SANGUE NO CHÃO

1083 Words
Matteo permaneceu com a mão firme em minha boca enquanto meu coração batia acelerado, fazendo com que eu sentisse as pulsações em meu pescoço e meus pulmões ardiam pela necessidade de gritar. O homem com a arma estava de costas para a janela, mas Javier levantou o olhar e deu de cara comigo ali, seus olhos cor de chocolate lavado por lágrimas e encheram de amor e pânico. Ele deu uma olhada para o lado, me mandando sair dali, mas eu não conseguia. Estava congelada. A mão de Matteo pressionou ainda mais minha boca quando percebeu o movimento desesperado de Javier. Seu peito colado às minhas costas subia e descia rápido, tão tenso quanto o meu corpo. Eu conseguia sentir os dedos dele tremendo levemente sobre meu rosto. Matteo estava com medo. E aquilo me aterrorizou mais do que a arma. — Você não entende — Javier choramingou, a voz embargada de puro terror. — Foi um erro, Emilio, eu nunca faria isso de propósito... As lágrimas escorriam pelo rosto dele sem qualquer dignidade. Javier sempre foi bonito demais, carismático demais, cheio demais de vida pra terminar ajoelhado num chão sujo implorando pela própria existência. Meu cérebro simplesmente se recusava a aceitar aquela cena. O homem com a arma suspirou como se estivesse cansado daquela conversa. Ele girou o pulso e encostou a arma ainda mais profundamente contra a testa de Javier. A luz amarelada refletiu no metal da arma. — Isso não importa mais — ele murmurou e o tempo parou. Meu coração falhou uma batida. O estampido do tiro rasgou o ar e tudo dentro de mim pareceu desmoronar. Javier caiu para o lado com um baque seco, um som que ecoou na minha alma ao mesmo tempo em que a poça de sangue começou a criar forma ao redor de sua cabeça. Vermelho e se espalhando rápido demais. Meu grito rasgou minha garganta antes que eu pudesse contê-lo, mas Matteo foi mais rápido, apertando seu braço ao meu redor e me puxando para longe da janela. — Lizzy, a gente precisa sair daqui! — ele sibilou no meu ouvido, me arrastando para a lateral do casebre e me empurrando para os fundos do quintal. Meu corpo inteiro tremia, meu peito subia e descia rápido demais, e eu só conseguia pensar no sangue de Javier se espalhando pelo chão. Eu tinha visto pessoas morrerem em filmes, séries, nas mais aterrorizantes notícias na TV. Mas nada me preparou para o som de alguém sendo executado tão perto de mim. — Vamos, p***a. Reage, stellina. O apelido, tão comum quando estávamos juntos, pareceu me fazer voltar do congelamento para a realidade. — Ele atirou, Matteo! Ele atirou! — Minha voz era um sussurro desesperado, e eu tentei me soltar, mas Matteo segurou meu rosto com as duas mãos, forçando-me a encará-lo. Os olhos dele estavam arregalados, calculando rotas de fuga. Matteo era um homem acostumado ao caos, mas parecia alerta e apavorado naquele momento. — E se você continuar aqui, ele vai atirar na gente também! Você precisa se mexer, Lizzy! Meu corpo tremia de pavor e eu não conseguia me controlar, não quando minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Matteo deu pequenos tapinhas em meu rosto, o desespero nítido em seus olhos. — Stellina, confie em mim – ele murmurou, me puxando pelo braço para segui-lo. Confiar. Que palavra ridícula. Matteo tinha destruído meu coração dois anos atrás e mesmo assim meu corpo continuava querendo obedecer a ele. Os sons de passo dentro do casebre ecoaram e mais um tiro foi disparado e me fez choramingar um pouco mais alto. O som explodiu tão perto que meus ouvidos zuniram. Matteo me puxou para correr pelo corredor dos fundos, cheio de pilhas de caixas, restos de tinta e todo o armazenamento do que sobrou de nossas obras nos últimos meses para que pudéssemos trabalhar dali. O corredor parecia infinitamente mais estreito agora. As caixas empilhadas projetavam sombras deformadas pelas luzes externas e o cheiro forte de solvente queimava minhas narinas enquanto corríamos. Tropecei contra uma lata de tinta. Ela rolou pelo chão de cimento com um barulho alto demais. A porta do casebre rangeu, abrindo. Meu coração praticamente parou. — Por aqui — ele exigiu, me levando para o fim do corredor. — Aqui não tem saída — eu o avisei. Minha voz saiu quebrada pelo choro e pelo terror. Meu coração parecia um tambor de festa macabra enquanto tentava voltar a mim para lutar pela minha vida, as lágrimas pela perda de Javier sendo negligenciadas bem naquele momento em que doía mais. Eu nem tinha conseguido processar que ele estava morto. Há poucos minutos Javier estava reclamando do preço absurdo dos pincéis importados e agora existia um buraco na cabeça dele. Ele não ligou. Empilhou três caixotes de madeira e subiu neles, ficando mais alto que o muro. Os movimentos dele eram rápidos e precisos. Práticos demais pra alguém desesperado. Me ofereceu a mão, mas olhei para trás, cogitando encontrar outra maneira de fugir. Talvez se eu me escondesse… Talvez aquele homem não tivesse me visto… Talvez tudo aquilo ainda pudesse ser só um pesadelo horrível e eu fosse acordar com um gosto amargo na boca. — Precisamos subir agora! — ele exigiu. A paciência na voz dele estava desaparecendo rapidamente. Bem quando aceitei sua mão, ouvimos um barulho no começo do corredor e me virei para olhar e vi o homem parado, encarando nós dois em choque com a nossa presença. Meu sangue gelou. Ele era alto, vestia preto e segurava a arma com naturalidade assustadora. Não parecia nervoso. Não parecia hesitante. Parecia um homem perfeitamente confortável em matar. Por um segundo, ninguém se moveu. Nem eu. Nem Matteo. Nem o assassino. Então os olhos escuros do homem encontraram os meus. E eu soube que ele lembraria do meu rosto. Matteo me ergueu em seus braços com pressa e o ar frio da noite bateu no meu rosto, mas não tivemos nem um segundo de alívio. O concreto áspero do muro raspou minha perna enquanto ele praticamente me jogava para cima. Dois tiros ecoaram atrás de nós e acertaram o muro bem entre meu pé e o rosto de Matteo, lançando fragmentos de cimento pelo ar. Eu gritei enquanto Matteo xingava em italiano. E naquele instante, numa breve olhada para trás, na direção do tiro, percebi uma coisa horrível: aquele homem não pretendia nos assustar. Ele pretendia nos matar para não ter nenhuma testemunha do crime que acabara de cometer.
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