Isabela narrando
A água do chuveiro batia em meu corpo como uma oração. Era a única forma que eu tinha de lavar a sujeira do mundo, de me livrar da angústia que se instalou em meu peito. A noite na delegacia, a conversa com Eduardo e a certeza de que a vida do meu irmão havia desmoronado, tudo isso pesava em meus ombros. E, por ironia do destino, a minha mente estava em um homem que eu havia conhecido há poucas horas.
Eu lavei meus cabelos, sentindo o shampoo escorrer pelas mechas, e me lembrei do seu olhar. O olhar de Lucas. Ele era um homem que parecia ter o mundo nas costas, mas a tristeza em seus olhos me intrigou. O seu corpo atlético, a sua farda da PRF, tudo nele era de um mundo que eu não conhecia. Ele era um homem que exalava perigo, e eu, por algum motivo, me senti atraída por ele.
Eu me senti uma adolescente. Eu tinha 23 anos, e nunca havia namorado de verdade. Depois que o meu pai faleceu, eu me tornei a provedora da minha família. Eu me dediquei ao restaurante, à minha faculdade, à minha mãe e ao meu irmão. O meu foco era a minha família, e não havia tempo para um romance. Eu já havia beijado alguns homens, mas nunca tive um relacionamento sério.
E eu me senti uma criança. Eu me senti inadequada. Como eu poderia me sentir atraída por um homem como Lucas? Ele era um homem que parecia ter o mundo aos seus pés. Ele provavelmente tinha uma namorada, uma mulher tão perfeita quanto ele. E eu? Eu era a irmã de um criminoso, uma mulher que não tinha tempo para namorar, uma mulher que não tinha experiência na vida. Eu nunca teria uma chance com um homem como ele.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, e elas se misturavam com a água do chuveiro. Eu me permiti chorar. Eu me permiti sentir a minha dor, a minha frustração, a minha raiva. Eu me permiti me sentir uma mulher fraca, uma mulher que não conseguia lidar com a sua vida.
Quando saí do banheiro, me senti um pouco melhor. O choro havia me limpado. Eu me olhei no espelho, e a imagem que eu vi era a de uma mulher com olhos inchados e o rosto vermelho. Eu me enxuguei, e me vesti. A minha roupa era simples, mas elegante. Uma calça jeans e uma blusa preta, a mesma que eu usava quando eu era apenas Isabela. A Isabela que ia para o restaurante, a Isabela que tomava conta da sua família.
Eu fui para a cozinha, onde minha mãe estava preparando o café da manhã. Ela me olhou e me deu um sorriso triste.
— Minha filha, você não dormiu bem? — ela perguntou, com a voz carregada de preocupação.
— Eu estou bem, mãe. Só tive uma noite difícil.
Eu me sentei à mesa, e peguei uma xícara de café. O cheiro de café me deu um conforto que eu não sentia há muito tempo.
— Filha, eu estou tão preocupada com o Rafael. Eu não sei o que vai ser da nossa vida — ela disse, com a voz embargada.
— Vai dar tudo certo, mãe. Eu vou lutar por ele. Eu vou fazer de tudo para que ele tenha uma chance.
A minha determinação era a única coisa que me fazia levantar da cama todos os dias. A minha família era o meu porto seguro, o meu mundo. E eu não podia deixar que ele desabasse.
Nós terminamos de tomar o café, e eu me levantei. Eu peguei a minha bolsa, e a chave do Voyage branco.
— Eu vou para o restaurante, mãe. Você pode vir comigo?
— Sim, minha filha. Eu vou com você.
Eu saí de casa, e o sol da manhã me atingiu com uma força que eu não conseguia suportar. A minha vida estava em ruínas, mas eu tinha um propósito. Eu tinha a minha família, e eu tinha que lutar por ela. E, no meio de tudo isso, a imagem de Lucas, do seu olhar triste e da sua farda da PRF, me veio à mente. O destino, que antes me parecia tão c***l, agora me parecia um jogo de cartas. E eu estava pronta para jogar.