isso é controle. Você pode gritar, se debater, me odiar... mas vai dormir onde eu quiser. Porque você ainda é minha.
— Você não tem esse direito!
— Eu tenho todos os direitos, Ane. Todos. E você só vai embora se passar por cima de mim.
Ele se afastou um passo, como se me desse espaço apenas para que eu soubesse que não o tinha.
— E se tentar fugir — ele completou, com frieza —, vai me obrigar a agir como o monstro que você insiste em pintar.
— Talvez porque seja exatamente isso que você é.
Ele sorriu. Devagar. Escuro. Perigoso.
— E mesmo assim… você quer o monstro.
Meus punhos se fecharam ao lado do corpo. Eu tremia. De ódio. De frustração. De um desejo sujo que me envergonhava. Porque, no fundo, ele tinha razão. Parte de mim queria se rebelar. Outra parte queria se render e gritar de prazer.
Antes de sair do quarto, ele olhou por cima do ombro, frio como aço:
— Não teste os meus limites, Ane. Ou vou te mostrar o que significa realmente pertencer a mim.
A porta se fechou com um estalo seco. E eu fiquei ali.
Sozinha.
Presente demais no próprio corpo.
Furiosa demais para chorar.
E desejando demais alguém que eu nunca deveria amar.
***
O silêncio da casa era quase c***l. Cada canto parecia me vigiar. O estalo da madeira no corredor, o vento suave batendo contra as janelas... tudo parecia me lembrar que eu não tinha para onde correr. Que aquela casa não era minha. Que aquela vida não era minha.
Desci as escadas devagar, tentando não fazer barulho. A raiva ainda fervia no peito, mas havia outra coisa ali também. Uma tensão que me corroía de dentro pra fora. Eu sabia que Sebastian estava por perto, vigiando, esperando, como um predador que dá espaço só para ter o prazer de capturar de novo.
Na sala, me joguei no sofá. Puxei a manta, ajeitei as almofadas, tentei respirar fundo e esquecer a sensação de prisão. Mas o estofado era frio. Incômodo. Pequeno. Nada como o colchão macio do quarto de hóspedes.
O quarto que agora tinha uma tranca.
Tranquei os braços ao redor do corpo, tentando ignorar o arrepio que não vinha só do frio.
Horas pareciam passar em minutos. Eu fechava os olhos, mas não dormia. Meu corpo doía. A alma mais ainda. E foi quando ouvi os passos.
Lentos.
Pesados.
Deliberados.
Ele.
Sebastian parou na entrada da sala e me observou em silêncio. Quando abri os olhos, o vi parado ali, de camisa preta, mangas dobradas, com os cabelos um pouco bagunçados. O olhar dele era uma sombra — densa, ameaçadora e... quente.
— Você acha que é mais forte que eu? — ele perguntou, com a voz rouca. — Que pode me desafiar e continuar respirando tranquilamente?
— Acho que tenho o direito de escolher onde vou dormir — retruquei, sentando no sofá, tentando manter a dignidade.
— Você tem muitos direitos. Mas nenhum deles anula os meus.
— Seus “direitos” são correntes, Sebastian.
— Correntes que você não quer soltar — ele rebateu, aproximando-se devagar. — Porque, se quisesse mesmo, teria fugido naquela primeira semana. Mas está aqui. Dormindo no meu sofá. Só pra me provocar.
— Eu estou aqui porque você trancou todas as minhas opções!
Ele se inclinou para frente, ficando de pé bem diante de mim. Os olhos dele queimavam.
— Não todas — murmurou. — Ainda te resta o nosso quarto.
Levantei, encarando-o. O coração batia rápido demais. A raiva me mantinha em pé. Mas o desejo... o desejo me fazia queimar.
— Eu não vou voltar praquela cama como se nada tivesse acontecido.
— Ótimo — ele deu um passo ainda mais perto. — Então vá como se tudo tivesse acontecido. Leve sua raiva, sua dor, seu desprezo... mas vá.
— Eu prefiro dormir no chão.
— Você não vai dormir — a voz dele desceu em tom grave, quase animalesco. — Vai se revirar. Vai me desejar. E quando a madrugada chegar... vai sonhar comigo.
Ele estava tão perto que eu sentia o cheiro da pele dele. A respiração dele batia contra meu rosto. Cada palavra que saía da boca dele parecia entrar direto em mim.
— Você é doente — sussurrei.
— Talvez — ele encostou a mão na lateral do meu rosto. Um toque quente, gentil. Contraditório. — Mas sou o único que sabe exatamente como te desarmar.
Tentei recuar, mas ele segurou meu pulso. O mesmo toque de sempre. Firme. Seguro. Dominador. Mas sem machucar. Como se dissesse: “Você pode me odiar, mas não vai escapar.”
— Me solta — pedi, mas minha voz saiu baixa demais. Sem força o suficiente para convencê-lo. Sem força o suficiente para convencer a mim mesma.
— Não até você parar de mentir. — Ele roçou os lábios perto da minha orelha. — Você não está fugindo de mim, Ane. Está fugindo de como eu te faço sentir.
Fechei os olhos por um segundo, como se isso pudesse me proteger. Mas era inútil. O corpo tremia. A respiração falhava.
— Se eu voltar praquele quarto… — murmurei. — Não sei se consigo sair de novo.
Ele sorriu.
— Esse é o plano.
E então, como quem joga com as últimas cartas de um jogo sujo e íntimo, Sebastian soltou meu pulso... e virou as costas.
— A porta do quarto está aberta — disse por cima do ombro. — Mas só entra quem está pronta pra perder o resto da resistência.
E sumiu pelas escadas.
Eu fiquei ali, sozinha.
Com a escolha.
Com o medo.
E com o fogo queimando entre as pernas.