Muito sentida, com os olhos cheios de lágrimas, a Kim falou:
— Eu nunca vou usar nada disso e nem quero te prejudicar, serei eternamente grata a você e essa dívida não tem dinheiro no mundo que pague. Eu andei pensando e já sei o que vamos fazer, primeiro exigir seus direitos e reconhecimento de filha, de ambos, fazer exame de DNA e parar o processo dela.
— Com certeza ela vai se aproximar e contar histórias, você precisa ouvir, eu sei que é difícil e com certeza você nem quer saber de nada, mas tudo o que ela falar podemos usar contra ela, e você não fale quase nada, deixa ela com as conclusões precipitadas.
Rebeca respondeu roendo as unhas:
— Meu pai nunca me disse que tinha boas condições, quando eu comecei a entender as coisas, ele me explicou que eu era diferente dos outros e que eu não podia contar nunca a ninguém.
— Como o Neto não tinha mãe, eu não sentia tanta falta, até começar a ir pra escola, então eu achava que semanalmente conversava com a minha mãe por ligação, eu recebia presentes às vezes, cartas, sempre achei que ia ficar com ela quando crescesse e soubesse guardar meu segredo, mas quando fiz dezesseis, dezessete anos, o contato foi diminuindo, ela ligava cada vez menos.
— O Neto se afastou e eu comecei a questionar mais as coisas, brigando com meu pai, que sustentou as mentiras. Logo eu fui vendo o Neto com outros olhos, descobrindo as coisas e decidi engravidar, porque meu pai disse que ia me mandar pra longe, talvez sozinha, íamos recomeçar, morar e trabalhar com uma amiga dele, eu não queria perder a única pessoa que eu tinha e pensei que, se o problema era ser especial, engravidando aquilo ia acabar.
— Minha amiga da escola engravidou na adolescência, eu não sabia como era direito, mas pensei que se pegando já acontecia, e foi difícil parar com as coisas que a gente fazia, era gostoso e eu nunca tinha ficado com ninguém, mas tudo começou a dar errado.
— Eu ajudei a Aisha e o Noah, nunca tinha feito intencionalmente, não sabia como funcionava o dom, eu só sabia que era pelo toque e que os sentimentos fortes ajudavam.
— A Aisha estava sendo muito legal comigo e minha única amiga de verdade, eu soube que ela estava doente, mas na verdade estava meio doida, tomando remédios, usando porcarias, sei lá.
— O Noah me levou até a casa deles, ela estava desmaiada, dopada, fiquei assustada, confusa, depois dei banho nela, de propósito, tentando tirar o m*l-estar, funcionou, mas isso me rendeu uma anemia profunda e dias no hospital.
— Por ser tão humilde, lá todos achavam que eu passava fome e que sofria maus-tratos, meu pai sabia que eu tinha feito algo assim, ficou bravo, falando de ir embora, continuei investindo no Neto e eu queria uma vida com ele, a nossa vida, de sempre.
— Depois ajudei o Noah, fui pedir dinheiro pra ele na Arena, emprestado, eu disse que queria um modo de ganhar dinheiro rápido, mais de um salário, a gente discutiu porque ele queria saber o motivo de eu querer tanto dinheiro e disse que podia me ajudar com médico, essas coisas.
— Ele achou que eu estava doente ainda, eu estava em um dia péssimo, falei coisas ruins e ele respondeu à altura, me ofendeu muito, mas, antes que você pense bobagem, nunca aconteceu nada entre a gente, eu só falava com ele pra saber da Aisha.
— Eu era louca e cega pelo Neto, e o dinheiro era pra eu fugir, procurar minha mãe. Falei que preferia morrer do que me vender, e que, se ele ia falar qualquer coisa do tipo, era melhor se calar.
— Ele ficou, tipo, muito bravo, disse que eu não valia tanto e que uma p.u.t.a, tipo garota de programa, dava de dez a zero em mim, por menos da metade do dinheiro que eu estava pedindo.
— Hoje eu entendo que ele se ofendeu, mas na época não soube ver isso. Fui embora com muita raiva, mágoa, eu sempre ia andando e morava no sítio, dava até uma hora ou mais, estava chovendo muito, um temporal, e eu parei um pouco com medo dos raios e trovões.
— Vi os carros se aproximando de longe e me escondi no mato, fiquei espiando e vi tudo, bateram nele e largaram lá quase sem pulso, eu só sabia sentir porque o Neto adorava brincar de coisas assim e falar de doenças, crimes, coisas de menino, eu não pude ser simplesmente indiferente e largar ele lá pra morrer, não sabia se ia dar certo ou o que ia acontecer comigo, mas me aproximei.
— Toquei ele e a raiva toda que estava dentro de mim ajudou, ele logo se mexeu, pareceu estar despertando, m*l podia me ver, coberto de sangue e todo desfigurado.
— Com dificuldade, coloquei ele no banco de trás e deixei no hospital, saí do carro, chamei um senhor que passava e dei a entender que vi por acaso, foram socorrer ele e eu fui embora, andei por horas na chuva, de madrugada, passando m*l e desmaiei no quintal de casa.
— Meu pai me socorreu cedo, quando me encontrou, e me escondeu até eu me recuperar, eu não pude ir ao hospital porque fiquei cheia de hematomas e iriam achar que alguém tinha me machucado, peguei uma gripe muito forte também e achei que ia morrer, de tanta dor, foram os piores dias da minha vida, só não pior do que quando meu pai morreu.
— Depois de semanas, vi o Noah na Arena e fiquei com medo dele se lembrar de algo, mas logo o medo passou, eu estava achando que ele podia ter morrido até, a Aisha sumiu e eu usava o celular do Neto pra conversar com ela, depois eu cheguei a conversar com o Noah sobre ela e eu tive certeza que ele não se lembrava.
— Mais de uma vez ele provocou o Neto só de birra, fazendo a gente brigar, isso é uma coisa que eu não suporto nele, essa mania de pirraças, então eu parei de perguntar da Aisha.
A Kim estava prestando muita atenção, falou com estranheza:
— E por que você acha que ele estava justamente no caminho da sua casa? Acha que foi coincidência?
Rebeca falou irritada:
— É, por que mais seria? Eu já te disse que nunca aconteceu nada entre a gente.
Kim respondeu séria:
— Não era atrás de você que ele estava indo e essa implicância com o Neto não é à toa.