Isadora
Mesmo tendo compactuado com a Rebeca em sua ideia maluca, eu realmente não acreditei que aquilo seria concretizado e passei todo o sábado em busca de um lugar para morarmos, pois, havia sido determinado que teríamos que sair de nossa casa na segunda-feira e que mais nenhum outro prazo seria dado a nós.
A situação era difícil e por sorte, nós tínhamos ainda algum dinheiro em nossas contas bancárias e por esse motivo não ficaríamos de fato desabrigadas, pelo menos não imediatamente. Mas o valor era mínimo e era extremamente necessário que nós encontrássemos alguma fonte de renda o mais rápido possível, algo que parecia não estar preocupando a minha irmã.
A Rebeca estava totalmente confiante em vender-se no aplicativo de leilão, algo que eu considerava extremamente absurdo e até mesmo a existência de tal possibilidade me deixava horrorizada, mas ela não se dava conta do tamanho da loucura de tudo aquilo.
De qualquer forma, quando pensava que teríamos que entregar a nossa casa, eu me sentia completamente arrasada e triste, não pelo luxo em que sempre vivi e sim pela questão emocional, visto que eu amava o lugar que foi sempre o nosso lar.
Nós tínhamos perdido nossa mãe fazia apenas um ano. Guilhermina Meirelles era doze anos mais velha que nosso pai e faleceu aos sessenta e seis anos devido a complicações em decorrência de um procedimento estético m*l sucedido. Agora o nosso pai também havia partido, nos deixando sozinhas.
Não concordava quando a Rebeca falava m*l dele, pois sempre havia sido um ótimo pai. Mas precisava reconhecer que ela tinha certa razão quando dizia que Alfredo Meirelles havia sido um tremendo i****a por deixar as suas filhas em maus lençóis, depois de sempre ter nos proporcionado o melhor que o dinheiro poderia oferecer, agora nos deixava sem um tostão.
Estava terminando de descer toda a nossa bagagem com a ajuda dos funcionários da mansão, depois de ter encontrado enfim um pequeno apartamento de preço acessível, quando a Rebeca entrou saltitante no vestíbulo luxuoso da mansão que até então ainda morávamos, a felicidade estampada em seu rosto.
- Consegui dois milhões de Reais! – Falou exultante.
Já estava prestes a pular de alegria também, quando a recordação do que ela havia se disponibilizado a fazer veio à memória, juntando as peças e entendendo que esse valor deveria se referir ao leilão em que ela havia se colocando à venda.
- Você irá mesmo em frente com essa ideia absurda?
- Nada vai me demover de conseguir esses dólares, Isadora. Nada!
Após falar aquilo com uma convicção inabalável, ela olhou para as malas ao pé da grandiosa escada que levava ao andar superior de nossa casa e a cena pareceu mexer com ela, pois logo um pranto convulsivo tomou conta da Rebeca, deixando claro o quanto estava fragilizada, assim como eu mesma me sentia.
- Nós perdemos tudo, Isadora! Tudo! – Começou a falar entre soluços. – Como podemos ser pobres assim, de repente? Eu não aceito... não aceito...
A abracei e tentei acalmar o seu choro, deixando que o meu pranto também descesse livremente por meu rosto. Ficamos ali, consolando uma à outra, como sempre fizemos desde que éramos pequenas. Quando a Rebeca pareceu um pouco mais controlada, ela se soltou de meus braços e me encarou com os olhos molhados pelo choro derramado, me fazendo sentir toda a tristeza que ela estava despejando naquele momento.
- Preciso sair. Não vou aguentar ficar aqui olhando nossas coisas serem jogadas fora.
- Não é assim, Rebeca. Ninguém está aqui nos jogando na rua.
- Mas é assim que me sinto.
Pela mesma porta pela qual Rebeca havia entrado há apenas alguns minutos, ela então saiu novamente e me deixou ali com tudo para resolver sozinha. Lamentei a nossa sorte, mas coloquei mãos à obra. Ninguém mais faria aquilo por nós.
**********?************
Rebeca não apareceu mais naquele dia e eu tive que fazer toda a nossa mudança para o nosso novo endereço, sozinha. Nós não poderíamos levar móveis ou coisas do tipo, apenas os nossos pertences pessoais, mas tinha muita coisa, juntando as minhas com a da minha irmã e foi bastante trabalhoso.
Havia alugado um apartamento modesto em um bairro popular, mas ainda assim não poderíamos manter o lugar por muito tempo, caso não encontrássemos logo algum emprego para nós duas.
Não queria nem mesmo pensar no dinheiro que a minha irmã havia conseguido, pois, ainda tinha esperanças de que ela desistisse daquela loucura.
Eu estava bastante preocupada, pois a última vez que recebi notícias dela foi no domingo à noite, quando me enviou uma mensagem para avisar que iria sair com a sua amiga Cíntia, pois estava precisando se distrair de tudo o que estava acontecendo em nossas vidas e que não conseguiria me ajudar na mudança.
Eu a compreendi, mas já era tarde de segunda-feira e ela não havia aparecido ainda no nosso novo endereço. Contudo, quando a Rebeca apareceu no dia seguinte, a preocupação só aumentou, pois, ela trouxe consigo mais um problema para as nossas vidas. Este era bastante sério e me deixou completamente desestabilizada, como nem mesmo a recente “pobreza” havia conseguido.
- Como assim, você perdeu a virgindade ontem, Rebeca!? – Praticamente gritei, me sentindo descontrolada.
Ela se jogou no pequeno e desconfortável sofá da sala, levando a mão ao cabelo em um gesto de desespero.
- Eu não sei como isso aconteceu! – Ela falou no mesmo tom. – Eu estava na boate com a Cíntia e confesso que havia bebido bastante. Mas...
- Mas...
- Eu acordei no apartamento de um cara, não sei nem mesmo quem é.… não sei nem mesmo o nome... tudo o que eu sei é que eu estava nua e ele também e.… está tudo tão embaralhado na minha cabeça.
Era notável que ela estava se sentindo péssima, mas isso não diminuía a sua culpa. Ela foi completamente irresponsável, inconsequente. Ainda mais irresponsável do que já havia sido durante toda a sua vida, na verdade.
- Deixa ver se eu entendi... – Tentei manter a calma e recapitular o que ela havia acabado de me contar. – Você bebeu, foi ao apartamento de um homem e dormiu com ele. Não sabe quem ele é e também não lembra o que aconteceu?
- Exatamente. – Ela confirmou. – Liguei para a Cíntia, mas ela disse que também bebeu muito e não lembra de muita coisa.
- Mas, onde ela está?
- Está em seu apartamento.
Como eu já havia imaginado, só a Rebeca acabou se prejudicando nessa história.
- E agora, Isadora? – Rebeca perguntou em um tom de desânimo. – O que vou fazer? Preciso cumprir com a minha parte do leilão. Não posso simplesmente chegar lá e dizer que não tem mais virgindade.
- Tem coisas que acontecem para o nosso bem. – Argumentei. – Eu não concordava mesmo com essa sua maluquice e agora está resolvido. Não tem virgindade e esse leilão não deu em nada. Ponto final.
Rebeca me olhou com parecendo muito angustiada e entendi no mesmo instante que havia mais naquela história do que eu tinha conhecimento e que eu não gostaria nada de ouvir o que ela tinha para me contar.
Coloquei a mão na cabeça, me sentindo frustrada por toda a loucura que estava acontecendo em nossas vidas e me preparei para saber o que ainda estava por vir.
- Eu consegui de um agiota uma parte do dinheiro que iria ganhar do leilão e comprei um apartamento para nós.
- Eu não acredito! Como você conseguiu fazer isso em apenas dois dias, Rebeca!?
Ela então me contou que já havia pesquisado apartamentos desde o primeiro dia em que o leilão teve início e que no sábado mesmo havia conseguido o dinheiro e feito a compra, pois segundo ela, o apartamento era excelente e estava com um ótimo preço, não poderia perder aquela oportunidade.
- Estamos ferradas.
- Você precisa me ajudar.
Ao ouvir o tom de autoridade com que ela disse aquelas palavras, olhei de imediato para a Rebeca, não querendo entender as implicações em sua frase, mas conseguindo compreender muito bem aonde ela queria chegar. Levantei do sofá e comecei a caminhar para longe da minha irmã. Não queria ouvir o que ela iria me pedir. Era demais para mim.
- Você tem que fazer isso, Isadora. – Ela levantou e me segurou pelos braços, sua postura era de uma pessoa em estado de desespero.
Eu conseguia entender a sua ânsia para que eu a ajudasse. Ela agora estava devendo muito dinheiro para um agiota, pois esperava ganhar muito dinheiro com o que pretendia fazer. Mas eu não poderia responder por seus erros e eu não iria fazer aquilo novamente.
Uma coisa era quando nós éramos apenas crianças e ela temia ser castigada por suas brincadeiras proibidas e eu acabava assumindo a culpa e ficando de castigo em seu lugar. Outra coisa bem diferente era o que ela estava me pedindo agora.
- Não posso fazer isso, Rebeca. É uma loucura e eu te falei desde o início. – Falei calmamente. – Você só precisa devolver o apartamento e, quando conseguir o dinheiro de volta, paga ao agiota.
- Você não entende. – Ela falava me encarando diretamente e dentro dos olhos era possível observar o medo. – Eu vou perder muito dinheiro por quebra de contrato e o agiota também vai querer os juros do dinheiro que emprestou. É um valor muito alto.
Apesar de acreditar realmente que o valor seria alto, eu ainda assim não me sensibilizei com a situação em que a Rebeca havia se metido. Seria necessário um esforço monumental para ajudar a irmã daquela vez e eu realmente não estava disposta. Até que a Rebeca caiu novamente em um pranto sofrido e aquilo sim, conseguia me desestabilizar.
- Vamos manter a calma, Rebeca. – Falei, a levando novamente para o sofá e abraçando enquanto afagava os seus cabelos na tentativa de a consolar. – Foi justamente por querer resolver tudo de maneira apressada que você se meteu nessa encrenca.
Ficamos ali por bastante tempo e mesmo após pensar em todas as possibilidades, cheguei à mesma conclusão que a minha irmã, de que não havia outra saída a não ser cumprir com a sua parte no leilão e comecei a me preparar psicologicamente para o que estava por vir.
Não bastava termos perdido nosso pai, a única família que nos restava, ter que sair da nossa casa e estarmos em uma situação de fragilidade financeira. Agora também estávamos envolvidas com agiotas e leilões inadmissíveis, como o que Rebeca havia insistido em participar.