Sebastian
O silêncio no carro era mais cortante que qualquer grito.
Ela não falou uma única palavra durante o trajeto. Mantinha o rosto virado para a janela, o maxilar travado, os olhos secos, mas distantes demais para ignorar. E eu sabia — porque conhecia aquele corpo melhor do que qualquer outro — que tudo nela fervia por dentro. Ane nunca soube esconder o que sentia. O corpo dela sempre falava antes da boca.
Chegamos em casa. O motorista abriu a porta, e ela saiu primeiro. Os passos rápidos, quase impacientes, como se estivesse fugindo. Eu, por outro lado, subi com calma. O que nos aguardava lá em cima não era apenas uma discussão. Era o início de um acerto de contas. E, talvez, de uma guerra.
Ela foi direto para o quarto de hóspedes. Não hesitei em seguir. Quando empurrei a porta, encontrei-a de costas, o celular nas mãos. Os ombros rígidos. O ar carregado.
— Você não tem o direito de agir daquela forma — ela disse, ainda sem olhar para mim. A voz saiu baixa, mas cada palavra cortava como navalha.
— Se está falando do garoto da sorveteria… ele teve sorte de sair inteiro — respondi, fechando a porta com calma, sem pressa. O clique seco pareceu ecoar no quarto.
Ela se virou, enfim. E por um instante, eu soube. A garota assustada que cheguei a controlar com um olhar… tinha morrido. O que restava agora era outra coisa. Raiva. Orgulho. Decepção. Força.
— O nome dele é Jhonatan — ela disparou. — E ele só me chamou pra sair. Nada que você já não tenha feito mil vezes com outras mulheres.
— Isso é diferente.
— Não, Sebastian. Não é. Você se dá o luxo de brincar com qualquer corpo enquanto espera que o meu esteja trancado a sete chaves. Isso tem outro nome.
— Eu controlo essa casa e essa família porque entendo uma coisa: domínio é necessário.
— Isso não é domínio — ela jogou o celular na cama com violência contida — é covardia.
Cruzei os braços. A tensão escalava, densa, quase sólida entre nós.
— Está me chamando de covarde?
— Estou te chamando de mentiroso — ela disse, firme. — E agora tenho provas.
Me aproximei. Olhei para o celular ainda aceso. Havia documentos abertos. Fotos antigas. Certidões. Registros. E ali, entre as linhas frias de um passado distorcido, o nome Moretti brilhava como uma ferida exposta.
— Você leu isso?
— Li. Várias vezes. E não sobrou dúvida alguma.
Caminhei até a cama. Peguei o celular. Percorri os arquivos. Cada um era um prego no caixão das mentiras que carregávamos. Ela sabia. Tudo.
— Isso não muda nada — murmurei, mesmo sabendo que era uma mentira frágil demais pra se sustentar.
— Muda tudo. Eu nunca fui bastarda. Vocês me colocaram nesse papel pra me controlar, pra me acorrentar a esse contrato sujo. E o pior: funcionou.
— Você não faz ideia do que está dizendo.
— Eu sei exatamente. Seu pai mentiu para o meu. Aquela aposta... foi uma armadilha. Uma armadilha que você aceitou sem hesitar.
— Você acha que isso te liberta? Que um sobrenome vai te salvar? Isso não é um jogo de xadrez, Ane. É uma guerra. E você está no meio.
— Eu sempre estive no meio — ela respondeu com a voz embargada. — Só não sabia o quanto era usada.
Ela estava tremendo. Mas não de medo. De fúria. E mesmo assim, se manteve em pé. Linda. Forte. Dolorosamente real.
— E agora? O que vai fazer com isso?
— Ainda não sei. Mas saiba que a partir de agora, eu não sou mais uma peça. Eu sou o nome que vocês temeram por anos. E posso usá-lo contra você, se for preciso. — Ela fez uma pausa. — Vou falar com o meu avô. Quero que ele me ajude a me livrar desse contrato.
Soltei o ar devagar. Dei um passo à frente. Ela recuou, mas não muito. E foi suficiente para que eu sentisse o perfume dela me invadir. Aquela mistura doce e amarga. Era como uma d***a que eu nunca consegui largar.
— Ane… seu avô sabe de tudo. Está de acordo com o casamento. Aliás, foi ele quem deu a ideia ao meu pai. Você era a peça perfeita. O sangue dos Moretti unido aos Mancini. Poder. Legado.
— Isso é mentira.
— Não é. Seu avô é um homem de negócios. E negócios exigem sacrifícios. Você só foi o sacrifício que ele soube vender com classe.
Ela me olhou como se tudo nela estivesse sendo rasgado por dentro. Mas não recuou.
— Eu devia ter te afastado desde o começo — sussurrei. — Mas me viciei. No seu olhar. No seu orgulho. No jeito como tenta me odiar, mas o corpo te trai todas as vezes.
— Vai querer me prender? Me manter aqui pra satisfazer o que restou da sua alma?
— Não — aproximei meus lábios da curva do pescoço dela, sem tocá-la. Apenas deixando o calor entre nós incendiar o que ainda nos restava. — Você vai ficar… vai ser por vontade própria.
— E se eu quiser ir embora?
— Vai ter que passar por mim.
Ela me encarou.
E ali, naquele segundo em que o ódio e o desejo se fundiram no olhar dela, eu soube: Ane não ia recuar.
E eu… não ia deixá-la partir.