Ela disse que não queria fumar, de noite talvez. Ele começou a criticar o Pablo, disse que ele era preconceituoso. Ela falou rindo:
— Mas é um dotozo, não é? Por que você tá falando isso? Ele só te viu pegando a amiga dele.
Ele disse que essas coisas davam pra sacar pelas conversas, pediu para ficarem só os dois um pouco, aproveitar a viagem, sair, curtir, relaxar. Ela respondeu:
— Ataaaaa, você passa a noite com a garota e agora vem me dizer que quer sair, relaxar comigo, sendo que o Pablo e eu não estamos conseguindo ficar e nem fizemos nada direito ainda.
O Tato falou curioso, massageando os pés dela:
— Nada? Como você aguenta falar não pra um homem daqueles? Se você não fizer, outra vai fazer, infelizmente é a lei da vida.
Ela disse chutando ele, brincando:
— Você é péssimo, sabia? Não rolou, ele fez umas coisas comigo, mas eu não sei, tipo, você não entende! Ele é gentil e carinhoso, dormir com ele é muito bom, eu gosto demais.
Ele disse rindo:
— Dá pra especificar melhor? Tô na dúvida!
Envergonhada, ela falou:
— Teve carinho, a mão lá, eu deixo ele me tocar às vezes, só isso. Sou muito insegura!
O Tato falou com deboche:
— Sei, por que você não foi insegura com o outro lá?
Ela sorriu se lembrando de coisas, falou nostálgica:
— Com o Ramon? É diferente! Ele sabe tudo de mim, como eu sou, de verdade.
O Tato respondeu:
— Você tem que se decidir, porque claramente é afim dele e, se confia nele e no Pablo não, por que tá com um e não com o outro?
Ela disse irônica, levantando:
— Não confio no Ramon, em ninguém, na verdade. Vamos sentar ali fora? Eu amo as janelas daqui. A vista toda!
Eles foram sentar na sacada, começaram a fumar, falando das casas, da vida boa das pessoas de lá. Ele disse que se incomodava às vezes, com tanta arrogância, prepotência. Ela falou rindo:
— Não que seja r**m ter dinheiro, mas, tipo, já imaginou encher aqui de gente pobre, m*l vestida? Igual a filme? Eu ia amar ver um monte de criança naquela piscina do restaurante!
Ele disse rindo muito:
— Aqueles p.r.e.t.i.n.h.o.s com a canela cinza e o cabelo que nem molha direito, chamando as madames de tia ou dona!
Ela falou rindo:
— Sim, aqueles com prego no chinelo e se acabando de comer. C.a.r.a.m.b.a, isso seria tipo o auge! Eu amo pessoas n.e.g.r.a.s, sabia?
— A cor, os lábios, cabelo enrolado, acho demais! Você é meio desbotado, né? Você devia ter conhecido a Aisha, parecia uma modelo gringa, era tão linda e cheia de vida! Que saudades.
— Ela e o Noah tinham a mesma cor, de chocolate! Já viu ele sem camisa? Tem tatuagem por todos os lados!
O Tato falou irônico:
— Chocolate? Já mordeu um pedacinho?
Eles começaram a rir. Ela disse que não, se levantou e se debruçou na sacada de maneira perigosa, falou pensativa:
— Eu fico imaginando como será o bebê deles, talvez branco ou n.e.g.r.o, olhos claros, cabelo crespo. O filho do Ramon é muito lindo, parece uma pintura, os olhos verdes, as bochechas coradas!
O Tato falou com medo:
— Vem pra cá, é melhor você descer daí. Já imaginou alguma vez como seria seu filho? Você é linda, seu cabelo e o verde dos seus olhos são diferentes.
Ela continuou debruçada, disse séria:
— Nunca pensei, não, a maternidade não é pra mim, minha mãe é uma c.r.e.t.i.n.a. Acho que chegou mensagem no meu celular!
Ele se aproximou, falou segurando ela pela cintura, com medo dela cair:
— Acho que tá tocando, vem Beca, sai daí.
Eles voltaram para dentro do quarto. O Pablo estava ligando pra ela, disse que ia precisar sair, mas que à noite voltava, perguntou se ela estava melhor. Combinaram de se encontrar.
A Kim foi até lá, toda preocupada, perguntou se ela tinha melhorado, foi se aproximando, mexendo no cabelo da Rebeca, arrumando o travesseiro. Com desdém, a Rebeca a encarou e disse:
— Não precisa, é sério, eu tô bem. Eu estava pensando que queria ficar aqui mais tempo e não naquela casa. Pode ser?
Contrariada, a Kim falou:
— Como assim? A gente pode conversar a sós?
Rebeca segurou no Tato, disse que não era pra ele sair. A Kim respondeu:
— Sabe, Rebeca, eu tô bem cansada hoje, meu dia não está sendo nada fácil, eu tô com a cabeça explodindo e só vim ver se conseguia te levar ao médico. Mas se você não quer nada com nada, então fique aí. Vou embora!
A Rebeca ignorou, não disse nada, ficou só acompanhando a Kim com o olhar. O Tato falou assim que ficaram a sós:
— Você sempre tem hemorragia nasal? Já foi ver isso no médico?
Ela disse que era comum, deitou e dormiu o resto do dia. À noite, foi pra casa com o Tato, ele ia precisar ir embora resolver umas coisas de família. Ao chegarem, ela viu os carros lá na frente, já ficou apreensiva. Estavam reunidos na sala Lara, Ramon, Levi, Noah e Kim. O Tato falou com todos educadamente, eles silenciaram quando os dois entraram.
A Rebeca subiu sem dar nem boa noite, foi no quarto para ajudar o Tato com as coisas dele, ele logo desceu, se despediu e agradeceu à Kim pela hospedagem. A Rebeca foi acompanhar ele, ficou um pouco lá fora.
Quando ele saiu e ela se virou pra voltar e ir entrando, viu a Lara sentada no cantinho, fumando, encarando ela. A Lara falou irônica:
— E aí, meu raio de luz, perdeu um pouco do seu brilho, parece.
A Rebeca falou séria:
— Talvez você perdeu o interesse em mim e agora me vê como sou. Uma f.u.d.i.d.a igual a você.
A Lara falou que sentia a falta dela e que não ligava pra tudo o que aconteceu, porque entendia o lado dela. A Rebeca sentou perto, nos degraus, e falou cética:
— Entende, Lara? Sabe, às vezes eu acho que o problema tá em mim, porque todo mundo faz as mesmas coisas, deve ser isso. Sou uma egoísta, imatura!
Elas estavam em silêncio, olhando a rua. Estava tendo festa no vizinho da frente. O Noah saiu pra fora, falou sentando no meio delas:
— Faz tempo que eu não curto uma festa dessas!
A Lara falou passando um cigarro pra ele:
— Eu também, tô cansada de ficar sóbria! Às vezes eu me sinto como se estivesse assistindo minha vida em um telão. Eu tô muito na m.e.r.d.a!
A Rebeca falou:
— Eu queria ir a uma festa dessas!
O Noah perguntou se a Lara estava passando com o mesmo médico, disse que ele tinha alguém pra indicar. A Lara falou chorando triste:
— Não vai adiantar, deixa pra lá.
O Noah falou passando a mão no braço dela afetuoso:
— É só um tempo!
Ela disse levantando que era tempo demais, foi atender uma ligação longe deles. O Noah falou para a Rebeca:
— Ela não vai poder dançar por muito tempo, pole dance, essas coisas.
Ela respondeu séria, levantando:
— Eu vou!
Ele perguntou irônico:
— Dançar? Pole dance?
Ela entrou, foi passando pela sala. A Kim falou:
— Rebeca, eu quero falar com você. Vem aqui um pouquinho, por favor!
O Ramon e o Levi estavam lá, todos muito sérios. A Rebeca respondeu da escada:
— A gente pode conversar lá em cima?