Ane
Na manhã seguinte, acordei antes do sol alcançar metade da janela.
O quarto de hóspedes ainda tinha cheiro de silêncio e de feridas m*l cicatrizadas. Levantei devagar, sem fazer barulho, tentando reorganizar pensamentos e vontades. Ao sair no corredor, dei de cara com Nana, que já estava acordada e com uma xícara fumegante nas mãos.
— O senhor Sebastian saiu cedo — disse com aquele tom neutro que só ela conseguia manter, mesmo quando carregava uma avalanche nos olhos. — Disse que tinha compromissos no escritório. A senhorita Vittoria ainda dorme.
Assenti, tentando disfarçar o alívio que senti. Não estava pronta para encarar nenhum dos dois.
Tomei um banho rápido, vesti meu jeans preferido, um moletom discreto e prendi o cabelo num r**o de cavalo baixo. Peguei minha mochila e segui para a faculdade.
Os seguranças já me esperavam na porta, como cães treinados. Não falei nada. Só entrei no carro e me mantive em silêncio o trajeto inteiro. Durante a prova, tentei focar — e até consegui — por alguns minutos. Mas a imagem de Sebastian com aquela mulher ainda invadia meus pensamentos como um veneno lento.
Quando saí da sala, respirei fundo ao ver Sofia e Diego me esperando na saída, com sorrisos cúmplices e preocupados.
— Vamos tomar um sorvete? — sugeri. — Eu preciso... respirar.
Eles concordaram na hora. Fomos até a sorveteria do bairro universitário. Mas, antes de entrarmos, me virei para os seguranças com firmeza:
— Aqui dentro, vocês ficam a uma boa distância. Não quero parecer sequestrada por gorilas.
Hesitaram, trocaram olhares, mas acenaram com a cabeça e se afastaram até um ponto de observação mais discreto.
Me sentei com Sofia e Diego numa mesinha de canto. Pedi um sorvete de pistache, meu favorito, e, com a primeira colherada, tentei esquecer tudo. Mas não durou muito.
— Eu vi o Sebastian com outra ontem — confessei, quebrando o silêncio.
Sofia e Diego pararam de mastigar na mesma hora.
— Como assim, “com outra”? — Diego franziu o cenho.
— Aos beijos. No escritório dele. Como se eu não existisse.
Sofia arregalou os olhos. — Esse homem é um canalha!
— Um monstro — Diego completou. — Você tem que sair disso. Seu avô pode te ajudar, Ane. O nome Moretti tem peso demais. Ele pode tirar você desse acordo ridículo.
— Eu pensei nisso — admiti, mexendo no sorvete, agora derretendo. — Mas… e se meu avô já soubesse de tudo? E se ele estiver de acordo com esse jogo? Eu não sei mais em quem confiar.
Ficamos em silêncio por um instante, até que decidi levantar para pagar a conta.
Na fila do caixa, um garoto alto e bonito, com o uniforme do time de rúgbi da faculdade, sorriu para mim.
Jhonatan.
O mesmo garoto que sempre admirei de longe, mas nunca ousei sequer conversar.
— Ane, né? — disse ele, se aproximando com um sorriso encantador. — Te vi na arquibancada na semana passada… quer sair comigo qualquer dia desses?
Por um segundo, meu coração acelerou. Ele era lindo. Sempre achei. Sempre quis.
Sorri de volta, sentindo algo que há dias não sentia: liberdade.
— Vou ter que recusar… por enquanto — respondi, brincando. — Mas quem sabe numa próxima?
Ele riu, tranquilo, e lançou um olhar sugestivo:
— Eu vou cobrar.
Voltei à mesa e Diego imediatamente me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
— E aí? O que foi aquilo?
— Jhonatan me chamou pra sair — confessei, rindo sem graça. — Mas recusei. De leve.
— Você é louca? — Sofia sussurrou, se inclinando sobre a mesa. — Sebastian pode m***r esse garoto só por ter falado com você!
— É assim que funciona na máfia, Ane — Diego concordou. — Ele não vai pensar duas vezes.
— Se ele fizer algo com Jhonatan… — respirei fundo, firme — …eu fujo. De verdade. Largo tudo. Ninguém tem o direito de me prender assim. Ninguém.
Sofia me olhou com um misto de preocupação e orgulho.
— Então começa a se preparar. Porque Sebastian Mancini não gosta de perder.
A colher caiu no fundo do meu copo de sorvete com um estalo s***o.
E naquele momento, soube: eu estava pronta para desafiar o jogo.
Mesmo que isso me custasse tudo.
Sebastian
O telefone tocou no meio da tarde. Um dos meus seguranças me informou onde Ane estava. Sorveteria no centro da cidade, com os amigos da faculdade. Segundo ele, ela havia pedido que mantivessem distância, algo que já me pareceu incômodo demais. Não que eu tivesse motivos legítimos para interromper sua tarde — além do óbvio: eu era um homem à beira do colapso, e ela era a única razão disso.
Decidi passar por lá. Estava a caminho de casa para buscar alguns papéis importantes, e a ideia de vê-la — mesmo de longe — foi incontrolável. Eu precisava confirmar com os próprios olhos que ela ainda estava ali. Que ainda era minha.
O carro estacionou discretamente do outro lado da rua. Fiquei observando de longe. Ane estava sentada em uma mesinha de canto, o sol da tarde aquecendo sua pele como se o mundo ao redor ainda fosse um lugar inocente. Ria com Sofia e Diego, relaxada, leve demais. A colher de sorvete dançava entre os dedos e o som da sua risada ecoava até onde eu estava. Linda. Intocada. Como se não tivesse passado a noite anterior me desafiando com os olhos enquanto o corpo tremia de desejo só por eu me aproximar.
Mas então ele apareceu.
O garoto com a camiseta do time de rúgbi. Alto, sorriso fácil, o típico i****a que acha que o mundo gira em torno do próprio charme. Ele se aproximou quando Ane estava sozinha no caixa. E foi o que bastou. Eu vi tudo. O sorriso dela. O olhar longo. A resposta demorada. Não precisava ouvir as palavras — o corpo dela dizia tudo. Ela gostou da atenção.
E aquilo… foi o suficiente.
— Dê a volta — ordenei, em voz baixa, para o motorista.
O carro contornou a quadra lentamente. Desci antes mesmo que parasse por completo. Entrei na sorveteria sem aviso, como uma tempestade silenciosa. Não fiz alarde. Mas todos perceberam.
Meus olhos encontraram os dela no mesmo instante.
A colher parou no ar. A risada morreu. O corpo enrijeceu. Ane congelou ao me ver. Não era medo. Era algo pior: o reconhecimento de que eu havia visto demais.
Atravessei o salão em silêncio. Sofia e Diego me olharam, mas não ousaram dizer nada. O garoto, por outro lado, ainda sorria, como se tivesse alguma chance.
— Ane — falei, a voz cortante, fria. — Lá fora. Agora.
Ela me encarou, o queixo erguido com falsa firmeza.
— Eu estou com meus amigos.
— E já se divertiu o suficiente — rebati, me aproximando até que nossos corpos quase se tocassem.
— Eu não sou sua posse, Sebastian.
Ela não sabia o quanto me irritava e excitava quando falava assim.
— Talvez você precise de um lembrete do que você é.
Sofia e Diego se levantaram, mas bastou um único olhar meu para que parassem. Eu não precisava de palavras. Eu era o tipo de homem que se impõe com presença. E todos ali sabiam disso.
Jhonatan tentou intervir, como o bom herói i****a que provavelmente sonhava ser.
— Algum problema aqui?
Olhei para ele como quem já planeja um enterro. O olhar foi suficiente para desfazer qualquer valentia.
— O problema vai ser se você tocar nela de novo.
— Eu só estava...
— Não me interessa.
Antes que Ane pudesse dizer qualquer coisa, segurei seu pulso. Não com violência, mas com firmeza. Um toque que carregava tudo o que eu era. Domínio. Controle. Pertencimento.
Ela tentou recuar. O corpo hesitou. Mas no fundo, ela sentia. O sangue dela respondia ao meu toque com o mesmo calor que queimava o meu.
— Se você fizer alguma coisa com ele... — ela sussurrou, sem conseguir disfarçar o tremor na voz.
— Eu não preciso fazer. Só preciso que ele saiba — murmurei, quase com crueldade. — E agora ele sabe.
A puxei comigo, guiando-a para fora da sorveteria.
Quando entramos no carro, fechei a porta com firmeza. Me sentei ao lado dela. Disse apenas uma palavra ao motorista:
— Dirija.
Não importava o destino. Eu só precisava de espaço. Do silêncio dela. Do calor ao meu lado.
No banco de trás, a tensão era sufocante.
— Você me expõe — falei, a voz baixa, grave. — Me tira do controle. Depois reclama do monstro que acorda.
Ela me olhou com uma raiva tão intensa que queimou minha pele.
— Você me prende, me trai, me destrói... e ainda quer mandar em quem eu converso?
— Não. Eu sei que posso mandar — me aproximei, o rosto perto do dela, o hálito quente tocando sua pele. — E você sabe disso.
Ela estremeceu.
— Isso não é amor, Sebastian.
— Eu nunca prometi amor.
— Então o que você quer de mim?
Rocei os lábios na curva de sua mandíbula. Não beijei. Apenas toquei.
— Tudo.
Ela fechou os olhos. Lutou contra o que sentia. Mas falhou. Seu corpo me queria tanto quanto sua mente me odiava. Era isso. Ela estava presa. Não por algemas. Mas por mim.
Por tudo o que eu era.
Veneno.
Vício.
Condenação.
E ela estava a um passo de se entregar de novo — mesmo sabendo que isso a destruiria.