Capítulo 14

904 Words
Sebastian O silêncio no carro era mais cortante que qualquer grito. Ela não falou uma única palavra durante o trajeto. Mantinha o rosto virado para a janela, o maxilar travado, os olhos secos, mas distantes demais para ignorar. E eu sabia — porque conhecia aquele corpo melhor do que qualquer outro — que tudo nela fervia por dentro. Ane nunca soube esconder o que sentia. O corpo dela sempre falava antes da boca. Chegamos em casa. O motorista abriu a porta, e ela saiu primeiro. Os passos rápidos, quase impacientes, como se estivesse fugindo. Eu, por outro lado, subi com calma. O que nos aguardava lá em cima não era apenas uma discussão. Era o início de um acerto de contas. E, talvez, de uma guerra. Ela foi direto para o quarto de hóspedes. Não hesitei em seguir. Quando empurrei a porta, encontrei-a de costas, o celular nas mãos. Os ombros rígidos. O ar carregado. — Você não tem o direito de agir daquela forma — ela disse, ainda sem olhar para mim. A voz saiu baixa, mas cada palavra cortava como navalha. — Se está falando do garoto da sorveteria… ele teve sorte de sair inteiro — respondi, fechando a porta com calma, sem pressa. O clique seco pareceu ecoar no quarto. Ela se virou, enfim. E por um instante, eu soube. A garota assustada que cheguei a controlar com um olhar… tinha morrido. O que restava agora era outra coisa. Raiva. Orgulho. Decepção. Força. — O nome dele é Jhonatan — ela disparou. — E ele só me chamou pra sair. Nada que você já não tenha feito mil vezes com outras mulheres. — Isso é diferente. — Não, Sebastian. Não é. Você se dá o luxo de brincar com qualquer corpo enquanto espera que o meu esteja trancado a sete chaves. Isso tem outro nome. — Eu controlo essa casa e essa família porque entendo uma coisa: domínio é necessário. — Isso não é domínio — ela jogou o celular na cama com violência contida — é covardia. Cruzei os braços. A tensão escalava, densa, quase sólida entre nós. — Está me chamando de covarde? — Estou te chamando de mentiroso — ela disse, firme. — E agora tenho provas. Me aproximei. Olhei para o celular ainda aceso. Havia documentos abertos. Fotos antigas. Certidões. Registros. E ali, entre as linhas frias de um passado distorcido, o nome Moretti brilhava como uma ferida exposta. — Você leu isso? — Li. Várias vezes. E não sobrou dúvida alguma. Caminhei até a cama. Peguei o celular. Percorri os arquivos. Cada um era um prego no caixão das mentiras que carregávamos. Ela sabia. Tudo. — Isso não muda nada — murmurei, mesmo sabendo que era uma mentira frágil demais pra se sustentar. — Muda tudo. Eu nunca fui bastarda. Vocês me colocaram nesse papel pra me controlar, pra me acorrentar a esse contrato sujo. E o pior: funcionou. — Você não faz ideia do que está dizendo. — Eu sei exatamente. Seu pai mentiu para o meu. Aquela aposta... foi uma armadilha. Uma armadilha que você aceitou sem hesitar. — Você acha que isso te liberta? Que um sobrenome vai te salvar? Isso não é um jogo de xadrez, Ane. É uma guerra. E você está no meio. — Eu sempre estive no meio — ela respondeu com a voz embargada. — Só não sabia o quanto era usada. Ela estava tremendo. Mas não de medo. De fúria. E mesmo assim, se manteve em pé. Linda. Forte. Dolorosamente real. — E agora? O que vai fazer com isso? — Ainda não sei. Mas saiba que a partir de agora, eu não sou mais uma peça. Eu sou o nome que vocês temeram por anos. E posso usá-lo contra você, se for preciso. — Ela fez uma pausa. — Vou falar com o meu avô. Quero que ele me ajude a me livrar desse contrato. Soltei o ar devagar. Dei um passo à frente. Ela recuou, mas não muito. E foi suficiente para que eu sentisse o perfume dela me invadir. Aquela mistura doce e amarga. Era como uma d***a que eu nunca consegui largar. — Ane… seu avô sabe de tudo. Está de acordo com o casamento. Aliás, foi ele quem deu a ideia ao meu pai. Você era a peça perfeita. O sangue dos Moretti unido aos Mancini. Poder. Legado. — Isso é mentira. — Não é. Seu avô é um homem de negócios. E negócios exigem sacrifícios. Você só foi o sacrifício que ele soube vender com classe. Ela me olhou como se tudo nela estivesse sendo rasgado por dentro. Mas não recuou. — Eu devia ter te afastado desde o começo — sussurrei. — Mas me viciei. No seu olhar. No seu orgulho. No jeito como tenta me odiar, mas o corpo te trai todas as vezes. — Vai querer me prender? Me manter aqui pra satisfazer o que restou da sua alma? — Não — aproximei meus lábios da curva do pescoço dela, sem tocá-la. Apenas deixando o calor entre nós incendiar o que ainda nos restava. — Você vai ficar… vai ser por vontade própria. — E se eu quiser ir embora? — Vai ter que passar por mim. Ela me encarou. E ali, naquele segundo em que o ódio e o desejo se fundiram no olhar dela, eu soube: Ane não ia recuar. E eu… não ia deixá-la partir.
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