A Rebeca revirou os olhos, ficou roendo unha. Deu pra ouvir que estavam saindo pra fora e que tinha chegado mais alguém. Ela aproveitou e subiu correndo para o quarto, tomou banho e colocou roupa de sair, um conjunto de moletom preto da Nike, tênis, passou só um gloss e deixou o cabelo solto, molhado.
Quando ela desceu, eles estavam na sala jogando com o Toni, brincando. Ela disse boa noite educadamente enquanto se aproximava da porta em direção a saída. Eles responderam. A Eleonora falou com ironia:
— Achei que não íamos te ver, faz muito tempo que a gente não se encontra, eu cheguei até a pensar que você estava me evitando.
A Iolanda estava chamando eles pra jantar, foram se levantando, indo pra mesa. A Kim se aproximou da Rebeca, falou baixinho:
— Onde você estava? Eu te mandei mensagem, várias, vem jantar! Logo eles já vão.
Olhando fixamente para fora, a Rebeca falou:
— Não, eu vou sair. Você pegou a chave do Civic?
Confusa, apreensiva, a Kim falou que sim, segurou na mão dela sutilmente, perguntou onde ela ia. A Rebeca falou segurando a mão dela com firmeza:
— Me dá as chaves, vou encontrar o Tato, cansei do seu carro, é muito careta pra mim.
A Kim pegou em uma gaveta, na sala mesmo. O Toni correu até elas falando que estavam esperando elas pra comer. A Rebeca abraçou ele, disse que ia precisar sair, mas que tinha ideias ótimas para os dois brincarem de construção no dia seguinte. Ele falou animado:
— Ebaaaa, sério? Promete?
Ela disse carinhosa com ele:
— Sério, promessa é dívida, hein! Vai lá levar sua mãe pra comer, o bebê dela está com fome, tenho certeza disso.
Ele disse arrastando a Kim pela mão:
— É mesmo, esse meu irmão sente muita fome!
A Rebeca aproveitou, foi saindo de mansinho, foi para a garagem, abriu o carro que era dela, entrou dentro nostálgica, pensativa, acariciou o volante, o banco, abriu o capô, começou a mexer, foi verificando água e óleo. O carro não quis ligar as duas vezes que ela tentou.
O Ramon chegou na garagem falando que tinha desconectado um cabo. Sem falar nada, ela saiu do carro, foi mexer e resolveu sozinha, entrou e ligou, ignorando ele totalmente. Ele encostou na porta que estava aberta, falou impedindo ela de fechar:
— Não sabia que você entendia dessas coisas, vai sair?
Ela estava ligando o som, pegou o celular e começou a mexer, conectando, colocou pra tocar uma música em inglês que era meio agressiva, falava sobre estar com raiva. Ela pediu licença e olhou séria. Ele falou curioso:
— Você não faz ideia do que a música fala, né?
Ela estava digitando uma mensagem, respondendo o Pablo. O Ramon cantou um trecho em inglês junto com a música. Ela falou a tradução daquela parte:
— Eu nunca posso fazer o suficiente, eles estão sempre pedindo muito.
Ele disse que a Aisha gostava daquela música. Ela respondeu:
— É, eu sei, você pode sair do caminho?
Ele se afastou brincando com os cachorros. Ela tirou o carro e saiu, foi no mercado comprar as coisas da lista, voltou ao shopping comprar uns livros e foi ao cinema, sozinha, com um pouco de receio por não saber fazer aquilo muito bem. O filme era de comédia romântica e ela achou muito bom, ficou curiosa pra ver os anteriores dele.
Se sentindo muito ansiosa, antes de ir pra casa, ela resolveu correr um pouco sozinha mesmo. Era como se encontrar no mundo e parar tudo, os pensamentos eram todos para o carro e a pista, simples assim, todo o resto deixava de existir e aquilo era muito bom.
Ao chegar em casa mais aliviada, ela concluiu que deveria fazer aquilo mais vezes e viver um dia de cada vez, priorizando o momento. Na verdade, ela nunca foi de ficar fazendo planos e nunca teve muitas expectativas pra vida. Ela foi pegando as sacolas e demorou um pouco para entrar. A Kim estava na sala, deitada embaixo de um cobertor, assistindo e mexendo no computador, falou para a Rebeca:
— Oi, você demorou. A gente tem que conversar! Amanhã, depois da audiência, vamos ao fórum.
A Rebeca falou que ia guardar as coisas e que já voltava, demorou um pouco na cozinha. Quando voltou à sala, a Kim não estava lá, ela subiu atrás e ouviu ela conversando com alguém no celular, rindo e falando que estaria ocupada no dia seguinte. A pessoa queria vê-la, ela disse duas vezes que estava muito tarde e que não dava, falou pra onde iria e fazer o quê, comentou da audiência, falou de burocracia e leis, como se a pessoa ao telefone entendesse.
Curiosa e sorrateira como sempre, a Rebeca ficou ouvindo atrás da porta. A Kim não disse nada demais, embora fosse possível notar o tom de voz afetuoso e as risadas, que há muito tempo ela não dava.
Quando ela estava se despedindo, a Rebeca correu para o quarto dela, ficou disfarçando, mexendo no celular. A Kim foi até lá, disse que estava com sono e que iriam sair muito cedo no outro dia, pra viajar. A Rebeca falou:
— Tá bom, eu comprei uma camisa, posso te mostrar? Eu não sei se vou de calça ou saia!
Surpresa, a Kim falou:
— Aham, claro, leva umas coisas, talvez vamos dormir por lá, fiz reserva pra gente em um hotel e já mandei o Toni pra casa da Eleonora. Separou os documentos? Tudo o que você tem?
A Rebeca respondeu mexendo no guarda-roupa:
— Sim, tá tudo em uma pasta. Tem essa calça e essa saia nova, vou pôr aquele sapato preto com o solado vermelho.
A Kim se aproximou, foi juntando as roupas em cima da cama, montando os looks, falou que ia ajudar com a mala, foi pegar uma mala no quarto dela e voltou. A Rebeca foi pegando as roupas e a Kim arrumando na mala, deixou no cabide o que ela usaria cedo, pegou no quarto uma máscara facial de lencinho, importada, e falou que era pra Rebeca usar cedo antes de se arrumar.
Elas quase não conversaram enquanto arrumavam as coisas. Antes de sair do quarto, a Kim ofereceu umas gotas de calmante pra Rebeca dormir melhor, ela aceitou, agradeceu e foi deitar. A vontade da Kim foi de pôr ela na cama, como sempre fazia, beijar, abraçar e demonstrar carinho, mas ela preferiu não fazer isso pra evitar qualquer atrito, era nítido que a Rebeca estava nervosa com o que estava por vir.
No dia seguinte, levantaram muito cedo, de madrugada praticamente. A Rebeca m*l conseguiu comer, usou a máscara, tentou escovar o cabelo, fez maquiagem, levou o batom mais vermelho-sangue que tinha, pra passar depois. Ela foi dirigindo e a Kim mexendo no celular, conversando, fez muitas perguntas sobre a infância dela. A Rebeca deu respostas vagas, mentindo como sempre, logo falou muito séria:
— Eu vou te contar tudo, mas eu juro por Deus que, se você usar qualquer coisa disso contra mim, pra me prejudicar, eu acabo com a sua vida e com a minha. Você pode me humilhar, jogar na minha cara que eu não tenho nada, mas olha só, Doutora Kimberly, eu não tenho nada a perder realmente e você tem muito.
— É a única coisa que eu tô te pedindo, pra me ajudar com a exumação do meu pai e eu quero justiça, essa mulher nunca me deu nada e nunca se importou comigo. O que eu puder fazer pra prejudicar ela, eu vou! Você entende muito mais do que eu de leis, estudou pra isso, então me ajuda!