A Kim falou que tinham boas chances, que ela ia estudar melhor o caso no dia seguinte, perguntou se a Rebeca já havia visto algum familiar alguma vez, avó, tio. Ela disse que não e que nem tinha interesse neles. Conversaram um pouco sobre as leis e burocracia e foram dormir.
Na manhã seguinte, a Rebeca levantou antes de todos, se trocou e foi correr dentro do condomínio, voltou pra casa e deitou no chão perto da piscina nos fundos, no sol. Quando o Ramon levantou, fez café e saiu levar pra ela, se abaixou e falou reparando na pele avermelhada dela:
— Oi, bom dia, trouxe café.
Ela se sentou, tirou os fones e os óculos escuros, disse olhando pra piscina:
— Obrigada.
Ele perguntou se ela estava bem. Ela disse com indiferença:
— Aham.
Ele ficou olhando pra ela um pouco, logo falou que as coisas iriam mudar e que eram sérias, que, independentemente dos rolos dela com o Noah e a Kim, ela devia pensar muito bem se queria entrar naquele meio e investir o dinheiro dela. Ela sorriu irônica, disse o encarando:
— É, eu vou fazer tudo isso. Tá preocupado? Em eu virar alguém como você? A diferença é que eu não tenho família, filho, nada a perder, eu vim de baixo e sem nada, então.
Ele respondeu com estranheza:
— Você tá falando sério? É claro que está, você gosta, não é? Da agitação e dos perigos, assim como gosta de ser desejada e fica flertando o tempo todo com quem cruza seu caminho.
— Ainda que difícil de ver, com esse seu escudo, cada vez mais eu vejo você.
Ela olhou pra ele, sorriu e falou debochando, com os olhos de quem queria dizer muito:
— Eu às vezes acho que vejo você.
Ele não entendeu de fato o que aquilo significava e respondeu irritado:
— Sabe que eu tenho paciência até demais com você? Se fosse outro, ia te mandar pra p.u.t.a que pariu e te mandar ir pra casa do c.a.r.a.l.h.o!
— Eu sou legal, mas não sou t.r.o.u.x.a, sempre fico atrás de você tentando te ajudar porque eu me preocupo e nem quero mais nada com você, se é isso que está pensando, eu tô bem de boa, e se você continuar me atacando assim, chamando de mentiroso, duvidando de mim, nem a sua amizade vou querer.
— É fácil apontar os erros dos outros e não ver os seus próprios, né? Desde que você chegou, mente e não é pouco, então não vem pra cima de mim agindo como se fosse superior e muito diferente. Nesse mundo nos tornamos quem devemos ser!
Ela ouviu tudo calada e ficou séria, se levantou, foi na cozinha e subiu para o quarto, com muita raiva, quando disse "as vezes acho que vejo você", se referiu a gostar muito dele, assim como dizia para o Neto: Eu vejo você! Como se fosse: Eu te amo. Ficou muito frustrada, com o Ramon, chateada.
Só saiu do quarto quando estavam indo embora pra casa, só estavam lá a Kim e o Toni. A Rebeca falou só o necessário, foi dirigindo o trajeto todo. No meio do caminho, a Kim tentou puxar assunto, falou que precisava ir no banheiro e aproveitou para comprar doces. A Rebeca ficou no carro esperando, não comeu nada. A Kim falou achando ela diferente:
— Tá preocupada em conhecer a sua família?
Ela só balançou a cabeça que não. Depois, ao chegar em casa, a Iolanda recebeu eles, disse que a comida estava quase pronta. A Rebeca foi se fechar no quarto um pouco, tomou banho, não almoçou e disse que ia sair, ir na academia, pegou o carro da Kim sem dizer nada e saiu.
Ela foi na casa da Lara, não tinha ninguém lá, foi para o apartamento que alugou, ficou deitada lendo um livro, mandou mensagem para o Tato perguntando se ele estava afim de sair.
Ele demorou pra responder, ela mandou uma mensagem para o Pablo, perguntando sobre uma música que ele estava cantando outro dia. Ele mandou a música e não puxou assunto.
Entediada e querendo se ocupar, ela puxou assunto, disse que estava em casa e que m*l podia esperar para voltar à praia. Ele falou que estava longe, viajando a trabalho, e que também estava ansioso pela praia. Ela mandou:
"Só pela praia?"
Ele respondeu:
"👍 É, porque ela não foge de mim"
Ela mandou um áudio:
— Quem fugiu dessa vez foi você, é algum tipo de vingança? Você é rancoroso?
Ele ligou pra ela, disse que era muito vingativo, mas que abria exceções para mulheres bonitas. Conversaram um pouco, ele contou que estava fazendo a instalação de uma empresa nova do tio dele fora do Brasil e ela contou que tinha umas coisas pra resolver na Justiça, falou da história da Julie.
Ele deu atenção, fez perguntas, disse que sentia muito. Depois de desligar, ela viu que o Tato tinha respondido, foi buscar ele e foram ao shopping fazer compras. Ela queria roupas pra ir na audiência, ouviu os conselhos dele e comprou vestidos elegantes, saias lápis, camisas sociais, com detalhes e bordados, pérolas, transparências sutis, tudo muito bonito, delicado, de marcas boas, cinco sapatos de salto alto, uma bolsa de mil reais, lingeries novas, um perfume diferente.
Ela gastou mais de dez mil reais de uma vez, tudo no cartão da Kim. O Tato ficou curioso, intrigado, fazendo perguntas. Ela disse brincando que era dinheiro dela da herança. Indignado, ele a confrontou:
— É sério mesmo, Beca? Você anda estranha, não era assim quando a gente se conheceu, sei lá... Não fica brava comigo, eu só queria saber quem você é de verdade.
Ela disse séria:
— É verdade, eu recebi um dinheiro do meu pai, já te falei isso. Quer uma camiseta pra você? Um boné? Quero te dar um presente, qualquer coisa.
Ele não acreditou muito, respondeu irônico:
— Tá achando que vai me comprar? Sou um p.u.t.o bem caro!
Ela disse que era pra ele escolher alguma coisa, ele recusou, mas depois foram comer em uma padaria caríssima, em que a coxinha era mais de vinte reais. Tato comentou que estaria sempre ao lado dela, com ou sem dinheiro, pediu pra ela não ficar sofrendo calada, guardando tudo pra si.
Já era final do dia e a Kim tinha ligado e enviado mensagens, perguntando se ela ia demorar, pediu pra ela passar no mercado, mandou uma lista de compras. A Rebeca guardou quase tudo novo no apartamento e foi embora.
Ao chegar, já viu um carro de visitas, já entrou apreensiva. Os pais do Noah estavam lá e ele também, todos na sala conversando. Ela entrou pelos fundos, ficou na cozinha. A Iolanda falou com deboche:
— Vai ficar aqui como um rato escondida até quando? Eles vão ficar para o jantar.
A Rebeca falou desanimada:
— Tá a fim de ficar chapada? Tomar uns drinks?
Com estranheza, a Iolanda olhou pra ela e respondeu:
— Bateu com a cabeça, foi, menina? Eu, hein, até parece que vou chegar ao nível de ser amiga sua. Suma da minha cozinha ou vou te colocar pra lavar louça, gata borralheira!