Passado: A VIDA COMO ALGUÉM COMUM

1185 Words
Depois de tirados do mar, Tahira e Jeana foram para a casa delas, assim como todos nós que as seguimos. Foi uma longa viagem. Tahira reclamava a todo instante de seu corpo que doía. Eu m*l conseguia a encarar de tão estranha que ela tinha ficado. Após meses de viagem e após dois dias de ter nos instalado em sua casa, a mulher disse, numa janta, que não poderia mais ficar com Vitto. A notícia chocou a todos. — O quê?! — Gulian exclamou. — Vitto é da família. Tahira respirou fundo, com um dos olhos meio morto e o outro normal, observando Vitto. — Não estou fazendo isso por maldade. — Olhou para o sobrinho. — Estou fazendo, porque eu não conseguirei sustentar a todos. — Eu estou procurando trabalho! — Gulian vozeou. — Estou tentando, mas ninguém parece precisar. Ela mexeu com o cotoco de um braço e com o outro inteiro, buscando explicar: — Vasars não está num bom momento, Gulian. Precisar, todos precisam, mas não tem como pagar por serviços. — Então vamos sair de Vasars — Ele apresentou a solução. Tahira, que dizia com o maior eufemismo possível, tentava fazer seu sobrinho entender que não era a ruindade que a forçava a fazer aquilo, era a necessidade. Eu enxergava, embora o Gulian não. — E para onde iríamos? — ela o questionou. — Para qualquer lugar! — Seríamos indigentes em outras cidades. Não teríamos teto e viveríamos da esmola dos outros. — Tahira buscou explicar. — Então, no mínimo, viveríamos igual vivemos aqui. — Ao menos aqui temos um teto — ela explicou. Gulian respirou fundo, fechando os olhos e tentando manter a paciência. Ainda naquela época ele perdia insanamente a cabeça numa simples discussão amigável. — A senhora pode vender a casa e comprar outra longe daqui. — E quem compraria uma casa numa cidade falida, Gulian? Famílias e mais famílias estão abandonando a cidade todos os dias. Porque você pensa que alguém gastaria becoris para vir para cá? Gulian olhou para o lado e, após um bom tempo, voltou a olhar para ela. — Ah, tia... A gente vai pensar em algo — garantiu, aborrecido. — Ele pode ficar no orfanato da cidade — ela comentou, gesticulando com a mão. — Vocês não vão perder o contato, só não dormirão na mesma casa. Gulian se levantou, irritado, já Vitto continuou parado, se recusando em tocar na comida negada a ele dali em diante. — Se Vitto for, eu vou. — Você não vai! — ela finalmente exclamou. — De acordo com a lei de Neerit eu sou obrigada a cuidar de você. O garoto parou imediatamente com todos os gestos sobressaltados e riu com sarcasmo. — É obrigada?! Quando Tahira percebeu o que dissera, demonstrou arrependimento e logo tentou explicar do melhor modo possível: — Eu não quis dizer isso. Não estou com você por obrigação, querido. Você é o filho do meu irmão, não é obrigação. Com lei ou sem lei eu tiraria comida de minha boca para te alimentar, mas eu não posso sustentar todos nós e a Vitto ao mesmo tempo. Já basta essa pequena coisa — apontou para mim — que tenho de alimentar. Gulian só ouvia o que lhe afetava, pelo visto. — Telo nem come direito. Tem só três anos. Dez caroços de burucas enche seu estômago. Isso não era verdade, embora dez caroços de burucas me enchesse mais do que o pouco que sobrava para eu comer. — Por que não o vendemos? — Tahira deu a ideia. — Telo vale muito dinheiro. Muito! Assim podemos ficar com Vitto. Assim podemos sair da cidade e comprar uma boa casa em outra. Vitto continuava calado. Talvez soubesse o destino dessa conversa antes de todo o andamento. — Não vire o jogo para cima de mim! Telo é a única lembrança que tenho de meu pai. A única coisa que me restou de tudo. Não me faça ter que decidir entre Telo e Vitto, sua i****a. — Gulian! — Tahira vociferou de olhos arregalados. — Eu vou embora — Vitto se levantou, interrompendo a discussão. Ele não olhava para Gulian. Ele nunca olhava para o primo quando precisava que o Gulian decidisse algo que tinha a ver com ele, talvez para não manipular a sua decisão. — Obrigado por deixar que eu ficasse aqui por esses dias, dona Tahira. Foi o suficiente para que eu me sentisse menos um... um ninguém. Eu sabia que esse dia chegaria e eu não a culpo. Eu consigo enxergar o problema e sei que com a minha presença só piora. — Ele olhou para Gulian, que já o encarava com ódio. — Eu não tenho problemas quanto a viver num lar para crianças órfãs, primo. — Mas eu tenho dificuldades em aceitar que você viva num lugar desses. Você nunca ouviu as histórias que contam de como as pessoas fazem essas crianças sofrerem? O silêncio se fez naquela cozinha por um bom tempo. — Eu já estou acostumado a esse tipo de vida. Não se preocupe, eu vou sobreviver alguns anos num lugar assim. — Arrumou a cadeira sem antes tocar na comida em seu prato. — Eu vou lá agora, dizer que preciso do amparo da cidade. — No final, ele olhou para Gulian e acrescentou: — Passa amanhã lá para procurarmos serviço na cidade juntos outra vez? Meu senhor continuou a olhá-lo, sem expressão alguma e então acenou com a cabeça, sendo vencido pela necessidade. — Eu vou te levar lá. — Arrumou a sua cadeira na mesa. — Vocês podem fazer isso amanhã. Não tem necessidade que você saia da casa em imediato — Tahira disse e, sem graça, Vitto gesticulou negativamente a cabeça. — Comam primeiro então. — Obrigado, outra vez — Vitto disse. — Mas não. Ambos os primos saíram dali. Pensei em segui-los, mas eu só os atrasaria com as minhas pernas pequenas, e não era sempre que Gulian estava disposto a me carregar sobre seus ombros. — Eu juro que não foi esse o motivo... — Ela tentou se explicar, sabendo que eu levaria ao Gulian seu pedido de desculpa. Eu não sabia se lhe dava ouvidos. Não me importei, naquele instante, com as regras estúpidas de que sumos eram obrigados a prestar atenção caso algum humano falasse. Eu estava irritado por ela ter sugerido que Gulian me vendesse. Mas ao mesmo instante eu sentia pena de sua posição em ser aquela a ter de dar as más notícias. — Ele vai entender. — Tentei acalentá-la. — Mãe, Gulian é impulsivo. Ele só assustou e explodiu, mas ele entende — sua pequena monstrinha emendou. A cidade vivenciava a maior crise já vista pelas redondezas. Muito menos que isso, segundo livros, já tornou cidades em ruínas e até tombou pequenos reinos esquecidos hoje em dia. Anos atrás, Vasars chegou a ser um dos maiores plantadores de trigo de todo o reino, mas com a seca excessiva de quase uma década que a região enfrentava, plantação alguma conseguia sobreviver, fazendo a cidade empobrecer por ter perdido tudo o que plantara repetidas vezes.
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