Luna No morro, a noite tem olhos. E ouvidos. E dentes. Eu sei disso. Mas a rotina me deixa descuidada. O caminho até a ONG é o mesmo há anos. Os rostos, conhecidos. O perigo, calculado. Ou eu achava que era. A noite tinha caído há pouco. Eu me atrasei porque Valéria esqueceu o caderno na ONG, e eu voltei pra pegar. O beco estava escuro. Mais do que o normal. Mais do que o seguro. De longe, vi o brilho de olhos atentos. Dois moleques encostados na parede, capuz baixo, postura tensa. O tipo que não respeita nem a mãe. Nem a lei. Nem ninguém. Eu apertei o passo. Fingi firmeza. Cabeça erguida, olhar pra frente. Mas não adiantou. O menor deles saiu do canto, bloqueando minha passagem. O outro veio por trás, fechando a saída. — E aí, moça. Perdida? Meu coração disparou,

