Capítulo 16

1205 Words
A Rebeca falou sem entender: — O quê? Por que ele estava indo atrás do Neto? Ele nem estava em casa, ficou viajando por muito tempo. A Kim respondeu pensativa: — Não, ele estava indo atrás do Célio, eles sempre fizeram negócios, peças roubadas, distribuição de contrabando, rolos com carros guinchados. — Há muitos anos dava super certo, todos saíam ganhando, você devia ser bem pequena, quando o Noah e o Ramon iam lá de vez em quando. — Acha que o Célio mantém aquela casa catando papelão? Ele subiu rápido e tomou gosto pelo dinheiro, ainda não tinha perdido a esposa e a tratava como rainha, disso eu sei porque uma vez vi eles em uma das festas, ele deu uma joia a ela e dançaram a noite toda, eu ficava lendo as pessoas nas festas, quando eu não podia beber e fazer qualquer coisa legal. — O pai do Noah nunca foi flor que se cheire, o meu também não, mas de maneiras diferentes, o dele jogava sujo, corrupção, ameaças, e o meu só roubava gente como a gente, é difícil explicar, são muitas coisas. — Depois de sair da polícia, o Célio foi mudando de ideia, ajudando cada vez menos, acho que ele tinha medo pelo Neto, sei lá, talvez ser preso. A Rebeca falou perplexa: — Agora algumas coisas fazem sentido. — Não era com a minha mãe que eu conversava, era com uma ex-namorada do meu pai, ela queria me ver e contar a verdade, mas meu pai ia esperar eu ter dezoito anos. — Tudo saiu do controle, fui sabendo das coisas pela Suzan, quando eu fugi antes de te conhecer, fui pra casa dela e ela me contou toda a verdade, foi como uma mãe pra mim a vida toda, mesmo longe, e agora ela tá com o Célio e isso me irrita, não suporto a ideia de não poder confiar nela, não é como não confiar em você. É diferente! A Kim disse chateada: — Você não está sozinha, e as pessoas são falhas, como eu e você, a gente erra, magoa uns aos outros e tá tudo bem, chega de fugir e de brigar. — As coisas mais importantes na vida não estão à venda, confiança, amor, carinho, sinceridade, honestidade, por isso eu te recebi e te acolhi. — Depois que o pai do Noah teve um infarto, as coisas começaram a mudar, os mais chegados perderam a confiança, achando que a qualquer momento podiam ter prejuízo, o Noah assumiu os negócios, as boates, e claramente ele não serve pra isso, porque se acha um rei e não abaixa a cabeça pra ninguém, só de imaginar que ele ia estar no comando, foram caindo fora. — O Célio foi um deles, já tá com a vida ganha, acha que não precisa mais se meter em sujeira. A maioria dos negócios funciona com porcentagem, é melhor cinquenta por cento de algo do que cem por cento de nada, mas o Noah não vê assim, não sabe ceder e nem agir com cautela, briga com todo mundo e vai dificultando as coisas. — Do mesmo jeito que ele aceita fazer as coisas para o Kobayashi enquanto a gente não quer mais! — Roubar de pobre é moleza, mas de rico é difícil, porque eles não têm limites, várias vezes roubamos coisas pra agradar o velho e prejudicar pessoas, não só pelo valor de fato. A Rebeca perguntou se o Noah sabia quem tinha batido nele, se foi o Célio ou alguém a mando dele. A Kim falou: — Ele não age assim, quem fez isso sabia que a gente estava vulnerável, o Noah precisava de ajuda pra pegar umas coisas e pagar uma dívida, ia falar com o Célio pessoalmente porque ele não o atendia mais, ele só queria se desligar. — Com o susto, o pai do Noah foi resolvendo as coisas pendentes, sei lá, a gente achava que sabia quem foi, mas hoje não parece que faz mais sentido, acho mesmo que fomos traídos. — Quando pegaram o Daniel, foi uma fatalidade o estado que ele ficou, homens são assim, violentos, focamos nas pessoas erradas e fomos nos vingar, queimando as lojas dele, dando prejuízo, que é onde mais dói neles, mas não parou por aí, a gente não sabe muito bem em quem confiar. — O Ramon tá conversando com uma pessoa que trabalha na polícia, por causa da ostentação do Armando e da Kiara, junto com aqueles traficantes, agora o hotel é um alvo de investigações e, por causa da má administração, está falindo, não podemos simplesmente pôr dinheiro nosso lá, sem lavar não dá e, pra lavar, é preciso perder um pouco, eu tenho imóveis em vários lugares. — Mas não são coisas que se vendem rápido, o mais em conta é, sei lá, quinhentos mil e estão alugados com contrato, leva até um ano ou mais pra vender imóveis assim, tem a papelada, os advogados, é muito complicado. — Por isso seria mais viável vender ou entrar em sociedade, fazer um empréstimo justificável, enfim, às vezes eu acho que seria melhor vender, mas é o que meus pais mais amavam e a Kiara também, eu tô cansada, quero parar com tudo, chega de roubos e mortes e de viver com medo, levando uma vida secreta atrás de muralhas e discrição. — Meus pais foram mortos, sabia? O acidente não foi só acidente, não quero isso pra mim, tenho o Toni e o meu bebê, quero viver em paz! — A Kiara é outra pessoa desde que conheceu o Armando e ela não vê as coisas, defende ele a qualquer custo, às vezes eu acho que, sem os negócios em comum, não vamos mais nos ver e conviver, ela é minha irmã e eu amo ela, mas não é fácil, está sem falar comigo porque queria ir viajar para os Estados Unidos, ganhar neném lá, e eu fui contra, o Noah bateu no Armando no meio da reunião. — Ele também não está falando comigo porque eu pedi ajuda a um amigo da família, que ele não gosta, tá todo mundo contra mim, o Ramon também não concorda com as minhas decisões e já disse que não vai muito longe pra me ajudar, porque já está correndo riscos demais e, apesar de gostar muito de mim, tem o Ben, a Lara, a família dele. Ela começou a chorar falando, ficou quieta um tempo e disse retocando a maquiagem: — Mas não viemos aqui pra isso, acho que você já está com a cabeça bem cheia, vamos resolver isso e colocar sua mãe no lugar dela, ela vai se arrepender de não ter te criado e vai ficar boba de ver o que perdeu, porque você é a filha que qualquer um se orgulharia de ter, desde que não soubesse do seu lado marginalizado, embora eu goste disso em você, sabe atirar, bate em homem, gosta de correr perigo, andar fora da lei. — É uma princesa. A Rebeca estava dirigindo, sorriu, disse irônica, esticando a mão, colocando em cima da perna da Kim: — É claro que gosta! Você tá bem? Já faz um tempo que não te toco, me dá sua mão!
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